{"id":2790,"date":"2018-07-18T09:45:45","date_gmt":"2018-07-18T12:45:45","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=2790"},"modified":"2018-07-18T09:47:19","modified_gmt":"2018-07-18T12:47:19","slug":"nas-entrelinhas-o-candidato-dos-violentos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-candidato-dos-violentos\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O candidato dos violentos"},"content":{"rendered":"<p><em>\u00c9 cultura pol\u00edtica arraigada, fingir que a viol\u00eancia n\u00e3o \u00e9 um problema do presidente da Rep\u00fablica, \u00e9 agenda de governador. Era, n\u00e3o \u00e9 mais<\/em><\/p>\n<p>De onde vem a resili\u00eancia do deputado federal Jair Bolsonaro (PSL-RJ), que lidera as pesquisas de inten\u00e7\u00e3o de voto para a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica com Lula fora da disputa? Com toda certeza, vem da viol\u00eancia presente no cotidiano da popula\u00e7\u00e3o, que tem ra\u00edzes profundas na sociedade brasileira, por causa do nosso passado escravocrata, mas ganhou contornos de guerra civil n\u00e3o declarada em raz\u00e3o do tr\u00e1fico de drogas e da explosiva situa\u00e7\u00e3o dos pres\u00eddios brasileiros.<\/p>\n<p>H\u00e1 outras causas para o enraizamento popular de sua candidatura, como o desemprego escandaloso, que atinge 13 milh\u00f5es de trabalhadores, e a desestrutura\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia unicelular patriarcal em decorr\u00eancia da revolu\u00e7\u00e3o dos costumes, mas s\u00e3o temas em disputa eleitoral que n\u00e3o foram monopolizados por Bolsonaro. O tema da viol\u00eancia, n\u00e3o, \u00e9 dele e ningu\u00e9m tasca, porque Bolsonaro tem uma proposta de tratamento de choque para o problema: a pena de morte. Ou seja, tratar os criminosos com intensidade igual ou superior \u00e0 natureza de suas a\u00e7\u00f5es, em todos os casos. M\u00fasica para os violentos.<\/p>\n<p>Ironicamente, o maior legado que o presidente Michel Temer deixar\u00e1 para os seus sucessores \u00e9 a organiza\u00e7\u00e3o do Sistema Unificado de Seguran\u00e7a P\u00fablica (SUSP), recentemente criado, cuja implanta\u00e7\u00e3o est\u00e1 a cargo do ministro da Seguran\u00e7a P\u00fablica, Raul Jungmann. Pela primeira vez na hist\u00f3ria, o governo federal assumir\u00e1 responsabilidade em rela\u00e7\u00e3o ao problema em car\u00e1ter nacional e permanente. Desde a Constitui\u00e7\u00e3o de 1924, era assunto dos estados, fazia parte da pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o do poder central com as oligarquias regionais.<\/p>\n<p>O combate \u00e0 viol\u00eancia era uma das bandeiras de Temer para tentar a reelei\u00e7\u00e3o, mas o presidente da Rep\u00fablica foi engolido pelas duas den\u00fancias do ex-procurador-geral Rodrigo Janot e por investiga\u00e7\u00f5es em curso da Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato, sob orienta\u00e7\u00e3o do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Lu\u00eds Barroso. A economia n\u00e3o cresceu como se esperava e a interven\u00e7\u00e3o federal no Rio de Janeiro, ato de grande repercuss\u00e3o, n\u00e3o deu os resultados que o governo esperava.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a que Temer promoveu foi estrutural e ter\u00e1 resultados a longo prazo, com a cria\u00e7\u00e3o de um fundo de financiamento do sistema, uma escola de seguran\u00e7a e intelig\u00eancia e um sistema integrado de dados. Como a abertura comercial feita pelo ex-presidente Collor de Mello, que renunciou ao mandato para evitar o impeachment, somente com o tempo a mudan\u00e7a ser\u00e1 sentida pela popula\u00e7\u00e3o. Mas estar\u00e3o dadas condi\u00e7\u00f5es efetivas para que o futuro governo lidere o combate \u00e0 viol\u00eancia e ao crime organizado, que se tornou um problema de seguran\u00e7a nacional.