{"id":2672,"date":"2018-05-20T09:53:48","date_gmt":"2018-05-20T12:53:48","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=2672"},"modified":"2018-05-20T09:53:48","modified_gmt":"2018-05-20T12:53:48","slug":"nas-entrelinhas-desesperanca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-desesperanca\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas:  A desesperan\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p><em>At\u00e9 agora, ningu\u00e9m se apresentou com um programa exequ\u00edvel que enfrente de forma combinada a crise fiscal e o combate \u00e0s desigualdades<\/em><\/p>\n<p>A cinco meses das elei\u00e7\u00f5es para a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, a \u00fanica certeza at\u00e9 agora \u00e9 a mais importante de todas: o calend\u00e1rio eleitoral est\u00e1 mantido. N\u00e3o \u00e9 pouca coisa, num pa\u00eds cuja hist\u00f3ria \u00e9 marcada por golpes de Estado como sa\u00edda para crises. O que preocupa, entretanto, s\u00e3o os vetores de crise que perturbam a economia e a aus\u00eancia de um projeto novo para um pa\u00eds que se atrasou na globaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O primeiro vetor \u00e9 um cen\u00e1rio internacional em mudan\u00e7a, em raz\u00e3o da pol\u00edtica econ\u00f4mica de Donald Trump, cumprindo \u00e0 risca promessas de campanha que pareciam apenas pe\u00e7as de ret\u00f3rica, entre as quais a guerra comercial com a China. A expectativa de eleva\u00e7\u00e3o dos juros nos Estados Unidos inverte a dire\u00e7\u00e3o dos fluxos de investimentos no mundo, que deixam os pa\u00edses emergentes em busca de neg\u00f3cios naquela que ainda \u00e9 a maior economia do mundo, e agora funciona como uma for\u00e7a centr\u00edpeta em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 periferia. O Brasil j\u00e1 est\u00e1 sentindo o peso dessa vari\u00e1vel, agravada por problemas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s nossas exporta\u00e7\u00f5es, principalmente de frango e carne bovina, inclusive em rela\u00e7\u00e3o ao outro polo da economia mundial, a China. A alta do d\u00f3lar tem muito a ver com isso.<\/p>\n<p>O segundo vetor \u00e9 a nossa atividade econ\u00f4mica abaixo da expectativa, com redu\u00e7\u00e3o das previs\u00f5es oficiais de crescimento de 3% para cerca de 2,3%. O mercado j\u00e1 trabalha com um PIB de 1,5% a 2,5%, previs\u00e3o corroborada pelo \u00cdndice de Atividade Econ\u00f4mica do Banco Central (IBC-Br), que teve queda de 0,13% no primeiro trimestre deste ano em rela\u00e7\u00e3o ao \u00faltimo trimestre de 2017. Com isso, o PIB do primeiro trimestre deve ficar na casa de 0,2% em compara\u00e7\u00e3o com igual per\u00edodo do ano anterior.<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso, por\u00e9m, o BC interrompeu a redu\u00e7\u00e3o dos juros, que haviam baixado de 14,25% ao ano em outubro de 2016 para os atuais 6,5%. O d\u00f3lar fechou a semana a R$ 3,74, mesmo com o governo intervindo no c\u00e2mbio, o que eleva as proje\u00e7\u00f5es de infla\u00e7\u00e3o para R$ 3,5%. Para quem viajar, o d\u00f3lar j\u00e1 est\u00e1 quase a R$ 3,95. As expectativas de infla\u00e7\u00e3o para este ano, segundo a pesquisa Focus do BC, continuam em torno de 3,5%. O comunicado do Copom ressaltou que no cen\u00e1rio com juros constantes a 6,5% ao ano e a taxa de c\u00e2mbio constante a R$ 3,60 por d\u00f3lar, por\u00e9m, as proje\u00e7\u00f5es de infla\u00e7\u00e3o sobem para cerca de 4% neste ano e em 2019. A meta de infla\u00e7\u00e3o deste ano \u00e9 um IPCA de 4,5% com margem de toler\u00e2ncia de 1,5 ponto percentual, ou seja, piso de 3% e teto de 6%. no pa\u00eds. Havia expectativa de que se mantivesse em torno do piso; agora, o cen\u00e1rio j\u00e1 \u00e9 outro.