{"id":28,"date":"2016-02-04T16:35:05","date_gmt":"2016-02-04T18:35:05","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=28"},"modified":"2016-02-05T16:31:54","modified_gmt":"2016-02-05T18:31:54","slug":"janelas-da-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/janelas-da-historia\/","title":{"rendered":"Janelas da hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p><em>Vem a\u00ed outro toma l\u00e1 d\u00e1 c\u00e1 no Congresso, que mira as elei\u00e7\u00f5es municipais. Nada a ver com uma sa\u00edda para o impasse nacional<\/em><\/p>\n<p>Numa roda de jornalistas, ontem, no cafezinho do Senado, Marco Aur\u00e9lio Costa, o ex-propriet\u00e1rio do Piantella \u2014 restaurante de Bras\u00edlia muito frequentado por pol\u00edticos, que nos melhores tempos serviu de quartel-general de Ulysses Guimar\u00e3es (PMDB-SP) \u2014, contava \u201ccausos\u201d de gastronomia e pol\u00edtica. Num deles, ao lamentar o impasse pol\u00edtico em que o pa\u00eds se encontra, relatou como o l\u00edder tucano Mario Covas selou o destino do parlamentarismo na Constituinte.<\/p>\n<div><\/div>\n<div>Foi durante um jantar na casa de Ulysses Guimar\u00e3es, que presidia a Constituinte. O l\u00edder da campanha das Diretas J\u00e1 prop\u00f4s um acordo com o presidente Jos\u00e9 Sarney, que reivindicava seis anos de mandato para apoiar a proposta. Embora fosse programaticamente a favor do parlamentarismo, Covas rejeitou o acordo. O resultado todos conhecem: Sarney teve o mandato reduzido para cinco anos e as elei\u00e7\u00f5es diretas para a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica foram convocadas para 1989.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Tanto Ulysses quanto Covas sonharam alcan\u00e7ar o Planalto, foram candidatos nas elei\u00e7\u00f5es e acabaram ultrapassados por outros personagens que emergiram na transi\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia como l\u00edderes pol\u00edticos nacionais: o ex-presidente Fernando Collor de Mello, que venceu as elei\u00e7\u00f5es, e o ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, que chegou ao segundo turno. Ao contr\u00e1rio dos dois caciques da oposi\u00e7\u00e3o, os demais personagens ainda est\u00e3o a\u00ed, viv\u00edssimos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O \u201ccauso\u201d de Marco Aur\u00e9lio ilustra bem o que podemos chamar de \u201cjanela da hist\u00f3ria\u201d, uma oportunidade de mudar o seu rumo, que pode ser aproveitada ou n\u00e3o. No caso em quest\u00e3o, as idiossincrasias dos pol\u00edticos tiveram mais peso do que seus projetos pol\u00edtico-program\u00e1ticos e, por essa raz\u00e3o, a melhor oportunidade de implantar o regime parlamentarista foi desperdi\u00e7ada.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Quando o assunto voltou \u00e0 pauta, em 1993, o plebiscito que havia sido estabelecido pela pr\u00f3pria Constituinte recha\u00e7ou o parlamentarismo e, tamb\u00e9m, a volta da monarquia, uma proposta diversionista. O impeachment de Collor de Mello j\u00e1 havia ocorrido e o \u201cpresidencialismo de coaliz\u00e3o\u201d que resultou da nova Constitui\u00e7\u00e3o seguia seu curso, com o governo Itamar Franco. Com a emenda da reelei\u00e7\u00e3o, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, o presidencialismo foi at\u00e9 revigorado. Mais uma vez a idiossincrasia falou mais alto do que o projeto program\u00e1tico.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Essa conversa de cafezinho sobre o parlamentarismo veio \u00e0 baila por causa do impasse em que se encontra o pa\u00eds, com a crise tr\u00edplice do governo Dilma Rousseff: econ\u00f4mica, pol\u00edtica e \u00e9tica. H\u00e1 uma situa\u00e7\u00e3o de \u201cempate t\u00e9cnico\u201d, digamos assim, entre o governo e a oposi\u00e7\u00e3o. Apesar da impopularidade da presidente da Rep\u00fablica e dos elevados \u00edndices de desaprova\u00e7\u00e3o de seu governo em todas as \u00e1reas, Dilma ainda tem tr\u00eas anos de mandato e uma caneta cheia de tinta para utilizar o enorme poder do Estado brasileiro contra os advers\u00e1rios. \u00c9 s\u00f3 por isso que se mant\u00e9m no cargo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong>Toma l\u00e1 d\u00e1 c\u00e1<\/strong><\/div>\n<div>A oposi\u00e7\u00e3o patina tamb\u00e9m porque n\u00e3o sabe exatamente o que pretende. Uma ala defende o impeachment de Dilma, outra sonha com a sua cassa\u00e7\u00e3o pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Cada vez mais enfraquecido, por causa da Lava-Jato, o PT acusa ambas as propostas de golpistas. Tenta ganhar tempo para sair da encalacrada em que entrou com o esc\u00e2ndalo da Petrobras. O PMDB, com um p\u00e9 no governo e outro na oposi\u00e7\u00e3o, ganha tempo e mant\u00e9m as apar\u00eancias de unidade em torno do vice-presidente Michel Temer, \u00e0s v\u00e9speras de sua conven\u00e7\u00e3o nacional.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Como em toda grande crise, ningu\u00e9m sabe o que vai acontecer e os sintomas m\u00f3rbidos aparecem. Um deles \u00e9 a met\u00e1stase do esc\u00e2ndalo da Petrobras, que tamb\u00e9m amea\u00e7a chamuscar figuras da oposi\u00e7\u00e3o. Outro \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u201cunidade dos contr\u00e1rios\u201d entre Dilma e o presidente da C\u00e2mara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). A presidente da Rep\u00fablica ganha tempo contra a proposta de impeachment devido \u00e0s manobras do peemedebista para evitar a pr\u00f3pria cassa\u00e7\u00e3o pelo Conselho de \u00c9tica da Casa. Cunha, por sua vez, aposta no impeachment para se manter no cargo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O prolongamento da crise pode abrir uma janela de oportunidade para uma emenda parlamentarista, que resulte num regime presidencialista h\u00edbrido, como o portugu\u00eas ou o franc\u00eas. Volta e meia surge essa ideia no Senado. Seria uma maneira de preservar o mandato de Dilma e algumas de suas atribui\u00e7\u00f5es de Estado; ao mesmo tempo, permitiria que o Congresso formasse um governo de salva\u00e7\u00e3o nacional para enfrentar a crise. A proposta, por\u00e9m, n\u00e3o prospera.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Do ponto de vista pr\u00e1tico, o presidente do Senado, Renan Calheiros, tamb\u00e9m enrolado na Lava-Jato, est\u00e1 mais preocupado com outra janela: aquela que abre um prazo de 30 dias para que os pol\u00edticos possam trocar de partido sem perder o mandato. Ontem, decidiu que vai promulg\u00e1-la ema 18 de fevereiro, ou seja, na semana seguinte ao carnaval. Vem a\u00ed outro toma l\u00e1 d\u00e1 c\u00e1 no Congresso, que mira as elei\u00e7\u00f5es municipais. Nada a ver com uma sa\u00edda para o impasse nacional.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vem a\u00ed outro toma l\u00e1 d\u00e1 c\u00e1 no Congresso, que mira as elei\u00e7\u00f5es municipais. 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