{"id":2708,"date":"2018-05-31T09:59:24","date_gmt":"2018-05-31T12:59:24","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=2708"},"modified":"2018-05-31T09:59:24","modified_gmt":"2018-05-31T12:59:24","slug":"nas-entrelinhas-sete-licoes-dos-caminhoneiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-sete-licoes-dos-caminhoneiros\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Sete li\u00e7\u00f5es dos caminhoneiros"},"content":{"rendered":"<p><em>A palavra de ordem \u201cFora, Temer!\u201d \u00e9 unificadora de extremos. Houve ciberataques aos \u00f3rg\u00e3os oficiais. Grupos radicais tentaram derrubar o governo e atuar\u00e3o fortemente nas elei\u00e7\u00f5es<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o se recomenda a ningu\u00e9m jogar um paralelep\u00edpedo para o alto, bem na vertical, e ficar olhando para ver o que acontece. Com sorte, o sujeito escapa com vida de um traumatismo craniano. A greve dos caminhoneiros, depois de 10 dias, entrou mesmo em decl\u00ednio, mas quase deixou a economia do pa\u00eds em estado de coma. A primeira li\u00e7\u00e3o a se tirar talvez seja a de que nenhuma categoria profissional tem o direito de fazer a na\u00e7\u00e3o de ref\u00e9m, como disse o ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF). Por isso, \u00e9 leg\u00edtimo utilizar os meios de defesa do Estado para evitar que isso aconte\u00e7a, inclusive as For\u00e7as Armadas. N\u00e3o importa que o governo Temer seja impopular nem que a opini\u00e3o p\u00fablica, como um suicida, majoritariamente apoie o movimento como quem quer cabecear um paralelep\u00edpedo. Todos devem ter seus direitos de ir e vir respeitados.<\/p>\n<p>A segunda li\u00e7\u00e3o \u00e9 a de que o pa\u00eds n\u00e3o est\u00e1 preparado para enfrentar um locaute das empresas de transportes e de distribui\u00e7\u00e3o, que foram a espinha dorsal do movimento; sem esse apoio, a greve n\u00e3o teria a mesma envergadura. Agora, sabemos que esse setor minorit\u00e1rio da economia tem o poder de p\u00f4r em colapso o pa\u00eds. \u00c9 preciso repensar o atual modelo de transportes. Um pacto perverso entre o setor automotivo, os sindicatos de metal\u00fargicos e o governo gerou o excesso de oferta de frete no mercado, exacerbado pela \u201cnova matriz econ\u00f4mica\u201d e a recess\u00e3o do governo Dilma.<\/p>\n<p>Terceira li\u00e7\u00e3o: os militares n\u00e3o estavam preparados para enfrentar uma crise do modelo de log\u00edstica que tanto defenderam como via de integra\u00e7\u00e3o nacional. N\u00e3o havia um plano de conting\u00eancia para prevenir o bloqueio de portos, refinarias, centros de distribui\u00e7\u00e3o e principais eixos rodovi\u00e1rios do pa\u00eds; as For\u00e7as Armadas, mesmo convocadas, demoraram 10 dias para abrir os corredores de abastecimento dos principais centros do pa\u00eds. At\u00e9 o aeroporto de Bras\u00edlia ficou sem condi\u00e7\u00f5es operacionais, o que n\u00e3o acontece nem em Bagd\u00e1, Damasco e Cabul.<\/p>\n<p>A substitui\u00e7\u00e3o das ferrovias pelas rodovias no Brasil tem muito a ver com a experi\u00eancia da II Guerra Mundial, na qual o deslocamento r\u00e1pido de tropas e blindados alem\u00e3es por rodovias surpreendeu os franceses e escancarou a obsolesc\u00eancia da Linha Maginot. As fortifica\u00e7\u00f5es constru\u00eddas pela Fran\u00e7a ao longo de suas fronteiras com a Alemanha e a It\u00e1lia, ap\u00f3s a Primeira Guerra Mundial, entre 1930 e 1936, eram compostas de 108 fortes a 15 km de dist\u00e2ncia uns dos outros, edifica\u00e7\u00f5es menores e casamatas, e mais de 100 km de galerias. Interrompida a 20km de Sedan, por ali avan\u00e7aram as britzkrieger alem\u00e3s, apesar das li\u00e7\u00f5es da derrota de Napole\u00e3o III e seus 88 mil homens, no mesmo local, em 1870, na guerra franco-prussiana. Com a Linha Maginot intacta, a Fran\u00e7a foi ocupada e as tropas inglesas cercadas e empurradas para o mar.