{"id":2681,"date":"2018-05-23T09:13:46","date_gmt":"2018-05-23T12:13:46","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=2681"},"modified":"2018-05-23T09:14:19","modified_gmt":"2018-05-23T12:14:19","slug":"nas-entrelinhas-os-deuses-e-os-mortos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-os-deuses-e-os-mortos\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Os deuses e os mortos"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O que n\u00e3o falta s\u00e3o candidatos a deuses e a mortos-vivos. Vicejam num ambiente de iniquidade social, desesperan\u00e7a, viol\u00eancia e crise \u00e9tica. O pa\u00eds foi atropelado pela globaliza\u00e7\u00e3o e pela Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato<\/em><\/p>\n<p>Dirigido pelo mo\u00e7ambicano naturalizado brasileiro Ruy Guerra, Os deuses e os mortos \u00e9 um \u00edcone da fase \u201caleg\u00f3rica\u201d do Cinema Novo, vencedor do festival de Bras\u00edlia de 1970, numa abordagem barroca e tropicalista que retrata a viol\u00eancia no campo e o monop\u00f3lio da pol\u00edtica pelas oligarquias. Era uma \u00e9poca em que o regime militar estava no auge; parte da esquerda ainda acreditava que derrubaria o regime pegando em armas e que implantaria um \u201cgoverno popular\u201d. Era tudo um del\u00edrio, do \u201cBrasil, ame ou deixe-o\u201d, do general Garrastazu M\u00e9dici, ao \u201cQuem samba fica, quem n\u00e3o samba vai embora\u201d, de Carlos Marighela.<\/p>\n<p>Com fotografia excepcional de Dib Lufti e trilha sonora de Milton Nascimento, o filme tinha um elenco estrelado, a maioria viria a brilhar nas novelas da Globo: Othon Bastos (\u201cO Homem\u201d), Norma Bengell (\u201cSoledade\u201d), Rui Polanah (\u201cUrbano\u201d), \u00cdtala Nandi (\u201cSereno\u201d), Dina Sfat (\u201cA Louca\u201d), Nelson Xavier (\u201cValu\u201d), Jorge Chaia (\u201cCoronel Santana\u201d), Vera Bocayuva (\u201cJura\u201d), Fred Kleemann (\u201cHomem de branco\u201d), Vin\u00edcius Salvatore (\u201cCosme\u201d), Mara R\u00fabia (\u201cProstituta\u201d), Monsueto Menezes (\u201cMeu Anjo\u201d), Milton Nascimento (\u201cDim Dum\u201d), Gilberto Sab\u00f3ia (\u201cBanqueiro\u201d) e Jos\u00e9 Roberto Tavares (\u201cAur\u00e9lio\u201d).<\/p>\n<p>O filme foi saudado pelo The New York Times como um \u201cwestern tropical\u201d, que misturava o japon\u00eas Akira Kurosawa com o italiano S\u00e9rgio Leone no sul da Bahia, tendo a tem\u00e1tica do cacau na saga descrita por Jorge Amado como base do roteiro do pr\u00f3prio Guerra, Paulo Jos\u00e9 e Fl\u00e1vio Imp\u00e9rio. Ao lado do diretor, S\u00e9rgio Sanz fez uma edi\u00e7\u00e3o fascinante. Audacioso no plano est\u00e9tico e pol\u00edtico, a alegoria po\u00e9tica retratava de forma antropol\u00f3gica a vida nacional dos anos 1930, num ambiente rural que culturalmente permanecia o mesmo, mas, economicamente, j\u00e1 estava em mudan\u00e7a. Sua for\u00e7a vital e m\u00e1gica parecia surgir do nada, como acontece hoje nas periferias e favelas. O protagonista \u00e9 um personagem fantasmag\u00f3rico, interpretado por Othon Bastos, ator de Deus e o diabo na Terra do Sol (1964) e S\u00e3o Bernardo (1972).