{"id":2817,"date":"2018-07-27T09:03:44","date_gmt":"2018-07-27T12:03:44","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=2817"},"modified":"2018-07-27T09:39:13","modified_gmt":"2018-07-27T12:39:13","slug":"nas-entrelinhas-frente-ampla","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-frente-ampla\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: A frente ampla"},"content":{"rendered":"<p><em>O instinto de sobreviv\u00eancia das elites pol\u00edticas leva ao caminho do meio, no caso o tucano Geraldo Alckmin, testado e aprovado pelo establishment como governador de S\u00e3o Paulo<\/em><\/p>\n<p>Durante o regime militar, nunca houve consenso entre as elites do pa\u00eds. Sempre houve uma resist\u00eancia pol\u00edtica organizada, institucional, nos espa\u00e7os legais, o que, no decorrer do processo, se demonstrou mais eficiente e produtiva \u2014 e capaz de conquistar ades\u00e3o popular \u2014, do que a agita\u00e7\u00e3o pura e simples ou a desastrada luta armada. Antes da consolida\u00e7\u00e3o do antigo MDB como frente eleitoral das oposi\u00e7\u00f5es, o que somente se deu ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es de 1974, essa elite dissidente foi representada pela chamada Frente Ampla, formada em 1966. Reunia a oposi\u00e7\u00e3o trabalhista liderada por Jo\u00e3o Goulart e dois pol\u00edticos que haviam apoiado o golpe, o ex-presidente Juscelino Kubitschek, do antigo PSD, e, para espanto de muitos, o ex-governador carioca Carlos Lacerda, l\u00edder inconteste da UDN, al\u00e9m do l\u00edder comunista Luiz Carlos Prestes (PCB), na clandestinidade.<\/p>\n<p>O programa da Frente Ampla era essencialmente democr\u00e1tico: retorno \u00e0s elei\u00e7\u00f5es diretas, anistia, pluripartidarismo e direito de greve. A alian\u00e7a de Lacerda com Jango, JK e Prestes foi uma decorr\u00eancia \u00f3bvia da suspens\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es diretas \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, que estavam marcadas para 1965, na qual o udenista seria candidato. A edi\u00e7\u00e3o do AI-1 anulou as esperan\u00e7as de Lacerda, que passou \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o, embora fosse um dos l\u00edderes civis do golpe. Com um manifesto no jornal Tribuna de Imprensa, do qual era fundador e diretor, o ex-governador exigia elei\u00e7\u00f5es diretas, desenvolvimento econ\u00f4mico, reforma partid\u00e1ria e uma pol\u00edtica externa soberana.<\/p>\n<p>Com com\u00edcios e mobiliza\u00e7\u00f5es, a Frente Ampla conquistou ades\u00e3o popular e promoveu grandes manifesta\u00e7\u00f5es no ABC Paulista, em Londrina e em Maring\u00e1, assustando o presidente Costa e Silva, o general que havia substitu\u00eddo o marechal Castelo Branco no Pal\u00e1cio do Planalto. Ainda mais ap\u00f3s a morte do estudante Edson Luiz, em 28 de mar\u00e7o daquele ano, que provocou grandes manifesta\u00e7\u00f5es estudantis e levou o alto clero cat\u00f3lico \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o. Em abril, a Frente Ampla foi cassada; na sequ\u00eancia, motivado tamb\u00e9m pelas a\u00e7\u00f5es armadas da esquerda radical, que optou pelas guerrilhas urbana e rural, Costa e Silva editou o AI-5, em 13 de dezembro daquele ano. Lacerda teve os direitos pol\u00edticos cassados e acabou preso, por\u00e9m, ap\u00f3s uma semana de greve de fome, foi libertado.