{"id":2472,"date":"2018-03-20T08:21:03","date_gmt":"2018-03-20T11:21:03","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=2472"},"modified":"2018-03-20T09:11:02","modified_gmt":"2018-03-20T12:11:02","slug":"nas-entrelinhas-balas-traicoeiras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-balas-traicoeiras\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Balas trai\u00e7oeiras"},"content":{"rendered":"<p><em>No submundo da seguran\u00e7a no Rio de Janeiro, as regras de sobreviv\u00eancia s\u00e3o as mesmas da lei da selva.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>O ministro da Seguran\u00e7a P\u00fablica, Raul Jungmann, e o ministro do Gabinete de Seguran\u00e7a Institucional, general S\u00e9rgio Etchegoyen, est\u00e3o come\u00e7ando a se enrolar nas pr\u00f3prias declara\u00e7\u00f5es sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL), no Rio de Janeiro. Jungmann resolveu segurar um fio desencapado ao dar explica\u00e7\u00f5es sobre as c\u00e1psulas das balas encontradas no local do crime, supostamente desviadas de um lote comprado pela Pol\u00edcia Federal, que podem ter sido usadas exatamente para embaralhar as investiga\u00e7\u00f5es e p\u00f4r na berlinda a Pol\u00edcia Federal. Etchegoyen descartou de pronto a possibilidade de o crime ser uma retalia\u00e7\u00e3o \u00e0 interven\u00e7\u00e3o federal na seguran\u00e7a fluminense, quando tamb\u00e9m pode ser exatamente o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Todo crime deixa um rastro e tem uma motiva\u00e7\u00e3o, \u00e9 o beab\u00e1 de qualquer investiga\u00e7\u00e3o. A partir da\u00ed, o escritor noir tanto pode ter a trama de um mist\u00e9rio (quando ningu\u00e9m sabe quem \u00e9 o assassino), como pode construir o roteiro de um triller (quando todo mundo sabe, mas o mocinho, n\u00e3o). Em 1944, o escritor norte-americano Raymond Chandler, um dos craques dos romances policiais, escreveu um ensaio intitulado A simples arte de matar, que consta do primeiro volume de uma colet\u00e2nea de contos de sua autoria, publicada pela L&amp;PM. Nele explica o fasc\u00ednio do her\u00f3i noir.<\/p>\n<p>\u201cNas ruas s\u00f3rdidas da cidade grande, precisa andar um homem que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3rdido, que n\u00e3o se deixa abater e que n\u00e3o tem medo. Neste tipo de hist\u00f3ria, o detetive deve ser esse homem. Ele \u00e9 o her\u00f3i; ele \u00e9 tudo. Ele deve ser um homem completo e um homem comum e, contudo, um homem fora do comum. (&#8230;) Se houvesse outros como ele, o mundo seria um lugar mais seguro para se viver, sem que com isso se tornasse desinteressante a ponto de n\u00e3o valer a pena viver nele.\u201d \u00c9 o perfil de seu personagem mais conhecido, o detetive dur\u00e3o Philip Marlowe.<\/p>\n<p>Jungmann e Etchegoyen n\u00e3o t\u00eam perfil do her\u00f3i noir. Os ministros n\u00e3o v\u00e3o desvendar o mist\u00e9rio. Ali\u00e1s, \u00e9 mais prov\u00e1vel que o submundo do crime no Rio de Janeiro conhe\u00e7a os assassinos e os mandantes do crime, como nos roteiros de suspense. Foi tudo muito planejado, muito profissional, n\u00e3o houve sequer simula\u00e7\u00e3o de latroc\u00ednio, que \u00e9 padr\u00e3o dos crimes de mando. Quem mandou matar, no contexto da interven\u00e7\u00e3o, desafiou o interventor federal, general Braga Netto, e os dois ministros, que j\u00e1 entraram naquela fase em que \u00e9 melhor n\u00e3o falar mais nada sobre o que aconteceu, at\u00e9 que se tenha uma resposta efetiva quanto \u00e0 autoria do crime.<\/p>\n<p><strong>Longo caminho<\/strong><br \/>\nFoi longo o caminho para se chegar aos romances policiais noir. Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes, que Milan Kundera considera a cortina que se abriu para a realidade na Idade M\u00e9dia, foi escrito 1.500 anos depois de Sat\u00edricon, de Petr\u00f4nio. Chandler publicou seu primeiro grande romance policial, O sono eterno, em 1939, aos 50 anos. Como outros escritores norte-americanos, foi soldado, jornalista, empres\u00e1rio e detetive, entre outras atividades. Seu mestre foi Dashiell Hammett, o autor de Falc\u00e3o Malt\u00eas.<\/p>\n<p>Chandler, como outros de seus colegas expulsos de Hollywood pelo macartismo, fez a cr\u00edtica dos maus costumes pol\u00edticos e da corrup\u00e7\u00e3o policial nos Estados Unidos. N\u00e3o h\u00e1 pessoas boas e inocentes envolvidas no mundo do crime. E o her\u00f3i noir n\u00e3o \u00e9 um cara todo certinho. A diferen\u00e7a \u00e9 que n\u00e3o vendeu a alma ao diabo. Ele tamb\u00e9m \u00e9 um predador, que a cada passo calcula a vantagem de se aproximar da presa sem perder o elemento surpresa. No mundo animal, quando o perigo de ter sua presen\u00e7a notada j\u00e1 n\u00e3o supera a vantagem de chegar mais perto, o predador ataca. Esse \u00e9 um mecanismo fisiol\u00f3gico que visa obter o m\u00e1ximo de chance de sucesso para qualquer tipo de terreno ou de presa.<\/p>\n<p>No submundo da seguran\u00e7a no Rio de Janeiro, as regras de sobreviv\u00eancia s\u00e3o as mesmas da lei da selva. Quanto mais perto chegar sem despertar suspeita, maior a chance de ser bem-sucedido na ca\u00e7ada. No livro Informa\u00e7\u00f5es sobre a v\u00edtima (Companhia das Letras), o ex-delegado paulista Joaquim Nogueira conta a hist\u00f3ria de um policial movido pelo desejo de justi\u00e7a, que investiga por conta pr\u00f3pria o assassinato de um colega. Suas dilig\u00eancias rastreiam os prop\u00f3sitos secretos de uma dezena de suspeitos no submundo paulistano, entre os quais um padrasto estuprador, o traficante e sua m\u00e3e hipertensa, o bicheiro generoso, a escriv\u00e3 sexy, para ao final descobrir que um amigo comum da v\u00edtima era o mandante do crime. Quase que tamb\u00e9m morre por causa disso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No submundo da seguran\u00e7a no Rio de Janeiro, as regras de sobreviv\u00eancia s\u00e3o as mesmas da lei da selva.\u00a0 O ministro da Seguran\u00e7a P\u00fablica, Raul Jungmann, e o ministro do Gabinete de Seguran\u00e7a Institucional, general S\u00e9rgio Etchegoyen, est\u00e3o come\u00e7ando a se enrolar nas pr\u00f3prias declara\u00e7\u00f5es sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL), no Rio de Janeiro. 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