{"id":2393,"date":"2018-02-18T10:04:04","date_gmt":"2018-02-18T13:04:04","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=2393"},"modified":"2018-02-18T10:04:04","modified_gmt":"2018-02-18T13:04:04","slug":"nas-entrelinhas-nao-morreram-em-vao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-nao-morreram-em-vao\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: N\u00e3o morreram em v\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em>O comandante militar do Leste, general Braga Netto, \u00e9 o novo xerife do Rio. Tem a tarefa de restabelecer a paz e a ordem. \u00c9 a primeira interven\u00e7\u00e3o federal depois da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988<\/em><\/p>\n<p>Quando a It\u00e1lia entrou na I Guerra Mundial, em 1915, ao lado da \u201cEntente\u201d (alian\u00e7a entre Fran\u00e7a, Inglaterra e R\u00fassia), os pol\u00edticos italianos acreditavam que aquela seria uma oportunidade de libertar Trento e Trieste do jugo estrangeiro e declararam guerra ao Imp\u00e9rio Austro-H\u00fangaro. Centenas de milhares de jovens foram recrutados e lan\u00e7ados \u00e0 batalha. No primeiro confronto, por\u00e9m, o ex\u00e9rcito inimigo manteve as suas linhas de defesa de Izonso e o ataque foi contido. Morreram 15 mil italianos.<\/p>\n<p>Na segunda batalha, foram 40 mil mortos; na terceira, 60 mil. Os italianos lutaram \u201cpor Trento e por Trieste\u201d em mais oito batalhas, at\u00e9 que, em Caporreto, na d\u00e9cima-segunda, foram derrotados fragorosamente e empurrados pelas for\u00e7as austro-h\u00fangaras \u00e0s portas de Veneza. O epis\u00f3dio, citado no livro Homo Deus, de Yuval Noah Harari (Companhia das Letras), ficou conhecido como a s\u00edndrome \u201cNossos rapazes n\u00e3o morreram em v\u00e3o\u201d, porque foram contabilizados 700 mil italianos mortos e mais de 1 milh\u00e3o de feridos ao final da guerra.<\/p>\n<p>Depois de perder a primeira batalha de Izonzo, os pol\u00edticos italianos tinham duas op\u00e7\u00f5es. A primeira era admitir o erro e assinar um tratado de paz, que seria aceito pelo Imp\u00e9rio Austro-H\u00fangaro, que enfrentava outros tr\u00eas ex\u00e9rcitos poderosos. Prevaleceu a segunda, porque a primeira tinha o \u00f4nus de ter que explicar para os pais, as vi\u00favas e os filhos dos 15 mil mortos de Izonso por que eles morreram em v\u00e3o. Era mais f\u00e1cil exacerbar o nacionalismo e continuar a guerra.<\/p>\n<p>Entretanto, Harari adverte que n\u00e3o se pode culpar apenas os pol\u00edticos. O povo tamb\u00e9m continuou apoiando o envio de tropas para o front. E quando a guerra terminou e os territ\u00f3rios n\u00e3o foram recuperados, mesmo com o fim do Imp\u00e9rio Austro-H\u00fangaro, os pol\u00edticos e o povo entregaram o poder a Mussolini e seus fascistas, que prometerem conseguir para a It\u00e1lia uma compensa\u00e7\u00e3o compat\u00edvel com os sacrif\u00edcios feitos.<\/p>\n<p>Nem de longe Trento e Trieste se parecem com a Rocinha e o Complexo do Alem\u00e3o, muito menos as For\u00e7as Armadas tiveram baixas at\u00e9 agora no Rio de Janeiro, mas j\u00e1 d\u00e1 para perceber aonde \u00e9 que podemos chegar com a decreta\u00e7\u00e3o da interven\u00e7\u00e3o federal na seguran\u00e7a do Rio de Janeiro. \u00c9 a repeti\u00e7\u00e3o de uma solu\u00e7\u00e3o que n\u00e3o teve resultados satisfat\u00f3rios: o emprego das For\u00e7as Armadas para combater o tr\u00e1fico de drogas e fazer o patrulhamento ostensivo nos logradouros importantes da cidade.