<\/p>\n<p>Os l\u00edderes da Frente Ampla mantiveram certa influ\u00eancia pol\u00edtica, mas foram impedidos de participar de elei\u00e7\u00f5es. Morreram antes da anistia: Juscelino em 22 de agosto de 1976, em um acidente de carro na Via Dutra; Jo\u00e3o Goulart, no ex\u00edlio, em 6 de dezembro de 1976, em Mercedes, na Argentina, de um ataque card\u00edaco; Lacerda, em 21 de maio de 1977, ap\u00f3s ter sido internado por desidrata\u00e7\u00e3o, devido a uma infec\u00e7\u00e3o no cora\u00e7\u00e3o. Suspeitas de que essas mortes t\u00e3o pr\u00f3ximas umas das outras estejam relacionadas \u00e0 Opera\u00e7\u00e3o Condor, montada em 1975 entre militares do Chile, Argentina, Brasil e Paraguai para combater seus opositores, nunca foram comprovadas.<\/p>\n<p><strong>Alckmin<\/strong><\/p>\n<p>Ontem, l\u00edderes do \u201cCentr\u00e3o\u201d anunciaram o apoio \u00e0 pr\u00e9-candidatura do ex-governador de S\u00e3o Paulo Geraldo Alckmin (PSDB) \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, reeditando uma frente ampla que re\u00fane o establishment pol\u00edtico do pa\u00eds. O grupo \u00e9 formado por DEM, PP, PR, PRB e Solidariedade, que agora se juntam ao PSDB, ao PSD, ao PTB e ao PPS. O deputado federal Paulo Pereira da Silva (SD-SP) resumiu o significado do apoio: \u201cEstamos convencidos de que para tirar o Brasil desse buraco que estamos s\u00f3 com um conjunto de for\u00e7as como esse, que se junta em torno dessa candidatura\u201d. O presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), afirmou que o tucano poder\u00e1 contar com a \u201cmilit\u00e2ncia aguerrida\u201d do partido. Ambos eram aliados de Lula, derivaram para a oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 Dilma Rousseff, namoraram a candidatura de Ciro Gomes e acabaram junto ao tucano paulista. Formou-se uma frente que ter\u00e1 quase 50% dos meios de campanha destinado a todos os partidos, principalmente o tempo de televis\u00e3o: 14 minutos e 47 segundos a mais de tempo de TV, contando os programas eleitorais di\u00e1rios e as inser\u00e7\u00f5es na programa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio da Frente Ampla da d\u00e9cada de 1960, essas for\u00e7as n\u00e3o est\u00e3o na oposi\u00e7\u00e3o, apenas mant\u00eam dist\u00e2ncia regulamentar do MDB, que deve confirmar a candidatura do ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles. Nos bastidores, houve um empurr\u00e3ozinho do presidente do Michel Temer para que a alian\u00e7a n\u00e3o sofresse obstru\u00e7\u00e3o do governo. O que motiva essas for\u00e7as? \u00c9 a aposta nas estruturas partid\u00e1rias existentes e seus mecanismos de reprodu\u00e7\u00e3o de poder. O instinto de sobreviv\u00eancia das elites pol\u00edticas leva ao caminho do meio, no caso o tucano Geraldo Alckmin, testado e aprovado pelo establishment como governador de S\u00e3o Paulo por quatro mandatos.<\/p>\n<p>No fundo, a rea\u00e7\u00e3o dos pol\u00edticos do \u201cCentr\u00e3o\u201d \u00e0s candidaturas de Jair Bolsonaro (PSL) e de Ciro Gomes (PDT) tem o seu DNA na crise de 1964 e na rea\u00e7\u00e3o dos pol\u00edticos daquela \u00e9poca ao que aconteceu, principalmente os que apoiaram o golpe militar e se arrependeram. Representa tamb\u00e9m o convencimento de que o projeto do ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, que mant\u00e9m uma candidatura ineleg\u00edvel a qualquer pre\u00e7o, n\u00e3o tem a menor viabilidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O instinto de sobreviv\u00eancia das elites pol\u00edticas leva ao caminho do meio, no caso o tucano Geraldo Alckmin, testado e aprovado pelo establishment como governador de S\u00e3o Paulo Durante o regime militar, nunca houve consenso entre as elites do pa\u00eds. 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