{"id":2647,"date":"2018-05-13T10:38:10","date_gmt":"2018-05-13T13:38:10","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=2647"},"modified":"2018-05-13T10:38:10","modified_gmt":"2018-05-13T13:38:10","slug":"nas-entrelinhas-ossos-da-abertura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-ossos-da-abertura\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas:  Ossos da abertura"},"content":{"rendered":"<p><em>Durante os governos Lula e Dilma, a Comiss\u00e3o de Verdade teve oportunidade de passar tudo a limpo, mas n\u00e3o revirou os por\u00f5es do regime militar<\/em><\/p>\n<p>A divulga\u00e7\u00e3o pelo pesquisador Matias Specktor, da Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas (FGV), de memorando da CIA sobre reuni\u00e3o de 30 de mar\u00e7o de 1974, entre o presidente Ernesto Geisel e tr\u00eas subordinados dos \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a do Estado (generais Milton Tavares de Souza, Conf\u00facio Danton de Paula Avelino, respectivamente o chefe que sai e o que entra do Centro de Informa\u00e7\u00f5es do Ex\u00e9rcito (CIE), e Jo\u00e3o Baptista Figueiredo, chefe do SNI) reabriu o debate sobre a anistia na opini\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>O documento teve grande repercuss\u00e3o no Brasil e no exterior. \u201cDesconstr\u00f3i\u201d a imagem do general Geisel, o presidente militar que ampliou a estatiza\u00e7\u00e3o, apostou na explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo em alto mar, criou o Pro\u00e1lcool, assinou o acordo nuclear com a Alemanha e reconheceu o governo de Agostinho Neto (MPLA), em Angola, at\u00e9 mesmo antes de a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica faz\u00ea-lo. A \u201cdistens\u00e3o\u201d de Geisel permitiu a espetacular vit\u00f3ria do antigo MDB nas elei\u00e7\u00f5es de novembro de 1974, quando a oposi\u00e7\u00e3o renasceu das cinzas, depois do fiasco eleitoral de 1970, momento em que a Arena, o partido do regime, venceu as elei\u00e7\u00f5es de ponta a ponta, menos no Rio de Janeiro. Em resposta, Geisel mudou as regras do jogo eleitoral com o Pacote de Abril de 1977, que criou o \u201csenador bi\u00f4nico\u201d, mas nem assim evitou nova derrota acachapante da Arena no pleito de 1978.<\/p>\n<p>\u00c0quela \u00e9poca, qualquer militante de esquerda engajado numa das organiza\u00e7\u00f5es de oposi\u00e7\u00e3o ao regime sabia que havia uma pol\u00edtica de exterm\u00ednio de l\u00edderes e dirigentes pol\u00edticos da oposi\u00e7\u00e3o, estivessem envolvidos com a luta armada ou n\u00e3o. O alto clero cat\u00f3lico e a c\u00fapula do regime militar, tamb\u00e9m, tanto que criaram uma comiss\u00e3o bipartite para tratar das viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos e dos sequestros praticados pelos \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a, encabe\u00e7ada pelo arcebispo do Rio de Janeiro, cardeal Dom Eug\u00eanio Salles, e pelo general Ant\u00f4nio Carlos Murici, cat\u00f3lico praticante. A comiss\u00e3o teve atua\u00e7\u00e3o discreta, mas cumpriu um papel relevante, salvando vidas.<\/p>\n<p>O documento sobre a reuni\u00e3o \u00e9 horripilante, mostra que o general Milton detalhou o trabalho do CIE durante o governo M\u00e9dici, revelou a execu\u00e7\u00e3o de 104 pessoas pelo CIE nos dois anos anteriores. Figueiredo apoiou e insistiu em sua continuidade. Geisel disse que pensaria sobre o assunto no fim de semana. No dia 1\u00aa de abril, disse a Figueiredo para continuar com a pol\u00edtica. Relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade constatou que 401 pessoas foram mortas ou desapareceram nos 21 anos de ditadura (1964-1985), a maioria no governo Em\u00edlio M\u00e9dici (1969-1974). J\u00e1 nos governos Geisel e Figueiredo morreram ou desapareceram 89 pessoas (1\/4 do total desde o in\u00edcio do regime).