{"id":2641,"date":"2018-05-11T08:04:00","date_gmt":"2018-05-11T11:04:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=2641"},"modified":"2018-05-11T09:05:57","modified_gmt":"2018-05-11T12:05:57","slug":"nas-entrelinhas-o-passado-que-assusta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-passado-que-assusta\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O passado que assusta"},"content":{"rendered":"<p><em>Documento mostra que havia uma lista de condenados \u00e0 morte, que foram executados com pr\u00e9vio conhecimento e autoriza\u00e7\u00e3o de Figueiredo e Geisel<\/em><\/p>\n<p>Um documento divulgado ontem pelo pesquisador Matias Specktor, da Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas (FGV), lan\u00e7a por terra todas as vers\u00f5es de que o ent\u00e3o presidente Ernesto Geisel n\u00e3o endossou a tortura e os assassinatos de oposicionistas nos quart\u00e9is, em raz\u00e3o da demiss\u00e3o sum\u00e1ria do comandante do 2\u00ba Ex\u00e9rcito, Ednardo D\u2019\u00c1vila Mello, ap\u00f3s morte do oper\u00e1rio Manoel Fiel Filho nas depend\u00eancias de uma unidade do Ex\u00e9rcito na Rua Tut\u00f3ia, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>O metal\u00fargico morto vivia na capital paulista desde os anos 1950. Havia sido padeiro e cobrador de \u00f4nibus antes de exercer a fun\u00e7\u00e3o de prensista na Metal Arte, no bairro da Mooca. Em janeiro de 1976, foi preso por dois agentes do DOI-Codi, na f\u00e1brica, sob a acusa\u00e7\u00e3o de pertencer ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). No dia seguinte \u00e0 sua pris\u00e3o, os \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a emitiram nota oficial afirmando que Manuel havia se enforcado em sua cela com as pr\u00f3prias meias. Por\u00e9m, de acordo com colegas, quando preso, usava chinelos sem meias.<\/p>\n<p>As circunst\u00e2ncias da morte s\u00e3o muito semelhantes \u00e0s de Alexandre Vannucchi Leme e Vladimir Herzog, que geraram grandes protestos \u00e0 \u00e9poca. Segundo relato da esposa, no dia seguinte \u00e0 pris\u00e3o, um s\u00e1bado, \u00e0s 22h, um desconhecido, dirigindo um Dodge Dart, parou em frente \u00e0 casa e, diante dela, das duas filhas e de alguns parentes, disse secamente: \u201cO Manuel suicidou-se. Aqui est\u00e3o suas roupas\u201d. Em seguida, jogou na cal\u00e7ada um saco de lixo azul com as roupas do oper\u00e1rio morto. A mulher dele, ent\u00e3o, teria come\u00e7ado a gritar: \u201cVoc\u00eas o mataram! Voc\u00eas o mataram!\u201d. A vida e a morte de Manuel s\u00e3o a base do document\u00e1rio Perd\u00e3o, mister Fiel \u2014 o oper\u00e1rio que derrubou a ditadura no Brasil, dirigido pelo jornalista Jorge Oliveira, que mostra a atua\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos na ca\u00e7a aos comunistas e nas ditaduras militares na Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio da demiss\u00e3o do comandante do Ex\u00e9rcito foi um momento de inflex\u00e3o na repress\u00e3o \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o e, de certa forma, humanizou a passagem do general Geisel pela Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, tanto em raz\u00e3o da vers\u00e3o relatada no livro do jornalista \u00c9lio G\u00e1spari, como tamb\u00e9m de sua entrevista autobiogr\u00e1fica a Maia Celina D\u00c1raujo e Celso Castro, historiadores, na qual o epis\u00f3dio tamb\u00e9m \u00e9 abordado.<\/p>\n<p><strong>Pol\u00edtica de Estado<\/strong><\/p>\n<p>\u201cEste \u00e9 o documento secreto mais perturbador que j\u00e1 li em 20 anos de pesquisa\u201d, comentou Matias Specktor. O memorando \u00e9 um relato da CIA sobre reuni\u00e3o de mar\u00e7o de 1974 entre o General Ernesto Geisel, presidente da Rep\u00fablica rec\u00e9m-empossado, e tr\u00eas assessores: o general que estava deixando o comando do Centro de Informa\u00e7\u00f5es do Ex\u00e9rcito (CIE), o general que viria a suced\u00ea-lo no comando e o General Jo\u00e3o Figueiredo, indicado por Geisel para o Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00f5es (SNI). O primeiro, o quinto e parte do sexto par\u00e1grafos do documento permanecem em sigilo:<\/p>\n<p>\u201c2. Em 30 de mar\u00e7o de 1974, reuniu-se presidente do Brasil, Ernesto Geisel, com o general Milton Tavares de Souza (chamado de general Milton) e o general Conf\u00facio Danton de Paula Avelino, respectivamente o chefe que sai e o que entra do Centro de Informa\u00e7\u00f5es do Ex\u00e9rcito (CIE). Tamb\u00e9m esteve presente o general Jo\u00e3o Baptista Figueiredo, chefe do SNI.