{"id":2740,"date":"2018-07-01T08:25:11","date_gmt":"2018-07-01T11:25:11","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=2740"},"modified":"2018-07-06T00:11:59","modified_gmt":"2018-07-06T03:11:59","slug":"nas-entrelinhas-o-abismo-frente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-abismo-frente\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O abismo \u00e0 frente"},"content":{"rendered":"<p><em>A crise \u00e9tica, a viol\u00eancia do cotidiano, a desagrega\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia e uma economia que demanda mais tecnologia e menos m\u00e3o de obra explicam muita coisa, inclusive o recrudescimento da misoginia, do preconceito, da intoler\u00e2ncia e da radicaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica<\/em><\/p>\n<p>A famosa Escola de Frankfurt, que reuniu a nata da intelig\u00eancia judaico-alem\u00e3 \u2014 Theodor Adorno, Max Horkheimer, Hebert Marcuse, Erich From, Friedrich Pollok, Franz Neumann e J\u00fcrgen Habermas, Walter Benjamin, entre outros \u2014 exerceu not\u00e1vel influ\u00eancia sobre o pensamento social-democrata e liberal no s\u00e9culo passado. Surgiu para explicar o fracasso da revolu\u00e7\u00e3o socialista (espartaquista) na Alemanha, mas acabou dedicando boa parte de sua \u201cteoria cr\u00edtica\u201d ao estudo das raz\u00f5es que levaram o povo alem\u00e3o a apoiar o nazismo.<\/p>\n<p>O livro Grande Hotel Abismo (Companhia das Letras), do jornalista brit\u00e2nico Stuart Jeffries, conta a hist\u00f3ria desse grupo de jovens intelectuais judeus de fam\u00edlias abastadas, que foi obrigado a fugir da Alemanha para sobreviver ao nazismo e buscou ref\u00fagio nos Estados Unidos. Curiosamente, o Instituto de Pesquisa Social nasceu sob influ\u00eancia sovi\u00e9tica e foi financiado por um banqueiro alem\u00e3o, numa cidade onde os judeus buscavam a plena integra\u00e7\u00e3o e o sucesso social, tendo eleito o prefeito local em 1924. Em 1933, eram 26 mil asquenazes em Frankfurt; antes que terminasse a Segunda Guerra Mundial, 9 mil haviam sido deportados. Hoje, os mortos do Holocausto s\u00e3o homenageados em 11.134 cubos de metal na Wand der Namen.<\/p>\n<p>Entretanto, a Escola de Frankfurt, como se tornou conhecida, logo renegou a ortodoxia marxista. Seus integrantes n\u00e3o concordavam com a tese de que os intelectuais devem transformar o mundo, eram c\u00e9ticos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 luta pol\u00edtica e se colocavam acima dos partidos. Haviam abandonado a conex\u00e3o entre a teoria e a pr\u00e1tica, mas n\u00e3o imaginavam que muitos anos depois, ap\u00f3s maio de 1968, intelectuais como Adorno e Marcuse seriam os gurus de estudantes radicais e da chamada nova esquerda.<\/p>\n<p>Para a esquerda mais ortodoxa, o fascismo era \u201ca ditadura terrorista aberta dos elementos mais reacion\u00e1rios, mais chauvinistas, mais imperialistas do capital financeiro\u201d, uma f\u00f3rmula simplificada, que permitiria aos comunistas alem\u00e3es classificarem a socialdemocracia como uma for\u00e7a \u201csocial-fascista\u201d, num ajuste de contas pelo fracasso da Liga Espartaquista, que tentou tomar o poder em 1919. Enquanto a esquerda se digladiava, o fascismo se expandia pela Europa, com ajuda das tropas nazistas (It\u00e1lia, Alemanha, Hungria, Bulg\u00e1ria, \u00c1ustria, Espanha, Fran\u00e7a, Holanda, Rom\u00eania, Su\u00ed\u00e7a, Pol\u00f4nia, Gr\u00e9cia e Iugosl\u00e1via), chegava ao Oriente (Jap\u00e3o, China e L\u00edbano) e \u00e0 Am\u00e9rica Latina (Brasil, Chile e Costa Rica).<\/p>\n<p>Como explicar a ades\u00e3o das massas ao fascismo? Esse debate emergiu na Escola de Frankfurt por vias completamente diferentes da abordagem tradicional. Wilhelm Reich, por exemplo, em 1933, no livro Psicologia de massas do fascismo, atribuiu sua ascens\u00e3o \u00e0 repress\u00e3o sexual. Para ele, a fam\u00edlia n\u00e3o era, como tinha sido para Hegel, uma zona aut\u00f4noma que resistia ao Estado, mas a miniatura de um Estado autorit\u00e1rio que preparava a crian\u00e7a para sua ulterior subordina\u00e7\u00e3o. Esse debate foi retomado por Erich Fromm, o principal formulador do grupo na \u00e1rea de psican\u00e1lise, para quem o sadismo era a outra face da moeda do masoquismo, conforme a conclus\u00e3o de Freud. O sadomasoquismo era caracterizado por um esfor\u00e7o compulsivo em busca de ordem.