{"id":2716,"date":"2018-06-22T06:01:08","date_gmt":"2018-06-22T09:01:08","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=2716"},"modified":"2018-06-22T06:01:08","modified_gmt":"2018-06-22T09:01:08","slug":"nas-entrelinhas-linhas-tortas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-linhas-tortas\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas:  Linhas tortas"},"content":{"rendered":"<p><em>Nossa Sele\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o \u00e9 \u201ca p\u00e1tria de chuteiras\u201d, na defini\u00e7\u00e3o do saudoso Nelson Rodrigues. Na verdade, precisamos de uma vit\u00f3ria para chamar de nossa<\/em><\/p>\n<p>Depois da derrota da Argentina para a Cro\u00e1cia, por 3 a 0, a empolga\u00e7\u00e3o dos brasileiros em S\u00e3o Petersburgo (ex-Petrogrado, ex-Leningrado) aumentou muito. Ningu\u00e9m mais anda borococh\u00f4 por causa da partida contra Su\u00ed\u00e7a, na qual o Brasil empatou por 1&#215;1. A torcida brasileira curte a desgra\u00e7a dos \u201chermanos\u201d, aposta numa vit\u00f3ria na manh\u00e3 de hoje contra a Costa Rica e promete lotar a Arena Zenit. Mas n\u00e3o se pode garantir que o jogo ser\u00e1 como um passeio pela Nevsky Prospekt, a grande avenida tra\u00e7ada por Pedro, o Grande, no meio de um p\u00e2ntano, como in\u00edcio da estrada para Moscou e para Novgorod, a cidade natal do pr\u00edncipe Alexandre Nevsky, que expulsou os suecos e cavaleiros teut\u00f4nicos e foi canonizado pela Igreja Ortodoxa Russa.<\/p>\n<p>A Nevsky Prospekt \u00e9 um s\u00edmbolo da modernidade, com seus 6km de extens\u00e3o. Come\u00e7a na Pra\u00e7a do Pal\u00e1cio, entre o Almirantado e o Hermitage, um dos mais importantes museus de arte do mundo, e termina no Mosteiro de Alexandre Nevsky. No caminho, est\u00e3o o Pal\u00e1cio Stroganov, a Catedral de Nossa Senhora de Kazan, a Igreja do Sangue Derramado, o Caf\u00e9 Singer, a Ponte dos Cavalos, o Museu Faberg\u00e9 e o monumento a Catarina, a Grande. A import\u00e2ncia da czarina de origem alem\u00e3 na constru\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio Russo rivaliza com a de Pedro, o Grande, cujos principais m\u00e9ritos foram abrir o acesso ao Mar B\u00e1ltico, organizar a Marinha russa e construir uma nova capital, voltada para o Ocidente, o que somente foi poss\u00edvel depois de derrotar o poderoso Carlos XII, da Su\u00e9cia, em Poltava, na Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>Fundada em 1703, a constru\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Petersburgo levou d\u00e9cadas. Em 1736, a cidade sofreu inc\u00eandios catastr\u00f3ficos. Para reestruturar as \u00e1reas mais danificadas, um novo plano foi estabelecido em 1737. O estilo Barroco dominou a cidade pelos primeiros 60 anos, sendo sucedido pelo estilo Naryshkin do Pal\u00e1cio de Inverno e pelo neocl\u00e1ssico. Em 1762, o departamento de constru\u00e7\u00e3o civil definiu que nenhuma estrutura deveria ser mais alta do que o Pal\u00e1cio de Inverno. A cidade influenciou a reforma urbana de Paris, comandada por Georges-Eug\u00e8ne Hausmann, entre 1852 e 1870, e at\u00e9 o \u201cPlano de Comiss\u00e1rios\u201d, de 1811, que serviu de base para a expans\u00e3o de Manhattan, com a cria\u00e7\u00e3o de 16 avenidas no sentido norte-sul, cortadas por 155 ruas na dire\u00e7\u00e3o leste-oeste, o cora\u00e7\u00e3o de Nova York. De certa forma, as reformas urbanas de S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro e o tra\u00e7ado de Bras\u00edlia sofreram a influ\u00eancia da Nevsky Prospekt.