{"id":2620,"date":"2018-05-06T17:14:34","date_gmt":"2018-05-06T20:14:34","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=2620"},"modified":"2018-05-06T17:18:09","modified_gmt":"2018-05-06T20:18:09","slug":"nas-entrelinhas-revirando-o-lixo-da-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-revirando-o-lixo-da-historia\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Revirando o lixo da Hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p><em>A condi\u00e7\u00e3o humana \u00e9 dada n\u00e3o pela atividade laboral, um meio de sobreviv\u00eancia, mas pelo agir e pensar politicamente, em regime de plena liberdade<\/em><\/p>\n<p>Exumei das redes sociais um velho texto (l\u00e1 se v\u00e3o tr\u00eas anos) publicado nessas \u201cEntrelinhas\u201d para analisar o colapso do governo Dilma. O t\u00edtulo da coluna era \u201cA lata do lixo da Hist\u00f3ria\u201d, o nome de uma pe\u00e7a dos anos 1970 do soci\u00f3logo Roberto Schwartz, ent\u00e3o professor de teoria liter\u00e1ria da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), na qual fazia uma s\u00e1tira ao regime militar. A express\u00e3o \u201cvai para a lata do lixo da Hist\u00f3ria\u201d era muito usada por setores de esquerda na \u00e9poca, servia para menosprezar o papel dos liberais na luta pela democracia; hoje, serve aos liberais que consideram toda a esquerda ultrapassada e n\u00e3o apenas os setores ligados ao PT. \u00c9 um erro. O Brasil precisa de uma esquerda moderna que dialogue com os liberais para reconstruir o centro democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Essa lembran\u00e7a veio a prop\u00f3sito do discurso do presidente da China, Xi Jinping, ao comemorar o bicenten\u00e1rio do nascimento de Karl Marx, no Grande Pal\u00e1cio do Povo: \u201cO marxismo, como um amanhecer espetacular, ilumina o caminho da humanidade na sua explora\u00e7\u00e3o das leis hist\u00f3ricas e na busca da sua pr\u00f3pria liberta\u00e7\u00e3o\u201d. Em resumo, disse que os comunistas chineses precisam voltar \u00e0s origens. Entretanto, Karl Marx \u00e9 um dos sujeitos mais mal interpretados de todos os tempos, por esta raz\u00e3o: seus escritos partem do princ\u00edpio de que a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o pode estar descolada do pensamento intelectual.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s sua morte, em 14 de mar\u00e7o de 1883, a teoria de Marx foi simplificada e instrumentalizada para a luta pol\u00edtica, inclusive por seu amigo Frederico Engels e seu genro, Paul Lafargue. Social-democratas, socialistas e comunistas usaram sua cr\u00edtica como estrat\u00e9gia pol\u00edtica, mas Marx nunca teve uma f\u00f3rmula para construir um mundo diferente do capitalismo. Mesmo assim, os conceitos de \u201cvalor\u201d e \u201cfetichismo\u201d, suas grandes contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 compreens\u00e3o do capitalismo, perderam espa\u00e7o e influ\u00eancia para o conceito de \u201cluta de classes\u201d.<\/p>\n<p>Grande exemplo \u00e9 um livro de Josef Stalin intitulado Problemas econ\u00f4micos do socialismo na URSS, de 1953, com o qual o l\u00edder comunista puxou as orelhas dos economistas da Academia de Ci\u00eancias: \u201cPor isso, est\u00e3o absolutamente errados os camaradas que declaram que, uma vez que a sociedade socialista n\u00e3o liquida as formas mercantis de produ\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o todas as categorias econ\u00f4micas pr\u00f3prias do capitalismo deveriam alegadamente ser restabelecidas no nosso pa\u00eds: a for\u00e7a de trabalho como mercadoria, a mais-valia, o capital, o lucro do capital, a taxa m\u00e9dia de lucro etc.