<\/p>\n<p>H\u00e1 um terceiro vetor de crise, que est\u00e1 tendo grande impacto entre os agentes econ\u00f4micos: a falta de blindagem da pol\u00edtica fiscal, mesmo com aprova\u00e7\u00e3o do Teto de Gastos, por causa do grande deficit fiscal da Uni\u00e3o. Com a grande contribui\u00e7\u00e3o do Congresso, que abdicou da agenda das reformas, o enfraquecimento cont\u00ednuo do governo Temer, as ren\u00fancias fiscais e a eleva\u00e7\u00e3o dos gastos p\u00fablicos pesam muito na balan\u00e7a. Ainda mais com o desgaste provocado pela crise \u00e9tica, esses vetores somente poderiam ser neutralizados se houvesse um certo consenso entre os candidatos \u00e0 Presid\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 necessidade de redu\u00e7\u00e3o dos gastos p\u00fablicos. Isso n\u00e3o acontece. Segundo o economista Arminio Fraga, o pr\u00f3ximo presidente ter\u00e1 de fazer um ajuste fiscal de 5% do PIB. Num cen\u00e1rio eleitoral no qual a elite pol\u00edtica enfrenta grande desgaste moral, uma proposta como essa n\u00e3o tem nenhum apelo eleitoral, a n\u00e3o ser que viesse acompanhada de um plano de metas robusto.<\/p>\n<p><strong>Candidatos<\/strong><br \/>\nAt\u00e9 agora, ningu\u00e9m se apresentou com um programa exequ\u00edvel que enfrente de forma combinada a crise fiscal e o combate \u00e0s desigualdades. Candidatos que defendem o ajuste fiscal n\u00e3o apresentam um programa capaz de combat\u00ea-las. Em contrapartida, os que tratam das quest\u00f5es sociais n\u00e3o est\u00e3o nem a\u00ed para a redu\u00e7\u00e3o dos gastos do governo, mantendo uma narrativa populista. O resultado \u00e9 a incerteza em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 economia, que vinha numa trajet\u00f3ria de gradativo crescimento. Diante dessa situa\u00e7\u00e3o, a rea\u00e7\u00e3o dos agentes econ\u00f4micos \u00e9 de cautela quanto aos investimentos; e do eleitor, de indiferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao pleito. Ser\u00e1 assim at\u00e9 depois da Copa do Mundo.<\/p>\n<p>O lado mais dram\u00e1tico da situa\u00e7\u00e3o \u00e9 um ex\u00e9rcito de 25 milh\u00f5es de desempregados, dos quais 11 milh\u00f5es s\u00e3o jovens nem-nem (n\u00e3o estudam nem trabalham), sem perspectivas a curto prazo, seja porque a economia formal n\u00e3o gera empregos suficientes, seja porque a baixa atividade econ\u00f4mica tamb\u00e9m n\u00e3o permite a expans\u00e3o do empreendedorismo. Al\u00e9m disso, nos setores mais din\u00e2micos, o surgimento de vagas demanda n\u00edveis de conhecimento t\u00e9cnico que aprofundam as desigualdades.<\/p>\n<p>Num universo de 144 milh\u00f5es de eleitores, essa massa de desempregados se deixa seduzir facilmente por propostas populistas e salvadores da p\u00e1tria. Os eleitores de classe m\u00e9dia, cada vez mais divorciados da pol\u00edtica e suas institui\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m d\u00e3o sinais de que n\u00e3o sabem ainda o rumo que v\u00e3o tomar. H\u00e1 um mar de desesperan\u00e7a, ainda mais porque a crise \u00e9tica quebrou a confian\u00e7a na elite pol\u00edtica do pa\u00eds de forma generalizada entre as parcelas mais instru\u00eddas da popula\u00e7\u00e3o. No fundo, \u00e9 preciso reinventar a esperan\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>At\u00e9 agora, ningu\u00e9m se apresentou com um programa exequ\u00edvel que enfrente de forma combinada a crise fiscal e o combate \u00e0s desigualdades A cinco meses das elei\u00e7\u00f5es para a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, a \u00fanica certeza at\u00e9 agora \u00e9 a mais importante de todas: o calend\u00e1rio eleitoral est\u00e1 mantido. 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