{"id":2654,"date":"2018-05-16T08:47:34","date_gmt":"2018-05-16T11:47:34","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=2654"},"modified":"2018-05-16T09:15:14","modified_gmt":"2018-05-16T12:15:14","slug":"nas-entrelinhas-uma-virgula","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-uma-virgula\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Uma v\u00edrgula"},"content":{"rendered":"<p><em>Doa a quem doer, o combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o pela Lava-Jato se tornou uma prioridade para a sociedade, como foi a luta contra a infla\u00e7\u00e3o no Plano Real<\/em><\/p>\n<p>Quando a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Imprensa (ABI) completou 100 anos, em 7 de abril de 2008, lan\u00e7ou uma campanha em parceria com o Grupo ABC que tinha a \u201cv\u00edrgula\u201d como protagonista. Com produ\u00e7\u00e3o da ag\u00eancia \u00c1frica, de Nizan Guanaes, e narra\u00e7\u00e3o do ator Matheus Nachtergaele, a campanha fez enorme sucesso: \u201cV\u00edrgula pode ser uma pausa&#8230; Ou n\u00e3o. N\u00e3o, espere. N\u00e3o espere&#8230; Ela pode sumir com seu dinheiro. 23,4. 2,34. Pode criar her\u00f3is&#8230; Isso s\u00f3, ele resolve. Isso s\u00f3 ele resolve. Ela pode ser a solu\u00e7\u00e3o. Vamos perder, nada foi resolvido. Vamos perder nada, foi resolvido. A v\u00edrgula muda uma opini\u00e3o. N\u00e3o queremos saber. N\u00e3o, queremos saber. A v\u00edrgula pode condenar ou salvar. N\u00e3o tenha clem\u00eancia! N\u00e3o, tenha clem\u00eancia! Uma v\u00edrgula muda tudo. ABI: 100 anos lutando para que ningu\u00e9m mude uma v\u00edrgula da sua informa\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>O presidente Michel Temer \u00e9 a nova v\u00edtima da v\u00edrgula. A pe\u00e7a antol\u00f3gica, que virou case nas escolas de propaganda e marketing, foi ignorada pelo Pal\u00e1cio do Planalto, ao lan\u00e7ar o slogan comemorativo dos 24 meses de seu governo: \u201cO Brasil voltou, 20 anos em 2\u201d, em tempos de fake news, virou um tremendo tiro no p\u00e9, porque basta retirar a v\u00edrgula para mudar radicalmente o sentido da frase. O que era pra ser uma afirma\u00e7\u00e3o das realiza\u00e7\u00f5es de sua administra\u00e7\u00e3o virou objeto de piada. \u00c9 \u00f3bvio que Temer n\u00e3o passou recibo da mancada, ao fazer um balan\u00e7o de suas realiza\u00e7\u00f5es, mas o assunto mais comentado no Pal\u00e1cio do Planalto ontem era a danada da v\u00edrgula.<\/p>\n<p>Temer for\u00e7ou a barra ao comparar seu governo com o de Juscelino Kubitschek, o construtor de Bras\u00edlia, cujo slogan de governo foi \u201c50 anos em 5\u201d. O Plano de Metas de JK era um projeto de desenvolvimento nacional com 31 objetivos, um dos quais a transfer\u00eancia da capital federal. Baseava-se em estudos realizados pela Comiss\u00e3o Mista Brasil-Estados Unidos entre os anos de 1951 e 1953, cuja miss\u00e3o foi identificar os pontos cruciais de estagna\u00e7\u00e3o da economia brasileira que inviabilizavam o crescimento econ\u00f4mico do pa\u00eds em um vi\u00e9s capitalista e liberal.<\/p>\n<p>Para promover \u201c50 anos de progresso em 5 anos de realiza\u00e7\u00f5es\u201d, Juscelino escolheu cinco setores: energia, transportes, ind\u00fastrias de base, alimenta\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o. Os tr\u00eas primeiros receberam 93% dos recursos, e educa\u00e7\u00e3o e alimenta\u00e7\u00e3o contaram apenas com 7%. Houve crescimento de 100% na ind\u00fastria de base nacional, mas tamb\u00e9m um grande desequil\u00edbrio monet\u00e1rio. Em contrapartida, o pa\u00eds esbanjou otimismo, num ambiente de liberdade, sem estado de s\u00edtio nem censura \u00e0 imprensa, apesar da guerra fria.