\u201d<\/p>\n<p>St\u00e1lin varreu para debaixo do tapete problemas que mais tarde levaram ao colapso a antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica: \u201cAl\u00e9m disso, penso que precisamos igualmente abandonar alguns outros conceitos, retirados de O Capital, no qual Marx procedeu \u00e0 an\u00e1lise do capitalismo, e que s\u00e3o artificialmente apensos \u00e0s nossas rela\u00e7\u00f5es socialistas. Refiro-me, entre outros, a conceitos como trabalho necess\u00e1rio e sobretrabalho, produto necess\u00e1rio e sobreproduto, tempo necess\u00e1rio e suplementar. A conta chegou para Gorbatchov na d\u00e9cada de 1990: quando o l\u00edder comunista quis retomar a discuss\u00e3o, na Perestroika, o socialismo real j\u00e1 era. Talvez Xi Jinping esteja diante do mesmo debate no seu pa\u00eds, onde os oper\u00e1rios s\u00e3o superexplorados e florescem uma nova burguesia e uma robusta classe m\u00e9dia.<\/p>\n<p>Par\u00eantesis: na teoria de Marx, valor \u00e9 aquilo que permite comparar duas mercadorias. A quantidade de trabalho que foi incorporada \u00e0 mercadoria \u00e9 que determina o seu valor. J\u00e1 o fetiche \u00e9 uma consequ\u00eancia disso: uma cortina que nos impede de ver a mercadoria em si. No caso de um celular, por exemplo, n\u00e3o conseguimos perceber todo o processo produtivo que est\u00e1 por tr\u00e1s da sua fabrica\u00e7\u00e3o \u2014 na China, por exemplo \u2014, mas somente o produto final, como se o aparelho, em si, tivesse vida pr\u00f3pria na loja.<\/p>\n<p><strong>Grande jogo<\/strong><\/p>\n<p>A g\u00eanese dos partidos oper\u00e1rios \u00e9 velha tese marxista da centralidade do trabalho na luta pol\u00edtica, que parte da ideia de que a contradi\u00e7\u00e3o entre o trabalho e o capital \u00e9 o motor da hist\u00f3ria e o eixo de atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do partido, ou seja, a luta de classes. Vem da\u00ed o glamour perdido do PT e o fasc\u00ednio de intelectuais e artistas pelo ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva. A fil\u00f3sofa alem\u00e3 Hanna Arendt, uma democrata radical, via nessa concep\u00e7\u00e3o que absolutiza o trabalho uma das ra\u00edzes do totalitarismo. Para ela, a condi\u00e7\u00e3o humana \u00e9 dada n\u00e3o pela atividade laboral, um meio de sobreviv\u00eancia, mas pelo \u201cagir e pensar politicamente\u201d, em regime de plena liberdade, o que tanto o fascismo como o stalinismo n\u00e3o permitiram. Essa cr\u00edtica \u201cracionalista\u201d hoje faz ainda mais sentido, porque o trabalho humano est\u00e1 sendo substitu\u00eddo pelo \u201cn\u00e3o trabalho\u201d dos rob\u00f4s e sistemas de intelig\u00eancia artificial.<\/p>\n<p>A China hoje \u00e9 o nosso principal parceiro comercial, seguida dos Estados Unidos. Ambos disputam o controle do com\u00e9rcio mundial, cujo eixo se deslocou do Atl\u00e2ntico para o Pac\u00edfico. O \u201cgrande jogo\u201d da pol\u00edtica mundial e a globaliza\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, para muitos setores da esquerda, continuaram sendo vistos na \u00f3ptica dos velhos paradigmas, ou seja, o inimigo principal \u00e9 o imperialismo norte-americano; o capitalismo de Estado, ap\u00f3s a tomada do poder, \u00e9 a antessala do socialismo. N\u00e3o importa que os Estados Unidos sejam uma democracia e a China, uma ditadura. Nunca \u00e9 demais lembrar que o colapso do governo Dilma se deveu \u00e0s ideias pol\u00edticas e econ\u00f4micas fora de lugar, que apostavam numa alian\u00e7a com a China, a R\u00fassia, a \u00c1frica do Sul e a \u00cdndia como aliados principais, contra os Estados Unidos e a Comunidade Europeia, seguidas por pr\u00e1ticas patrimonialistas estimuladas por Lula, que enlamearam toda a esquerda e jogaram as lideran\u00e7as do PT na cadeia. Todas essas ideias velhas n\u00e3o morreram, est\u00e3o viv\u00edssimas nestas elei\u00e7\u00f5es de 2018. E n\u00e3o na lata do lixo da hist\u00f3ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A condi\u00e7\u00e3o humana \u00e9 dada n\u00e3o pela atividade laboral, um meio de sobreviv\u00eancia, mas pelo agir e pensar politicamente, em regime de plena liberdade Exumei das redes sociais um velho texto (l\u00e1 se v\u00e3o tr\u00eas anos) publicado nessas \u201cEntrelinhas\u201d para analisar o colapso do governo Dilma. 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