<\/p>\n<p>3. O general Milton, que falou durante a maior parte do tempo, detalhou o trabalho da CIE contra os alvos subversivos internos durante a administra\u00e7\u00e3o do ex-presidente Em\u00edlio Garrastazu M\u00e9dici. Ele ressaltou que o Brasil n\u00e3o pode ignorar a amea\u00e7a subversiva e terrorista e que os m\u00e9todos extralegais devem continuar sendo usados contra subversivos perigosos. A esse respeito, o general Milton disse que cerca de 104 pessoas nessa categoria foram sumariamente executadas pelo CIE durante o ano passado, ou pouco antes. Figueiredo apoiou essa pol\u00edtica e insistiu em sua continuidade.<\/p>\n<p>4. O presidente, que comentou a seriedade e os aspectos potencialmente prejudiciais dessa pol\u00edtica, disse que queria refletir sobre o assunto durante o fim de semana antes de chegar a qualquer decis\u00e3o sobre sua continuidade. Em 1\u00ba de abril, o presidente Geisel disse ao general Figueiredo que a pol\u00edtica deveria continuar, mas que muito cuidado deveria ser tomado para assegurar que apenas subversivos perigosos fossem executados. O presidente e o general Figueiredo concordaram que, quando o CIE prender uma pessoa que possa se enquadrar nessa categoria, o chefe do CIE consultar\u00e1 o general Figueiredo, cuja aprova\u00e7\u00e3o deve ser dada antes que a pessoa seja executada. O presidente e o general Figueiredo tamb\u00e9m concordaram que o CIE deve dedicar quase todo o seu esfor\u00e7o \u00e0 subvers\u00e3o interna e que o esfor\u00e7o geral do CIE ser\u00e1 coordenado pelo General Figueiredo.<\/p>\n<p>6. Uma c\u00f3pia deste memorando ser\u00e1 disponibilizada ao secret\u00e1rio de Estado Adjunto para Assuntos Interamericanos. [1\u00bd linha n\u00e3o desclassificada]. Nenhuma distribui\u00e7\u00e3o adicional est\u00e1 sendo feita.\u201d<\/p>\n<p>Esse documento mostra que havia uma lista de condenados \u00e0 morte, que foram executados com pr\u00e9vio conhecimento e autoriza\u00e7\u00e3o de Figueiredo e Geisel, ao mesmo tempo em que ambos operavam uma pol\u00edtica de distens\u00e3o cujo objetivo era a transfer\u00eancia do poder para um civil ligado ao regime e a retirada em ordem dos militares do poder para os quart\u00e9is. O primeiro objetivo foi frustrado pela elei\u00e7\u00e3o de Tancredo Neves, em 1985, mas o segundo foi alcan\u00e7ado plenamente, com a anistia rec\u00edproca.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Documento mostra que havia uma lista de condenados \u00e0 morte, que foram executados com pr\u00e9vio conhecimento e autoriza\u00e7\u00e3o de Figueiredo e Geisel Um documento divulgado ontem pelo pesquisador Matias Specktor, da Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas (FGV), lan\u00e7a por terra todas as vers\u00f5es de que o ent\u00e3o presidente Ernesto Geisel n\u00e3o endossou a tortura e os assassinatos de oposicionistas nos quart\u00e9is, em [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[113,3,9],"tags":[183,185,184,114],"class_list":["post-2641","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-militares","category-politica","category-politica-2","tag-desaparecidos","tag-ditadira","tag-geisel","tag-militares"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2641","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2641"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2641\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2651,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2641\/revisions\/2651"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2641"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2641"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2641"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}