<\/p>\n<p>O saldo de realiza\u00e7\u00f5es do governo JK foi positivo, mas nem por isso ele deixou de ser atacado pela esquerda, ap\u00f3s a ren\u00fancia de seu sucessor, J\u00e2nio Quadros, e a posse do trabalhista Jo\u00e3o Goulart, que acabou deposto por um golpe militar, em 1964. Liberal conservador, o PSD de Juscelino, Amaral Peixoto e Tancredo Neves \u00e9 que dava equil\u00edbrio de centro-esquerda \u00e0 alian\u00e7a com trabalhistas e comunistas que garantiu a posse de Jango, que logo se rompeu.<\/p>\n<p>Juscelino era considerado entreguista pela esquerda e sua pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o, uma amea\u00e7a de retrocesso, caso voltasse ao poder em 1965. Isso jogou o ex-presidente da Rep\u00fablica no colo das for\u00e7as que depuseram Jo\u00e3o Goulart; quando se arrependeu do apoio aos militares, que suspenderam as elei\u00e7\u00f5es presidenciais, j\u00e1 era tarde: foi cassado e obrigado a se exilar. Morreu num desastre de autom\u00f3vel, em 1976.<\/p>\n<p><strong>Futebol e pol\u00edtica<\/strong><\/p>\n<p>Outra mancada foi misturar o velho slogan reciclado com o grito das torcidas de futebol em \u201cO Brasil voltou\u201d, uma alus\u00e3o \u00e0 entrada em campo de jogadores que estavam contundidos ou foram recontratados por suas equipes. H\u00e1 certo mito em rela\u00e7\u00e3o ao impacto do desempenho da sele\u00e7\u00e3o brasileira em copas do mundo nos anos de elei\u00e7\u00e3o. Isso vem da Copa de 1970, no M\u00e9xico, quando o Brasil foi tricampe\u00e3o e a Arena, partido governista do regime militar, obteve uma esmagadora vit\u00f3ria eleitoral. O slogan \u201cPra frente, Brasil\u201d fez enorme sucesso \u00e0quela \u00e9poca, na qual o pa\u00eds vivia a euforia provocada pelas altas de taxas de crescimento do chamado \u201cmilagre brasileiro\u201d, acima de 10%. Tanto que na Copa do Mundo de 2014, o traum\u00e1tico vexame da sele\u00e7\u00e3o, que perdeu por 7 a 1 para a Alemanha, n\u00e3o impediu a reelei\u00e7\u00e3o da presidente Dilma Rousseff.<\/p>\n<p>N\u00e3o faltam os \u201ccausos\u201d de insucesso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mistura de futebol com pol\u00edtica. No antigo estado do Rio de Janeiro, um dos mais conhecidos era o da entrega de uniformes completos para um dos times de Niter\u00f3i, pelo ent\u00e3o candidato a governador do PSD, Get\u00falio de Moura. Depois que come\u00e7ou a partida, a charanga da torcida atacou: \u201cRoberto Silveira, deu camisa e deu chuteira!\u201d. O pol\u00edtico trabalhista \u00e9 que se elegeu governador, mas morreu precocemente num desastre de helic\u00f3ptero, em 1961.<\/p>\n<p>Voltando ao tema original, h\u00e1 que se reconhecer: diante da recess\u00e3o que herdou de Dilma Rousseff, o presidente Temer realmente recolocou a economia do pa\u00eds nos trilhos, com o controle da infla\u00e7\u00e3o, a redu\u00e7\u00e3o dos juros e a retomada do crescimento. Mas n\u00e3o resolveu o problema fiscal, porque a reforma da Previd\u00eancia n\u00e3o foi aprovada, e o governo continua transbordando a Esplanada dos Minist\u00e9rios. O maior problema do governo, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 nem o desemprego. \u00c9 a crise \u00e9tica. Quem quiser que se iluda, doa a quem doer, o combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o se tornou uma prioridade para a sociedade, como foi a luta contra a infla\u00e7\u00e3o no Plano Real.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=uWKpx5Ls1zg\">V\u00edrgula &#8211; Campanha dos 100 anos da ABI<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Doa a quem doer, o combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o pela Lava-Jato se tornou uma prioridade para a sociedade, como foi a luta contra a infla\u00e7\u00e3o no Plano Real Quando a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Imprensa (ABI) completou 100 anos, em 7 de abril de 2008, lan\u00e7ou uma campanha em parceria com o Grupo ABC que tinha a \u201cv\u00edrgula\u201d como protagonista. 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