{"id":2677,"date":"2018-05-22T09:46:11","date_gmt":"2018-05-22T12:46:11","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=2677"},"modified":"2018-05-22T09:46:11","modified_gmt":"2018-05-22T12:46:11","slug":"nas-entrelinhas-crise-venezuelana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-crise-venezuelana\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: A crise venezuelana"},"content":{"rendered":"<p><em>Engana-se quem pensa que o regime bolivariano cair\u00e1 num passe de m\u00e1gica. N\u00e3o h\u00e1 a menor chance disso acontecer enquanto os militares venezuelanos apoiarem Maduro<\/em><\/p>\n<p>Integrante do Grupo de Lima, formado por 14 pa\u00edses das Am\u00e9ricas, o Brasil anunciou ontem que n\u00e3o reconhece a legitimidade das elei\u00e7\u00f5es presidenciais na Venezuela, em que Nicol\u00e1s Maduro foi reeleito presidente. Argentina, Canad\u00e1, Chile, Col\u00f4mbia, Costa Rica, Guatemala, Guiana, Honduras, M\u00e9xico, Panam\u00e1, Paraguai, Peru e Santa L\u00facia tamb\u00e9m condenaram a reelei\u00e7\u00e3o. Cuba, Bol\u00edvia, R\u00fassia e Bol\u00edvia apoiaram a recondu\u00e7\u00e3o de Maduro; a China foi pelo mesmo caminho, enquanto os Estados Unidos anunciaram a ado\u00e7\u00e3o de duras san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas.<\/p>\n<p>As elei\u00e7\u00f5es venezuelanas foram marcadas por dois tipos de oposi\u00e7\u00e3o: o n\u00e3o comparecimento \u00e0s urnas de 54% do eleitorado (8,6 milh\u00f5es de eleitores) e uma das mais baixas vota\u00e7\u00f5es do chavismo, 5,8 milh\u00f5es, ou seja, 67% dos votos. Tamb\u00e9m emergiu das urnas uma dissid\u00eancia do chavismo, que reiterou aquilo que a oposi\u00e7\u00e3o j\u00e1 antevia ao boicotar o pleito: houve uma fraude escandalosa nas urnas. Os candidatos derrotados, Henri Falc\u00f3n, que obteve 21% dos votos, e Javier Bertucci, com 11%, ambos chavistas, n\u00e3o reconhecem o resultado e pedem novas elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em rea\u00e7\u00e3o ao pleito, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, proibiu o envolvimento de cidad\u00e3os norte-americanos em negocia\u00e7\u00f5es de t\u00edtulos da d\u00edvida da Venezuela e de outros ativos. Segunda a Casa Branca, o objetivo \u00e9 impedir que oficiais venezuelanos corruptos fa\u00e7am neg\u00f3cios e lavem dinheiro de propina. Desde maio, 62 pessoas e 15 entidades venezuelanas est\u00e3o com bens congelados e proibidos de fazer neg\u00f3cios nos Estados Unidos, que consomem um ter\u00e7o do petr\u00f3leo da Venezuela. As petroleiras americanas n\u00e3o podem mais negociar d\u00edvidas p\u00fablicas do pa\u00eds ou comprar petros, a criptomoeda criada por Caracas.<\/p>\n<p>Entretanto, a China ainda aposta alto no regime de Maduro. Recentemente rebateu as acusa\u00e7\u00f5es do Tesouro dos Estados Unidos de que estaria ajudando o governo venezuelano com investimentos suspeitos envolvendo empr\u00e9stimos em troca de petr\u00f3leo. Em Pequim, o porta-voz da chancelaria chinesa, Geng Shuang, destacou que o pa\u00eds auxiliou a constru\u00e7\u00e3o de mais de 10 mil casas de baixo custo, a gera\u00e7\u00e3o de eletricidade e o gasto com eletrodom\u00e9sticos para tr\u00eas milh\u00f5es de lares venezuelanos de baixa renda.