<\/p>\n<p>H\u00e1 um pacto entre o governo federal e o governo estadual nessa quest\u00e3o da seguran\u00e7a e outras pol\u00edticas p\u00fablicas que entraram em colapso no estado. Porque est\u00e3o sob controle de correligion\u00e1rios, o presidente Michel Temer e o governador Luiz Fernando Pez\u00e3o, que ontem tirou por menos a situa\u00e7\u00e3o e disse que pretende deixar como legado de seu governo a presen\u00e7a do Ex\u00e9rcito, Marinha e Aeron\u00e1utica na seguran\u00e7a do estado. Ambos s\u00e3o do MDB. E, agora, empunham a bandeira da ordem.<\/p>\n<p><strong>Confronto<\/strong><br \/>\nA medida tomada tem certa funcionalidade, porque a situa\u00e7\u00e3o havia realmente sa\u00eddo do controle durante o carnaval, com o colapso da seguran\u00e7a p\u00fablica. Mas n\u00e3o ser\u00e1 uma resolu\u00e7\u00e3o efetiva para o problema, que demanda um esfor\u00e7o de longo prazo e uma mudan\u00e7a de lideran\u00e7a pol\u00edtica, pois a atual foi desmoralizada pelas crises fiscal e \u00e9tica. \u00c9 mais uma jogada pol\u00edtica e de marketing, que pode ter o efeito contr\u00e1rio se fracassar. O tempo dir\u00e1.<\/p>\n<p>Muitos acham que a interven\u00e7\u00e3o esvaziaria o discurso do deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ), que prega uma esp\u00e9cie de \u201cterror de Estado\u201d nas comunidades controladas pelo tr\u00e1fico. Em evento promovido pelo banco Pactual BTG, em 6 de fevereiro, para mais de mil executivos do setor financeiro, Bolsonaro declarou que mandaria um helic\u00f3ptero derramar milhares de folhetos sobre a favela da Rocinha, avisando que daria um prazo de seis horas para os bandidos se entregarem. Encerrado o tempo, se eles continuassem escondidos, metralharia a Rocinha. Foi aplaudido de p\u00e9.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a primeira interven\u00e7\u00e3o federal feita com base na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 e inverte a situa\u00e7\u00e3o das opera\u00e7\u00f5es de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) realizadas at\u00e9 agora, seja para garantir a realiza\u00e7\u00e3o das Olimp\u00edadas e da Copa do Mundo, seja para combater o tr\u00e1fico de drogas e garantir as vias de acesso \u00e0 capital fluminense. O comandante militar do Leste, general Walter Souza Braga Netto, de 60 anos, por\u00e9m, \u00e9 o novo xerife do Rio de Janeiro. Tem a tarefa de restabelecer a paz e a ordem.<\/p>\n<p>Antes, a miss\u00e3o das For\u00e7as Armadas era apoiar as pol\u00edcias civil e militar; agora, o general vai comand\u00e1-las. Al\u00e9m disso, uma mudan\u00e7a de legisla\u00e7\u00e3o garante aos soldados e oficiais das For\u00e7as Armadas o foro privilegiado da Justi\u00e7a Militar em casos de confronto. Mesmo assim, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 dram\u00e1tica, porque uma parte das for\u00e7as de seguran\u00e7a estaduais est\u00e1 comprometida com o crime organizado e a outra, desmoralizada e desmotivada, al\u00e9m de fragilizada por constantes execu\u00e7\u00f5es de policiais militares. O problema do Rio n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a seguran\u00e7a p\u00fablica. Faltam compet\u00eancia e honestidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O comandante militar do Leste, general Braga Netto, \u00e9 o novo xerife do Rio. 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