<\/p>\n<p>O jornalista Eumano Silva, que pesquisa a atua\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a durante o regime militar, pelo Twitter, destaca o impacto imediato da decis\u00e3o: em 3 de abril de 1974, ou seja, dois dias depois da reuni\u00e3o, foram presos os dirigentes do Comit\u00ea Central do PCB Jo\u00e3o Massena Mello, Luiz In\u00e1cio Maranh\u00e3o Filho e Walter de Souza Lima. Massena era metal\u00fargico e ex-deputado estadual cassado da antiga Guanabara, havia acabado de cumprir dois anos de pris\u00e3o. Jornalista e professor universit\u00e1rio, Maranh\u00e3o era ex-deputado estadual do Rio Grande do Norte, atuava junto ao clero cat\u00f3lico, era amigo e interlocutor de Eug\u00eanio Salles. Ribeiro era jornalista e ex-tenente do Ex\u00e9rcito, expulso da For\u00e7a por se opor ao envio de tropas brasileiras \u00e0 guerra da Coreia; trabalhou com a equipe de Oscar Niemeyer na Terracap, na constru\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia, at\u00e9 o golpe de 1964. Era respons\u00e1vel pela montagem dos \u201caparelhos\u201d da dire\u00e7\u00e3o do PCB. Os tr\u00eas foram executados, seus corpos nunca foram localizados, como outros da lista.<\/p>\n<p><strong>Anistia rec\u00edproca<\/strong><br \/>\nDiante dessas revela\u00e7\u00f5es estarrecedoras, o ex-ministro da Justi\u00e7a Jos\u00e9 Carlos Dias, que presidiu a Comiss\u00e3o da Verdade em 2013, cobra do Supremo Tribunal Federal (STF) a rediscuss\u00e3o da anistia dada aos agentes da ditadura: \u201cA tortura era uma pol\u00edtica de Estado, comandada pela Presid\u00eancia, e Geisel foi coautor dos homic\u00eddios praticados\u201d, argumenta, para concluir: \u201cNeste momento em que corremos o risco de voltarmos \u00e0 ditadura pelo voto, \u00e9 importante demonstrar o que ela foi no Brasil\u201d.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o ponto. A anistia rec\u00edproca foi a moeda de troca para a democratiza\u00e7\u00e3o, numa longa transi\u00e7\u00e3o pac\u00edfica, iniciada em 1979 e somente conclu\u00edda nas elei\u00e7\u00f5es diretas de 1989. Na Espanha, o acordo incluiu a restaura\u00e7\u00e3o da Monarquia; na \u00c1frica do Sul, foi uma das condi\u00e7\u00f5es para o fim do apartheid e a entrega do poder a Mandela. Aprovada pelo Congresso, fazia parte da estrat\u00e9gia de abertura do regime, que pretendia se institucionalizar via col\u00e9gio eleitoral. \u00c0 \u00e9poca, pol\u00edticos exilados, como Leonel Brizola (PDT), Miguel Arraes, Luiz Carlos Prestes e Hebert de Souza (Betinho), o irm\u00e3o do Henfil, voltaram ao Brasil.<\/p>\n<p>A abertura de Figueiredo possibilitou o surgimento de partidos, inclusive o PT, mas n\u00e3o a legaliza\u00e7\u00e3o do PCB e do PCdoB. Viabilizou a transi\u00e7\u00e3o, cujo ponto de ruptura com o regime foi a elei\u00e7\u00e3o de Tancredo Neves, um pol\u00edtico liberal e moderado, que morreu sem assumir. N\u00e3o foi \u00e0 toa que os militares envolvidos nos assassinatos e torturas exigiram a anistia: as ordens vieram da Presid\u00eancia. Durante os governos Lula e Dilma, a Comiss\u00e3o de Verdade teve oportunidade de passar tudo isso a limpo, mas n\u00e3o revirou os por\u00f5es do regime militar, nem mesmo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o dos ossos do cemit\u00e9rio de Perus nem sobre a atua\u00e7\u00e3o dos infiltrados nas organiza\u00e7\u00f5es de esquerda. Sem embargo de que toda verdade \u00e9 bem-vinda, e as fam\u00edlias merecem toda repara\u00e7\u00e3o, por que mexer com a anistia rec\u00edproca?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante os governos Lula e Dilma, a Comiss\u00e3o de Verdade teve oportunidade de passar tudo a limpo, mas n\u00e3o revirou os por\u00f5es do regime militar A divulga\u00e7\u00e3o pelo pesquisador Matias Specktor, da Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas (FGV), de memorando da CIA sobre reuni\u00e3o de 30 de mar\u00e7o de 1974, entre o presidente Ernesto Geisel e tr\u00eas subordinados dos \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4,7,113,3,9],"tags":[],"class_list":["post-2647","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-governo","category-justica","category-militares","category-politica","category-politica-2"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2647","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2647"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2647\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2656,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2647\/revisions\/2656"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2647"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2647"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2647"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}