<\/p>\n<p>O Homem Sem Nome (Othon Bastos), depois de levar sete balas no corpo e n\u00e3o morrer numa chacina, se intromete entre dois cl\u00e3s de coron\u00e9is que lutam pelo poder, ou seja, pela terra e pelo cacau, em cenas memor\u00e1veis. A c\u00e2mara de Dib Lufti, num determinado plano-sequ\u00eancia, percorre lentamente um grupo enorme de guerrilheiros, com armas, sentados nos degraus a toda a volta da pra\u00e7a principal da cidade, \u00e0 espera do grande confronto. Na cena seguinte, um plano muito aberto mostra toda essa gente agonizando na pra\u00e7a ensanguentada. O Homem Sem Nome fracassa.<\/p>\n<p>A mesma alegoria poderia ser transposta para o cotidiano da vida urbana do presente, pois o seu material humano, do ponto de vista cultural e pol\u00edtico, continua presente. A viol\u00eancia, a disputa de territ\u00f3rio, o banditismo, as oligarquias, a cultura do velho coronelismo, todos os elementos do roteiro de Os Deuses e os mortos est\u00e3o viv\u00edssimos n\u00e3o s\u00f3 nos grot\u00f5es, mas nas grandes metr\u00f3poles.<\/p>\n<p>Ruy Guerra sabia o que estava fazendo. \u201cEsse filme \u00e9 talvez o passo mais importante desde Deus e o diabo na Terra do Sol para definir uma realidade cultural, religiosa e humana do brasileiro, que n\u00e3o depende apenas do situacionismo econ\u00f4mico e hist\u00f3rico (&#8230;) O Homem, interpretado por Othon Bastos, est\u00e1 infinitamente ligado com o fato de ele n\u00e3o ser caracterizado em termos de passado, presente ou futuro, o que \u2018desindividualiza\u2019, o torna atemporal e aleg\u00f3rico; o desejo impessoal do poder\u201d, explicou \u00e0 \u00e9poca.<\/p>\n<p><strong>Ajuste de contas<\/strong><\/p>\n<p>A alegoria com a nossa pol\u00edtica tamb\u00e9m seria perfeita, basta ler as not\u00edcias dos jornais. O que n\u00e3o falta s\u00e3o candidatos a deuses e a mortos-vivos. Vicejam num ambiente de iniquidade social, desesperan\u00e7a, viol\u00eancia e crise \u00e9tica. As narrativas desses atores funcionam como alegorias de um passado recente que foi atropelado pela globaliza\u00e7\u00e3o e pela Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato, mas continua a assombrar o presente. Um ex-governador cordato e querido pelos pares tem a pris\u00e3o decretada, o ex-l\u00edder de toda uma gera\u00e7\u00e3o rebelde volta \u00e0 cadeia, um ex-presidente preso insiste numa candidatura ficha-suja. Ministros, senadores, deputados, governadores comp\u00f5em um cortejo de mortos-vivos, surgem candidatos a deuses.<\/p>\n<p>Fora desse universo, o aparelho de seguran\u00e7a e o crime organizado se enfrentam, com baixas de ambos os lados. E a morte espreita o cidad\u00e3o a cada esquina, no asfalto ou no morro, na noite escura ou \u00e0 plena luz do dia, enquanto a vida segue milagrosamente o seu curso, ainda que a esperan\u00e7a n\u00e3o tenha sido reinventada, como nas cenas de Os deuses e os mortos. As institui\u00e7\u00f5es do pa\u00eds ainda funcionam, a economia resiste maltratada. Na democracia, acreditem, o povo astucia sua pr\u00f3pria sa\u00edda, que sempre aparece nos processos eleitorais, mesmo quando tudo parece dominado. Em algum momento, ap\u00f3s a Copa do Mundo, haver\u00e1 um reencontro entre a pol\u00edtica e os cidad\u00e3os. E um democr\u00e1tico ajuste de contas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; O que n\u00e3o falta s\u00e3o candidatos a deuses e a mortos-vivos. Vicejam num ambiente de iniquidade social, desesperan\u00e7a, viol\u00eancia e crise \u00e9tica. 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