<\/p>\n<p>A Venezuela vive uma crise humanit\u00e1ria, com mais de um milh\u00e3o de venezuelanos em fuga pelas fronteiras com a Col\u00f4mbia e o Brasil. A situa\u00e7\u00e3o tende a se agravar com as novas san\u00e7\u00f5es. Mas se engana quem pensa que o regime bolivariano cair\u00e1 num passe de m\u00e1gica. N\u00e3o h\u00e1 a menor chance disso acontecer enquanto os militares venezuelanos apoiarem Maduro. A \u00fanica tentativa de rebeli\u00e3o militar, no Forte Paramacay, no ano passado, foi um fracasso. A probabilidade maior \u00e9 o regime endurecer ainda mais, expurgando a oposi\u00e7\u00e3o interna, que passar\u00e1 a ser tratada como a antiga oposi\u00e7\u00e3o liberal e social-democrata. Do ponto de vista das rela\u00e7\u00f5es internacionais, Maduro ainda tem aliados poderosos, tanto do ponto de vista econ\u00f4mico quanto militar.<\/p>\n<p><strong>Armas<\/strong><\/p>\n<p>Militarmente, a Venezuela aparece em 45\u00ba lugar no mundo. Na Am\u00e9rica Latina, ocupa o sexto, atr\u00e1s da Col\u00f4mbia (40\u00ba), Peru (39\u00ba), Argentina (35\u00ba), M\u00e9xico (34\u00ba) e o Brasil, que ocupa a 17\u00aa posi\u00e7\u00e3o do GFP (Global Firepower, compilado pelos Estados Unidos). N\u00e3o existe nenhum risco de crise militar entre os pa\u00edses da regi\u00e3o que possa resultar numa guerra com a Venezuela a curto prazo; na verdade, a tens\u00e3o externa serve como biombo e pretexto para o endurecimento do regime, que j\u00e1 pode ser caracterizado como uma ditadura disfar\u00e7ada.<\/p>\n<p>O regime de Maduro n\u00e3o seria o que \u00e9 hoje sem a passagem do coronel Hugo Ch\u00e1vez pela Presid\u00eancia. Ele operou com destreza o alinhamento do alto-comando militar das For\u00e7as Armadas com seu projeto pol\u00edtico, dando aos militares grande poder na economia, seja na gest\u00e3o das empresas, seja no direcionamento dos neg\u00f3cios, principalmente petrol\u00edferos. Al\u00e9m disso, modernizou o equipamento militar, com a aquisi\u00e7\u00e3o de avi\u00f5es, tanques e m\u00edsseis russos. Tamb\u00e9m formou uma mil\u00edcia com 500 mil volunt\u00e1rios em todo o pa\u00eds, nos moldes cubanos, que pode ser mobilizada e prontamente armada pelo Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>Maior do que o risco de guerra com um pa\u00eds vizinho, que a Venezuela hoje n\u00e3o pode bancar sem entrar em completo colapso, a n\u00e3o ser que receba ajuda direta e maci\u00e7a de Cuba, da R\u00fassia ou da China, o que impens\u00e1vel sem uma escalada de tens\u00f5es com os Estados Unidos, \u00e9 a possibilidade de desestrutura\u00e7\u00e3o progressiva de suas for\u00e7as armadas, que j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de atender necessidades elementares. S\u00e3o cada vez mais frequentes os casos de militares venezuelanos doentes ou feridos que buscam socorro m\u00e9dico atravessando, sem se identificarem como tal, a fronteira com o Brasil. O maior problema s\u00e3o armas de m\u00e3o e m\u00edsseis que podem ser transportados e lan\u00e7ados por um s\u00f3 homem, armamentos que podem ser vendidos ou contrabandeados por oficiais corruptos ou soldados em dificuldades financeiras para manter as respectivas fam\u00edlias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Engana-se quem pensa que o regime bolivariano cair\u00e1 num passe de m\u00e1gica. N\u00e3o h\u00e1 a menor chance disso acontecer enquanto os militares venezuelanos apoiarem Maduro Integrante do Grupo de Lima, formado por 14 pa\u00edses das Am\u00e9ricas, o Brasil anunciou ontem que n\u00e3o reconhece a legitimidade das elei\u00e7\u00f5es presidenciais na Venezuela, em que Nicol\u00e1s Maduro foi reeleito presidente. 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