{"id":2603,"date":"2018-05-01T08:54:04","date_gmt":"2018-05-01T11:54:04","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=2603"},"modified":"2018-05-01T09:07:18","modified_gmt":"2018-05-01T12:07:18","slug":"nas-entrelinhas-nao-tem-volta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-nao-tem-volta\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: N\u00e3o tem volta!"},"content":{"rendered":"<p><em>Com o impeachment de Dilma e as reformas do governo Temer, principalmente o fim do imposto sindical, a capacidade dos sindicatos influ\u00edrem nas decis\u00f5es do governo e do Congresso definhou<\/em><\/p>\n<p>Uma boa maneira de aferir a capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o do movimento sindical \u00e9 observar as comemora\u00e7\u00f5es do Dia do Trabalhador mundo afora. A data comemorativa surgiu como marco de luta para que a rela\u00e7\u00e3o entre trabalho e capital deixasse de ser um caso de pol\u00edcia para se tornar uma quest\u00e3o social. No Brasil, isso somente veio a acontecer com a chegada de Get\u00falio Vargas ao poder, ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o de 1930, quando foi criada a legisla\u00e7\u00e3o trabalhista e os sindicatos foram oficializados, sob o manto protetor e vigilante do Minist\u00e9rio do Trabalho. Nossa estrutura sindical, ainda hoje, tem vi\u00e9s corporativista. N\u00e3o se pasmem, sua origem \u00e9 a Carta Del Lavoro, de inspira\u00e7\u00e3o fascista.<\/p>\n<p>Esse vi\u00e9s sobreviveu ao ciclo democr\u00e1tico do p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial e ao regime militar. Parecia que haveria uma ruptura ap\u00f3s a democratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, em 1985, mas n\u00e3o foi o que ocorreu. Os novos sindicalistas, t\u00e3o logo assumiram o controle, gostaram do que tinham nas m\u00e3os: uma estrutura assistencialista e financiada pelo imposto pago por todos os trabalhadores, sindicalizados ou n\u00e3o, arrecadados pelo governo direto na folha de pagamento e repassado \u00e0s entidades sindicais.<\/p>\n<p>As disputas entre as diversas correntes pol\u00edtico-sindicais, que geraram meia d\u00fazia de centrais, entre as quais a CUT e a For\u00e7a Sindical, n\u00e3o chegaram \u00e0 base de arrecada\u00e7\u00e3o dos sindicatos, porque a\u00ed se manteve a unicidade da representa\u00e7\u00e3o. A divis\u00e3o se deu em raz\u00e3o de uma \u201cind\u00fastria\u201d de cria\u00e7\u00e3o de sindicatos cartoriais, principalmente de servidores p\u00fablicos, seccionando as categorias por crit\u00e9rios cada vez mais corporativos. At\u00e9 sindicatos de aposentados foram criados. Em contrapartida, com esses recursos, montou-se uma enorme estrutura sindical, com ativistas profissionalizados e fora da produ\u00e7\u00e3o, que resultou no sindicalismo cupulista, apelegado e de baixo poder de mobiliza\u00e7\u00e3o nas campanhas salariais que temos hoje.<\/p>\n<p>A chegada do PT ao poder, sob a lideran\u00e7a do ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (que hoje est\u00e1 preso), foi como se a classe oper\u00e1ria atingisse o para\u00edso. Houve o coroamento de uma estrat\u00e9gia bem-sucedida de \u201cpacto social\u201d seletivo, a partir do Sindicato dos Metal\u00fargicos do ABC, com enorme impacto na economia do pa\u00eds e na vida de nossas cidades. O chamado \u201cacordo automotivo\u201d, celebrado durante o governo de Itamar Franco, p\u00f4s fim ao ciclo de greves metal\u00fargicas, garantiu o regime de pleno emprego para a categoria durante um bom per\u00edodo e aumentos constantes de sal\u00e1rio real, ao mesmo tempo em que manteve o setor como polo mais din\u00e2mico da ind\u00fastria brasileira, gra\u00e7as a incentivos e ren\u00fancias fiscais. Tamb\u00e9m nas cidades, o setor automotivo manteve-se como eixo din\u00e2mico das economias locais.