{"id":2799,"date":"2018-07-20T09:13:58","date_gmt":"2018-07-20T12:13:58","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=2799"},"modified":"2018-07-20T09:13:58","modified_gmt":"2018-07-20T12:13:58","slug":"nas-entrelinhas-angustia-e-lucidez","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-angustia-e-lucidez\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Ang\u00fastia e lucidez"},"content":{"rendered":"<p><em>A sucess\u00e3o de Villas B\u00f4as, que estava fora de cogita\u00e7\u00e3o at\u00e9 o final do governo de Michel Temer, devido ao agravamento do seu estado de sa\u00fade, come\u00e7a a ser discutida na caserna<\/em><\/p>\n<p>Discretamente, os militares ampliam sua influ\u00eancia no governo Michel Temer e junto aos demais poderes. Sob comando do general Joaquim Silva e Luna, a c\u00fapula do Minist\u00e9rio da Defesa, criado para garantir o comando civil \u00e0s for\u00e7as armadas, pouco difere do antigo Estado-maior das For\u00e7as Armadas do regime militar, pois os cargos imediatamente abaixo do ministro s\u00e3o ocupados por oficiais generais da Marinha e da Aeron\u00e1utica. Mas ningu\u00e9m se iluda, a principal lideran\u00e7a militar do pa\u00eds \u00e9 o comandante do Ex\u00e9rcito, general Eduardo Villas B\u00f4as. Est\u00e1 gravemente doente e incapacitado de se locomover por meios pr\u00f3prios, mas esbanja lucidez.<\/p>\n<p>Sua \u00faltima apari\u00e7\u00e3o numa solenidade militar p\u00fablica foi no dia 5 de julho, em S\u00e3o Paulo, na sede do Comando Militar do Sudeste, que tinha tudo para gerar uma crise pol\u00edtica, pois se tratava de uma homenagem ao soldado M\u00e1rio Kozel Filho, morto h\u00e1 50 anos em um ataque da VPR (Vanguarda Popular Revolucion\u00e1ria). Na v\u00e9spera, a Corte Interamericana de Direitos Humanos havia condenado o Estado brasileiro pela tortura e assassinato do jornalista Vladimir Herzog, ocorrido em outubro de 1975, por militares, numa unidade do Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>Kozel foi morto por militantes da organiza\u00e7\u00e3o de esquerda radical que lan\u00e7aram carro-bomba com dinamites na porta do quartel-general de S\u00e3o Paulo. \u00c0 \u00e9poca, o soldado tinha 18 anos. Outros seis militares ficaram feridos. Ap\u00f3s o ataque, 10 suspeitos foram detidos. Entre eles, Eduardo Leite, o Bacuri, morto enquanto preso em 1970, em S\u00e3o Paulo. Um outro suspeito do atentado, o ex-sargento Onofre Pinto, foi morto em uma a\u00e7\u00e3o do Centro de Informa\u00e7\u00f5es do Ex\u00e9rcito, em Foz de Igua\u00e7u (PR).<\/p>\n<p>Villas B\u00f4as voou para S\u00e3o Paulo e abortou qualquer possibilidade de provoca\u00e7\u00e3o, com um discurso no fio da navalha: \u201cAquele incidente com o soldado Kozel, v\u00edtima inocente do terrorismo, nos obriga a exercitar o maior ativo humano \u2014 a capacidade de aprender. Agora \u00e9 um momento que nos aconselha, aos brasileiros e \u00e0s institui\u00e7\u00f5es, a prud\u00eancia nos \u00e2nimos\u201d. E arrematou: \u201cNaquela \u00e9poca, a sociedade brasileira cometeu o erro de permitir que a linha de confronta\u00e7\u00e3o da guerra fria dividisse a nossa sociedade, o que acabou criando ambientes para que fatos lament\u00e1veis, como a morte de Kozel e Herzog, tivessem ocorrido\u201d.