{"id":2413,"date":"2018-02-25T10:53:08","date_gmt":"2018-02-25T13:53:08","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=2413"},"modified":"2018-02-25T10:53:08","modified_gmt":"2018-02-25T13:53:08","slug":"nas-entrelinhas-convergencia-democratica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-convergencia-democratica\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Converg\u00eancia democr\u00e1tica"},"content":{"rendered":"<p><em>A fragmenta\u00e7\u00e3o das for\u00e7as pol\u00edticas de campo democr\u00e1tico pode resultar na vit\u00f3ria de solu\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias para os nossos problemas, como em outros momentos de crise que demandavam reformas<\/em><\/p>\n<p>Tudo o que foi feito para ultrapassar o regime militar e construir uma democracia duradoura, que servisse de alicerce para garantir o crescimento econ\u00f4mico, reduzir as iniquidades sociais e garantir o exerc\u00edcio pleno da liberdade em nosso pa\u00eds, num prazo relativamente curto, est\u00e1 meio que de pernas para o ar: um vice na Presid\u00eancia em raz\u00e3o de um impeachment enrolado na Lava-Jato; o Congresso desmoralizado pela corrup\u00e7\u00e3o e o fisiologismo e a Justi\u00e7a atabalhoada, atuando como poder moderador. A crise tr\u00edplice (econ\u00f4mica, pol\u00edtica e \u00e9tica) ainda n\u00e3o atravessou o t\u00fanel das incertezas, e tudo o que foi feito para criar e aperfei\u00e7oar nossos mecanismos democr\u00e1ticos est\u00e1 sendo posto em xeque pela sociedade. Entretanto, a democracia brasileira resiste, gra\u00e7as \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o da sociedade e ao amadurecido e in\u00e9dito compromisso dos militares com o Estado de direito democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno isolado que possa ser atribu\u00eddo apenas aos nossos desgovernos, muito pelo contr\u00e1rio. Estamos diante de um cen\u00e1rio que tem muitos paralelos com as crises em outros pa\u00edses, e que faz parte da crise das institui\u00e7\u00f5es, governos, parlamentos, partidos, sindicatos e movimentos da democracia Ocidental. Com a particularidade de que s\u00e3o agravados por nossos ingredientes nacionais, entre os quais velhas tradi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de origem ib\u00e9rica, como o sebastianismo e o patrimonialismo. E um fato novo em pleno curso: a Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato, que flagrou pol\u00edticos, empres\u00e1rios e executivos de estatais e \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos, a elite dirigente do pa\u00eds, num monumental assalto aos cofres p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Em meio a tudo isso, o governo Michel Temer, fruto do impeachment de Dilma Rousseff, operou com sucesso uma pol\u00edtica econ\u00f4mica que nos possibilitou sair da recess\u00e3o e estabilizou a economia, que hoje apresenta as menores taxas de infla\u00e7\u00e3o e de juros desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o. Mas isso n\u00e3o significa a supera\u00e7\u00e3o da crise brasileira, porque as velhas estruturas pol\u00edticas que a provocaram e est\u00e3o no centro dos esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o foram blindadas pela recente reforma pol\u00edtica e se encastelaram no poder Executivo e no Legislativo. Mas n\u00e3o est\u00e3o sendo capazes de estabelecer alternativas nas elei\u00e7\u00f5es majorit\u00e1rias, principalmente para presidente da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>As elei\u00e7\u00f5es que se avizinham ainda est\u00e3o polarizadas por uma direita e uma esquerda de vi\u00e9s autorit\u00e1rio, populista e fiscalmente irrespons\u00e1veis, que se digladiam e se retroalimentam nas redes sociais. O que resta de alternativa \u00e9 a fragmenta\u00e7\u00e3o do campo democr\u00e1tico, dos setores liberais aos social-democratas. Podemos elencar muitas causas pol\u00edticas e econ\u00f4micas desse processo, mas a principal delas \u00e9 irrevers\u00edvel: a grande mudan\u00e7a em curso na estrutura da sociedade, em decorr\u00eancia da introdu\u00e7\u00e3o das novas tecnologias nas estruturas produtivas, entre as quais, a robotiza\u00e7\u00e3o e a intelig\u00eancia artificial, e a crescente segmenta\u00e7\u00e3o das classes sociais. Essas mudan\u00e7as est\u00e3o no centro da desorganiza\u00e7\u00e3o e da crise da democracia representativa. No mundo!