<\/p>\n<p>Surgiu ali uma nova elite sindical \u201cempoderada\u201d, uma esp\u00e9cie de aristocracia oper\u00e1ria, que viria a ocupar um papel de destaque nos governos Lula e Dilma Rousseff. Com a crise mundial de 2008 e a guinada da pol\u00edtica econ\u00f4mica do governo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 nova \u201cmatriz econ\u00f4mica\u201d, esse processo se esgotou. O pa\u00eds foi lan\u00e7ado na sua pior recess\u00e3o, o padr\u00e3o de mobilidade urbana ditado pelo acordo automotivo provou grandes manifesta\u00e7\u00f5es de protesto em mar\u00e7o de 2013 e o desemprego em massa desarticulou o movimento sindical. Com o impeachment de Dilma Rousseff e as reformas do governo Michel Temer nas rela\u00e7\u00f5es capital-trabalho, principalmente o fim do imposto sindical, a capacidade dos sindicatos influ\u00edrem nas decis\u00f5es do governo e do pr\u00f3prio Congresso definhou. Al\u00e9m disso, o fim do imposto lan\u00e7ou-os em sua a sua maior crise de financiamento.<\/p>\n<p><strong>Novos meios<\/strong><br \/>\nEssa crise do movimento sindical, por\u00e9m, n\u00e3o se restringe a isso. Os metal\u00fargicos vivem o drama particular da automa\u00e7\u00e3o e da robotiza\u00e7\u00e3o, que tamb\u00e9m se reproduz em outros setores importantes, de grande tradi\u00e7\u00e3o de luta. De igual maneira, o setor banc\u00e1rio vive o impacto da informatiza\u00e7\u00e3o acelerada. N\u00e3o \u00e9 muito diferente a situa\u00e7\u00e3o entre os trabalhadores rurais, mesmo entre os sem-terra, cujo peso relativo na economia rural \u00e9 inversamente proporcional aos ganhos de produtividade e renda no campo com a tecnologia embarcada nos equipamentos agr\u00edcolas. No setor petrol\u00edfero, os sindicatos fizeram vista grossa \u00e0 roubalheira na Petrobras e agora amargam o pre\u00e7o de reestrutura\u00e7\u00e3o da empresa e da desorganiza\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo da camada pr\u00e9-sal, que somente agora come\u00e7a a ser retomada. Os sindicatos tamb\u00e9m fizeram vista grossa, por exemplo, \u00e0 m\u00e1 gest\u00e3o dos fundos de pens\u00e3o.<\/p>\n<p>Hoje, teremos um grande teste nas manifesta\u00e7\u00f5es de Primeiro de Maio. Os sindicatos vivem um dos seus piores momentos desde a democratiza\u00e7\u00e3o. Com o passar dos anos, esses atos sindicais se tornaram eventos festivos, com shows milion\u00e1rios e distribui\u00e7\u00e3o de brindes de alto valor, como autom\u00f3veis, por exemplo. Digamos que esse seja um novo momento de luta dos trabalhadores, no qual ocorrem grande mudan\u00e7as na estrutura produtiva e na rela\u00e7\u00e3o entre o capital e o trabalho, com o desaparecimento de velho \u201cser oper\u00e1rio\u201d como classe geral, ou seja, que representava os interesses dos demais trabalhadores e tinha grande poder de mobiliza\u00e7\u00e3o gra\u00e7as \u00e0 grande ind\u00fastria mecanizada. Essa realidade n\u00e3o existe mais, com os sistemas flex\u00edveis de produ\u00e7\u00e3o, a automa\u00e7\u00e3o, informatiza\u00e7\u00e3o e robotiza\u00e7\u00e3o em curso na ind\u00fastria, nos servi\u00e7os e na agricultura, que caracterizam a globaliza\u00e7\u00e3o e a revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica em curso. De certa forma, a palavra de ordem \u201cLula livre\u201d, que unifica os sindicatos, \u00e9 compreens\u00edvel. Ele \u00e9 o s\u00edmbolo de uma \u00e9poca que ficou para tr\u00e1s. E n\u00e3o tem volta. Os sindicatos ter\u00e3o que se reinventar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com o impeachment de Dilma e as reformas do governo Temer, principalmente o fim do imposto sindical, a capacidade dos sindicatos influ\u00edrem nas decis\u00f5es do governo e do Congresso definhou Uma boa maneira de aferir a capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o do movimento sindical \u00e9 observar as comemora\u00e7\u00f5es do Dia do Trabalhador mundo afora. 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