<\/p>\n<p>Segundo o general, o epis\u00f3dio marca \u201cum per\u00edodo de entusiasmos artificializados, de intoler\u00e2ncias incitadas e de paix\u00f5es extremadas que faziam os brasileiros m\u00edopes para a realidade civilizada. Foi um tempo que nos dividiu, que fragmentou a sociedade e nos tornou conflitivos\u201d. Para o comandante do Ex\u00e9rcito, n\u00e3o existe a possibilidade de uma interven\u00e7\u00e3o militar nos mesmos moldes do per\u00edodo do governo militar, entre 1964 e 1985: \u201cEu nem vejo um car\u00e1ter ideol\u00f3gico nisso. Mas, de qualquer forma, as For\u00e7as Armadas, e o Ex\u00e9rcito, pelo qual eu respondo, se, eventualmente, tiverem de intervir, ser\u00e1 para fazer cumprir a Constitui\u00e7\u00e3o, manter a democracia e proteger as institui\u00e7\u00f5es\u201d, afirmou.<\/p>\n<p><strong>Sucess\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>\u201cQuem interpreta que o Ex\u00e9rcito pode intervir (como no regime militar), \u00e9 porque n\u00e3o conhece as For\u00e7as Armadas e a determina\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, de esp\u00edrito democr\u00e1tico, que reina e preside em todos os quart\u00e9is\u201d, disse Villas B\u00f4as. Mas a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 mais complexa. Setores militares que defendem uma interven\u00e7\u00e3o militar no processo pol\u00edtico n\u00e3o est\u00e3o satisfeitos com o protagonismo j\u00e1 conquistado no Executivo e junto ao Congresso e ao Judici\u00e1rio. Querem voltar ao poder e, para isso, est\u00e3o engajados na candidatura do deputado Jair Bolsonaro (PSL-RJ).<\/p>\n<p>Duas das principais lideran\u00e7as militares do pa\u00eds est\u00e3o engajadas na campanha de Bolsonaro. O general Augusto Heleno, ex-comandante militar da Amaz\u00f4nia e das tropas de interven\u00e7\u00e3o no Haiti, \u00e9 cotado para vice do ex-capit\u00e3o; o general Ant\u00f4nio Mour\u00e3o, que passou \u00e0 reserva depois de trombar com Villas B\u00f4as, \u00e9 o respons\u00e1vel pela prepara\u00e7\u00e3o dos 115 militares das mais diversas patentes que v\u00e3o concorrer \u00e0s elei\u00e7\u00f5es. A campanha eleitoral mexe com os \u00e2nimos militares dentro e fora dos quart\u00e9is, porque a possibilidade de Bolsonaro se tornar presidente da Rep\u00fablica \u00e9 real, com um discurso que \u00e9 m\u00fasica para os setores mais conservadores.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse contexto que a sucess\u00e3o de Villas B\u00f4as, que estava fora de cogita\u00e7\u00e3o at\u00e9 o final do governo de Michel Temer, devido ao agravamento do seu estado de sa\u00fade, come\u00e7a a ser discutida em surdina na caserna. H\u00e1 uma ang\u00fastia generalizada no Alto Comando do Ex\u00e9rcito por causa de suas crescentes limita\u00e7\u00f5es f\u00edsicas, embora a mente continue brilhante. No dia 28 de junho passado, houve nova movimenta\u00e7\u00e3o no Alto Comando, na qual os generais de quatro estrelas Paulo Humberto C\u00e9sar, Artur Costa Moura e Jos\u00e9 Luiz Dias de Freitas assumiram, respectivamente, as chefias de Estado-maior do Ex\u00e9rcito (EME), do Departamento Geral de Pessoal (DPG) e o Comando das Opera\u00e7\u00f5es Terrestres(COTER), posi\u00e7\u00f5es-chave na cadeia de comando. O sucessor natural de Villas B\u00f4as seria o general Fernando Azevedo e Silva, chefe do EME, que passar\u00e1 \u00e0 reserva no pr\u00f3ximo m\u00eas de agosto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A sucess\u00e3o de Villas B\u00f4as, que estava fora de cogita\u00e7\u00e3o at\u00e9 o final do governo de Michel Temer, devido ao agravamento do seu estado de sa\u00fade, come\u00e7a a ser discutida na caserna Discretamente, os militares ampliam sua influ\u00eancia no governo Michel Temer e junto aos demais poderes. 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