<\/p>\n<p>Para quem est\u00e1 achando que estou na R\u00fassia, informo que voltei ao batente aqui mesmo, em Bras\u00edlia. Estive em S\u00e3o Petersburgo em maio de 1991, ocasi\u00e3o na qual o Partido Comunista foi despejado do Smolny pela mil\u00edcia, por ordem do prefeito Popov, um dissidente de Gorbatchov como o ex-presidente Yeltsin. Os bolcheviques estavam l\u00e1 desde a transfer\u00eancia da capital para Moscou, sem pagar uma conta de \u00e1gua ou luz nem regularizar a posse do im\u00f3vel da antiga escola de mo\u00e7as da Corte russa, que serviu de cen\u00e1rio para a tomada do poder pelos comunistas, com a palavra de ordem \u201cTodo poder aos sovietes!\u201d.<\/p>\n<p><strong>A torcida<\/strong><\/p>\n<p>Tomara que os brasileiros comemorem bastante a vit\u00f3ria brasileira na mais ocidental das cidades russas, sem os vexames a que assistimos pela internet: as infames cenas de ass\u00e9dio sexual e brincadeiras de mau gosto de torcedores que abusaram da hospitalidade e da ingenuidade das jovens e dos meninos russos, t\u00e3o simp\u00e1ticos em rela\u00e7\u00e3o aos brasileiros. \u00c9 bom lembrar que o povo russo costuma tratar os invasores na base do &#8216;olho por olho, dente por dente\u201d. E que a resist\u00eancia ao cerco alem\u00e3o da antiga Leningrado foi uma das mais dram\u00e1ticas batalhas da II Guerra Mundial.<\/p>\n<p>No Brasil, n\u00e3o h\u00e1 empolga\u00e7\u00e3o com a Sele\u00e7\u00e3o. Todo mundo est\u00e1 desconfiado de que Tite e Neymar n\u00e3o v\u00e3o dar conta do recado. Faltaram garra e identidade ao time que jogou de salto alto contra a Su\u00ed\u00e7a. O mal-estar generalizado que vive o pa\u00eds parece que contaminou o futebol, a grande paix\u00e3o nacional. Nossa Sele\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o \u00e9 \u201ca p\u00e1tria de chuteiras\u201d, na defini\u00e7\u00e3o do saudoso Nelson Rodrigues. Na verdade, precisamos de uma vit\u00f3ria para chamar de nossa. Mesmo que seja suada, dram\u00e1tica, mas que mostre um time heroico, disposto a lutar e a vencer.<\/p>\n<p>Pra n\u00e3o dizer que n\u00e3o falei das flores do recesso dissimulado do Congresso, vale registrar que pol\u00edtica e futebol nem sempre andam de m\u00e3os juntas. Esse mito foi criado na Copa de 1970, no governo do general M\u00e9dici, com o slogan \u201cPra frente Brasil\u201d. Na Copa de 2014, depois daquele chocolate que levamos da Alemanha, de 7 x 1, a presidente Dilma Rousseff foi reeleita. Neste ano, mesmo que o Brasil seja campe\u00e3o, ningu\u00e9m vai capitalizar o resultado, seja no governo ou na oposi\u00e7\u00e3o. No momento, o estranhamento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Sele\u00e7\u00e3o \u00e9 muito semelhante ao que ocorre em rela\u00e7\u00e3o aos partidos e aos pol\u00edticos. Com exce\u00e7\u00e3o da turma de brasileiros que est\u00e1 na R\u00fassia, a torcida n\u00e3o foi pra rua no Brasil. Mas j\u00e1 estamos secando os alem\u00e3es e argentinos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nossa Sele\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o \u00e9 \u201ca p\u00e1tria de chuteiras\u201d, na defini\u00e7\u00e3o do saudoso Nelson Rodrigues. Na verdade, precisamos de uma vit\u00f3ria para chamar de nossa Depois da derrota da Argentina para a Cro\u00e1cia, por 3 a 0, a empolga\u00e7\u00e3o dos brasileiros em S\u00e3o Petersburgo (ex-Petrogrado, ex-Leningrado) aumentou muito. 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