<\/p>\n<p><strong>Freud explica<\/strong><\/p>\n<p>Na Rep\u00fablica de Weimar, quando a Alemanha transitava para o capitalismo monopolista de Estado, o povo alem\u00e3o estava impotente, esmagado pela crise econ\u00f4mica e espiritualmente alienado. De forma sadomasoquista, n\u00e3o pretendia mudar o pr\u00f3prio destino, preferiu se submeter \u00e0 autoridade que faria isso por ele. \u201cO desejo de estar sob uma autoridade \u00e9 canalizado para um l\u00edder forte, enquanto outras figuras paternas espec\u00edficas tornam-se alvo de rebeli\u00e3o\u201d, escreveu Fromm. A personalidade autorit\u00e1ria de Hitler n\u00e3o somente governou a Alemanha em nome de uma autoridade maior, a superioridade racial ariana, como a tornou atraente para o povo alem\u00e3o, principalmente uma insegura classe m\u00e9dia.<\/p>\n<p>Essa abordagem freudiana do fascismo tornou-se predominante na Escola de Frankfurt, mas n\u00e3o era \u00fanica. Foi contestada por outros intelectuais, que viam o fascismo como a resultante do capitalismo de Estado e do nacionalismo, entre outras causas. Mas h\u00e1 que se reconhecer: ela tem o seu valor, pode ajudar a compreender certos fen\u00f4menos que n\u00e3o t\u00eam uma explica\u00e7\u00e3o aparente e nos surpreendem pelo mundo afora. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que a chamada \u201cteoria cr\u00edtica\u201d da Escola de Frankfurt desperta um novo interesse. A crise das democracias e a estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica no Ocidente contrastam com a moderniza\u00e7\u00e3o e emerg\u00eancia de regimes autorit\u00e1rios no Oriente.<\/p>\n<p>No Brasil, por exemplo, o buraco negro do chamado centro democr\u00e1tico n\u00e3o tem a ver apenas com a crise \u00e9tica de nossa elite pol\u00edtica; a viol\u00eancia do cotidiano, a desagrega\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia unicelular-patriarcal e uma economia que, demandando mais tecnologia e menos m\u00e3o de obra, explicam muita coisa, inclusive o recrudescimento da misoginia, do preconceito de g\u00eanero e racial, da intoler\u00e2ncia religiosa e da radicaliza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica no debate eleitoral. \u201cO indiv\u00edduo assustado busca algu\u00e9m ou algo a que possa atrelar o seu \u2018eu\u2019\u201d, diria Fromm. Ou seja, \u00e0 incapacidade de mudar o seu pr\u00f3prio destino, o cidad\u00e3o comum desesperan\u00e7ado procura algu\u00e9m que supostamente possa faz\u00ea-lo na marra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A crise \u00e9tica, a viol\u00eancia do cotidiano, a desagrega\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia e uma economia que demanda mais tecnologia e menos m\u00e3o de obra explicam muita coisa, inclusive o recrudescimento da misoginia, do preconceito, da intoler\u00e2ncia e da radicaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica A famosa Escola de Frankfurt, que reuniu a nata da intelig\u00eancia judaico-alem\u00e3 \u2014 Theodor Adorno, Max Horkheimer, Hebert Marcuse, Erich From, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46,3,9],"tags":[201,67,202],"class_list":["post-2740","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-eleicoes","category-politica","category-politica-2","tag-crise-etica","tag-eleicoes2018","tag-fascismo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2740","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2740"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2740\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2760,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2740\/revisions\/2760"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2740"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2740"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2740"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}