<\/p>\n<p>Quarta li\u00e7\u00e3o da greve: as estruturas verticais de poder, em tempos l\u00edquidos, n\u00e3o conseguem traduzir e representar a sociedade no fluxo das crises. Como nas manifesta\u00e7\u00f5es de 2013, os caminhoneiros se organizaram horizontalmente pelas redes sociais; o movimento continuou mesmo ap\u00f3s os sindicatos terem fechado um acordo com o governo. Foi preciso outra negocia\u00e7\u00e3o, com l\u00edderes regionais; ainda assim continuou mais radicalizado e violento, porque a minoria fez uso da for\u00e7a para manter os bloqueios nas estradas. N\u00e3o houve um ponto estrat\u00e9gico, em todo o territ\u00f3rio nacional, em que um grupo atuante n\u00e3o impusesse suas decis\u00f5es aos demais, num n\u00edvel de coopera\u00e7\u00e3o e coordena\u00e7\u00e3o superior at\u00e9 ao das for\u00e7as de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Elei\u00e7\u00f5es<\/strong><br \/>\nA ficha dos pol\u00edticos s\u00f3 caiu quando eles se deram conta de que havia setores do movimento dos caminhoneiros interessados em desestabilizar o Planalto e provocar uma interven\u00e7\u00e3o militar. J\u00e1 n\u00e3o existe um governo de coaliz\u00e3o, essa \u00e9 a quinta li\u00e7\u00e3o. O isolamento do presidente Michel Temer foi absoluto. N\u00e3o houve solidariedade do Congresso. Alguns governadores mandaram a Pol\u00edcia Militar se recolher. Corretamente, as For\u00e7as Armadas foram orientadas a negociar exaustivamente com os grevistas, jamais entrar em confronto com os manifestantes. Foram raros os casos de emprego de tropa de choque para dissolver bloqueios ilegais e at\u00e9 desumanos, no caso de transporte de oxig\u00eanio e produtos farmac\u00eauticos. Dois homic\u00eddios est\u00e3o na conta de grevistas.<\/p>\n<p>A sexta li\u00e7\u00e3o: a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 ainda \u00e9 o que nos une, com todos os defeitos. Gra\u00e7as a elas as institui\u00e7\u00f5es funcionam e t\u00eam legitimidade. Seus mecanismos, quando acionados, responderam \u00e0s necessidades, mais uma vez tendo o Judici\u00e1rio como poder moderador. Temos um governo fraco, mas um Estado forte, capaz de exercer suas fun\u00e7\u00f5es essenciais: arrecadar, normatizar e coagir. Finalmente, a \u00faltima li\u00e7\u00e3o: a greve dos caminhoneiros foi instrumentalizada por grupos radicais. Est\u00e3o muito organizados na internet, utilizam perfis falsos, rob\u00f4s e fake news. A maioria \u00e9 de direita e simp\u00e1tica ao deputado Jair Bolsonaro (PSL-RJ), candidato a presidente da Rep\u00fablica, mas setores de esquerda a eles se aliaram para desestabilizar o governo, irresponsavelmente. A palavra de ordem \u201cFora, Temer!\u201d \u00e9 unificadora dos extremos. Houve muitos ciberataques aos \u00f3rg\u00e3os oficiais. Est\u00e1 \u00f3bvio que esses grupos atuar\u00e3o fortemente nas elei\u00e7\u00f5es, com os mesmos m\u00e9todos. At\u00e9 que ponto tentar\u00e3o inviabiliz\u00e1-las ou fraud\u00e1-las?<\/p>\n<p><strong>F\u00e9rias<\/strong> \u2014 <em>Entrarei em recesso por tr\u00eas semanas. Leonardo Cavalcanti<\/em><br \/>\n<em> me substituir\u00e1.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A palavra de ordem \u201cFora, Temer!\u201d \u00e9 unificadora de extremos. Houve ciberataques aos \u00f3rg\u00e3os oficiais. Grupos radicais tentaram derrubar o governo e atuar\u00e3o fortemente nas elei\u00e7\u00f5es N\u00e3o se recomenda a ningu\u00e9m jogar um paralelep\u00edpedo para o alto, bem na vertical, e ficar olhando para ver o que acontece. Com sorte, o sujeito escapa com vida de um traumatismo craniano. 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