<\/p>\n<p><strong>P\u00f3s-liberalismo<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 uma corrida entre o Ocidente e o Oriente para reinventar o Estado, em decorr\u00eancia da globaliza\u00e7\u00e3o e das mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas. Enquanto as democracias ocidentais d\u00e3o sinais de incapacidade de enfrentar sua crise, regimes autorit\u00e1rios do Oriente operam a moderniza\u00e7\u00e3o de suas economias com mais efici\u00eancia, a come\u00e7ar pela China, hoje o nosso principal parceiro comercial. As principais respostas pol\u00edticas a isso foram as elei\u00e7\u00f5es de Donald Trump nos Estados Unidos, preocupantemente regressiva, e a de Emmanuel Macron, na Fran\u00e7a, que \u00e9 uma promessa de avan\u00e7o no sentido democr\u00e1tico. S\u00e3o dois projetos distintos para enfrentar as consequ\u00eancias negativas da globaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com o fim da sociedade industrial, caminhamos preocupantemente na dire\u00e7\u00e3o de uma sociedade p\u00f3s-liberal, na qual os valores da igualdade, fraternidade e solidariedade perdem funcionalidade; agravam-se as tend\u00eancias de exclus\u00e3o social e as desigualdades. Cada vez mais, menos pessoas ser\u00e3o necess\u00e1rias \u00e0 produ\u00e7\u00e3o, devido \u00e0 robotiza\u00e7\u00e3o, \u00e0 automa\u00e7\u00e3o e \u00e0 informatiza\u00e7\u00e3o da agricultura, da ind\u00fastria e do setor de servi\u00e7os; numa sociedade como a brasileira, t\u00e3o desigual, os novos padr\u00f5es de moderniza\u00e7\u00e3o da economia agravar\u00e3o a exclus\u00e3o e as desigualdades sociais. V\u00eam da\u00ed as dificuldades para recuperar a gera\u00e7\u00e3o de emprego, num momento de reaquecimento da economia.<\/p>\n<p>A fragmenta\u00e7\u00e3o das for\u00e7as pol\u00edticas de campo democr\u00e1tico pode resultar na vit\u00f3ria de solu\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias para os nossos problemas, como em outros momentos de crise que demandavam reformas no Estado, na pol\u00edtica e na economia. Como lidar com isso? As velhas solu\u00e7\u00f5es \u00e0 esquerda foram tentadas e fracassaram, principalmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pol\u00edticas fiscal e industrial, lan\u00e7ando o pa\u00eds na maior recess\u00e3o de sua hist\u00f3ria. A alternativa que surge, a partir de uma direita esclarecida, busca resolver os problemas do pa\u00eds a partir das demandas e da l\u00f3gica do mercado, sem considerar as desigualdades sociais. Construir uma nova maioria da sociedade a favor da moderniza\u00e7\u00e3o da economia, sem considerar a parcela exclu\u00edda da produ\u00e7\u00e3o e do consumo, \u00e9 um projeto politicamente invi\u00e1vel. Mesmo que tenha compromisso com a democracia, n\u00e3o ser\u00e1 capaz de sensibilizar a grande massa de deserdados da moderniza\u00e7\u00e3o e barrar o populismo, seja de direita, seja de esquerda.<\/p>\n<p>Do outro lado do centro democr\u00e1tico, a esquerda mais arejada e reformista trope\u00e7a nas pr\u00f3prias pernas, ao n\u00e3o romper com velhos dogmas program\u00e1ticos do desenvolvimentismo e uma vis\u00e3o positivista do Estado. Esses setores tamb\u00e9m n\u00e3o t\u00eam a menor chance de reverter a radicaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nas elei\u00e7\u00f5es se n\u00e3o forem capazes de dialogar e buscar a converg\u00eancia program\u00e1tica com os liberais, focada no fortalecimento da democracia representativa e no combate \u00e0s desigualdades. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil o di\u00e1logo entre a esquerda democr\u00e1tica e a direita liberal, que s\u00e3o as for\u00e7as mais progressistas nesta crise. Mas n\u00e3o h\u00e1 outro caminho vi\u00e1vel que n\u00e3o seja a uni\u00e3o dessas duas tend\u00eancias, numa converg\u00eancia democr\u00e1tica. Separadas,em busca da sua pr\u00f3pria hegemonia, ser\u00e3o derrotadas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A fragmenta\u00e7\u00e3o das for\u00e7as pol\u00edticas de campo democr\u00e1tico pode resultar na vit\u00f3ria de solu\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias para os nossos problemas, como em outros momentos de crise que demandavam reformas Tudo o que foi feito para ultrapassar o regime militar e construir uma democracia duradoura, que servisse de alicerce para garantir o crescimento econ\u00f4mico, reduzir as iniquidades sociais e garantir o exerc\u00edcio [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-2413","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2413","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2413"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2413\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2418,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2413\/revisions\/2418"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2413"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2413"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2413"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}