<\/p>\n<p>Acontece que nenhum candidato, com exce\u00e7\u00e3o de Bolsonaro, pretende tratar desse assunto como prioridade. \u00c9 cultura pol\u00edtica arraigada, fingir que a viol\u00eancia n\u00e3o \u00e9 um problema do presidente da Rep\u00fablica, \u00e9 agenda de governador. Era, n\u00e3o \u00e9 mais. Vejam o caso do governador do Esp\u00edrito Santo, Paulo Hartung (PMDB). Em 2010, deixou o governo com uma crise nos pres\u00eddios que arranhou sua imagem de pol\u00edtico comprometido com os direitos humanos e a quest\u00e3o social. Agora, encerra o terceiro mandato sem condi\u00e7\u00f5es de disputar a reelei\u00e7\u00e3o, desgastado em raz\u00e3o da crise do sistema de seguran\u00e7a p\u00fablica capixaba, cujo \u00e1pice foi a greve dos policiais militares.<\/p>\n<p><strong>Classes perigosas<\/strong><\/p>\n<p>Um dos int\u00e9rpretes do Brasil, o alagoano Alberto Passos Guimar\u00e3es (1908-1993), autor de Quatro s\u00e9culos de latif\u00fandio, foi um dos primeiros a estudar o fen\u00f4meno da criminalidade (ou da criminaliza\u00e7\u00e3o, como preferem estudiosos do tema) e da viol\u00eancia nos grandes centros urbanos brasileiros, no rastro dos seus estudos sobre a quest\u00e3o agr\u00e1ria e a urbaniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Na obra As classes perigosas \u2014 banditismo urbano e rural (Editora UERJ), publicada em 1982, fez um diagn\u00f3stico preciso do problema: \u201c\u00c0 viol\u00eancia dos criminosos se junta \u00e0 viol\u00eancia das pr\u00f3prias v\u00edtimas e, a essas duas, uma terceira se vem juntar: a viol\u00eancia dos \u00f3rg\u00e3os policiais, que, pouco fazendo para prevenir o crime, querem compensar sua inefic\u00e1cia tentando in\u00fatil e injustificadamente eliminar o crime aumentando o grau de ferocidade da repress\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>A \u201cvia prussiana\u201d de moderniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, durante o regime militar, gerou um contingente populacional \u201cexcedente\u201d, que fora expulso do campo pela mecaniza\u00e7\u00e3o da agricultura, e despreparado para ser absorvido nos marcos da urbaniza\u00e7\u00e3o. Houve desestrutura\u00e7\u00e3o de grande n\u00famero de fam\u00edlias, cuja pauperiza\u00e7\u00e3o, pela concentra\u00e7\u00e3o da propriedade da terra e pelo desemprego, foi o caldo de cultura para o banditismo tal como conhecemos hoje.<\/p>\n<p>O Brasil entrou num novo ciclo de amplia\u00e7\u00e3o das desigualdades na crise do governo de Dilma Rousseff. Apesar da ret\u00f3rica petista e dos programas de transfer\u00eancia de renda do governo, a recess\u00e3o ampliou os desequil\u00edbrios demogr\u00e1ficos e sociais. Al\u00e9m disso, a crise \u00e9tica mudou o comportamento social das camadas urbanas, que utilizam c\u00f3digos ou s\u00edmbolos morais diferentes para entender e resolver seus problemas. O entendimento do direito \u00e0 propriedade j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o mesmo. Os que t\u00eam o maior interesse em resguard\u00e1-lo n\u00e3o o fazem. E o respeito sagrado inoculado na consci\u00eancia das classes pobres foi profundamente desgastado, como j\u00e1 advertia Guimar\u00e3es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 cultura pol\u00edtica arraigada, fingir que a viol\u00eancia n\u00e3o \u00e9 um problema do presidente da Rep\u00fablica, \u00e9 agenda de governador. Era, n\u00e3o \u00e9 mais De onde vem a resili\u00eancia do deputado federal Jair Bolsonaro (PSL-RJ), que lidera as pesquisas de inten\u00e7\u00e3o de voto para a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica com Lula fora da disputa? 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