{"id":2821,"date":"2018-07-29T08:54:20","date_gmt":"2018-07-29T11:54:20","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=2821"},"modified":"2018-07-29T08:54:20","modified_gmt":"2018-07-29T11:54:20","slug":"nas-entrelinhas-da-arte-de-ensacar-demonios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-da-arte-de-ensacar-demonios\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Da arte de ensacar dem\u00f4nios"},"content":{"rendered":"<p><em>\u201cEles est\u00e3o soltos, e n\u00e3o ser\u00e1 uma tarefa f\u00e1cil lidar com isto: os fantasmas do velho positivismo autorit\u00e1rio rondam o Pal\u00e1cio do Planalto, \u00e0 direita e \u00e0 esquerda\u201d<\/em><\/p>\n<p>\u201cSoltar o dem\u00f4nio da revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Dif\u00edcil \u00e9 recolh\u00ea-lo. \u00c9 o que fazemos agora, cumprindo nosso dever c\u00edvico\u201d, a frase do presidente Prudente de Moraes (1841-1902) ao amigo Bernardino de Campos, seu ministro da Fazenda, logo ap\u00f3s tomar posse, sintetiza a situa\u00e7\u00e3o em que encontrou o pa\u00eds em novembro de 1894. O governo autorit\u00e1rio de Floriano Peixoto por muito pouco n\u00e3o se transformou na ditadura positivista sonhada por J\u00falio de Castilhos e Benjamin Constant, que viria a se materializar mais tarde, com Get\u00falio Vargas (de 1930 a 1945) e o regime militar (1964-1985). Floriano n\u00e3o passou o cargo ao sucessor, gesto que mais tarde seria repetido pelo presidente Jo\u00e3o Batista Figueiredo, ao ser sucedido por Jos\u00e9 Sarney (MDB).<\/p>\n<p>Natural de Piracicaba (SP), Prudente foi o primeiro pol\u00edtico republicano de verdade a governar o pa\u00eds, em meio \u00e0 grave crise econ\u00f4mica e a muitas turbul\u00eancias pol\u00edticas. Jorge Caldeira, em Hist\u00f3ria da Riqueza no Brasil, cinco s\u00e9culos de pessoas, costumes e governos (Esta\u00e7\u00e3o Brasil), nos reposiciona em rela\u00e7\u00e3o aos epis\u00f3dios da \u00e9poca, entre os quais o desastre que foi o \u201cflorianismo\u201d e a influ\u00eancia nefasta do positivismo para a economia e a pol\u00edtica, sobretudo em raz\u00e3o da tutela dos militares sobre o Estado e deste em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade. Prudente governou o pa\u00eds sem recorrer ao estado de s\u00edtio nem censurar a imprensa; apostou na transpar\u00eancia de atos de governo, no bom senso da opini\u00e3o p\u00fablica, no federalismo e na tradi\u00e7\u00e3o da nossa pol\u00edtica local, que, desde os tempos coloniais, governava as cidades.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi um governo f\u00e1cil, porque dele teve que se afastar devido a uma cirurgia na bexiga, muito complexa \u00e0quela \u00e9poca. Seu substituto, o vice-presidente Manoel Vitorino, deixou-se influenciar pelos positivistas ao mandar o Ex\u00e9rcito intervir em Canudos, a pretexto de combater os monarquistas, o que se revelou uma grande trag\u00e9dia. Coube ao florianista Moreira Cesar, carniceiro da revolu\u00e7\u00e3o federalista em Santa Catarina, na qual mandou fuzilar 185 pessoas, no quil\u00f4metro 65 da ferrovia Curitiba-Paranagu\u00e1 e nas fortalezas de Anhantomirim e Ara\u00e7atuba, protagonizar o vexame principal. Euclides da Cunha, n\u2019Os Sert\u00f5es, descreve em detalhes o fim tr\u00e1gico do militar, que acabou esquartejado pelos jagun\u00e7os no sert\u00e3o da Bahia, depois de derrotado \u00e0 frente de um ex\u00e9rcito de 1500 homens bem armados.<\/p>\n<p>No dia da morte do coronel \u201cTreme-terra\u201d, 4 de mar\u00e7o de 1897, Prudente reassumiu o poder, em meio a protestos populares e ataques de jornalistas de grande prest\u00edgio, como Nilo Pe\u00e7anha, Alcindo Guanabara, Paula Nei e Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio. N\u00e3o teve alternativa a n\u00e3o ser despachar o novo ministro do Ex\u00e9rcito, general Carlos Machado Bittencourt, para liquidar com o arraial de Ant\u00f4nio Conselheiro, epis\u00f3dio que traumatizou a na\u00e7\u00e3o. Bittencourt morreu num atentado, no qual foi alvejado ao salvar a vida do presidente da Rep\u00fablica. Nem assim Prudente recorreu ao estado de s\u00edtio. Com seu prest\u00edgio, conseguiu derrotar o caudilho J\u00falio de Castilhos e eleger Campos Salles como sucessor. Ao deixar o poder, os dem\u00f4nios estavam todos ensacados.<\/p>\n<p><strong>Fantasmas<\/strong><\/p>\n<p>Aos trancos e barrancos desde o impeachment de Dilma Rousseff, o pa\u00eds chega \u00e0s elei\u00e7\u00f5es presidenciais num quadro de grande imprevisibilidade. O futuro presidente da Rep\u00fablica ter\u00e1 uma tarefa muito parecida com a de Prudente de Moraes: enfrentar a crise fiscal e retomar o crescimento econ\u00f4mico, num ambiente em que a recess\u00e3o aprofundou as iniquidades sociais do pa\u00eds. Sua principal tarefa pol\u00edtica, por\u00e9m, ser\u00e1 ensacar os dem\u00f4nios novamente. Eles est\u00e3o soltos e n\u00e3o ser\u00e1 uma tarefa f\u00e1cil lidar com isto: os fantasmas do velho positivismo autorit\u00e1rio rondam o Pal\u00e1cio do Planalto, \u00e0 direita e \u00e0 esquerda.<\/p>\n<p>\u00c9 do jogo democr\u00e1tico a narrativa autorit\u00e1ria nas disputas eleitorais, que precisam ser tratadas como tal. O que n\u00e3o \u00e9 do jogo \u00e9 a desestabiliza\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e a afronta \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o. \u00c9 a\u00ed que a disjuntiva Lula-Bolsonaro entra em cena e protagoniza a radicaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Na velha dial\u00e9tica, representa a \u201cunidade dos contr\u00e1rios\u201d. O ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, condenado a 12 anos e um m\u00eas de pris\u00e3o por receber vantagens indevidas no exerc\u00edcio do cargo, por causa da Lei da Ficha Limpa (aprovada com os votos do PT, diga-se de passagem), est\u00e1 ineleg\u00edvel. N\u00e3o se trata de jurisprud\u00eancia do Supremo, como \u00e9 o caso da execu\u00e7\u00e3o de sua pena ap\u00f3s condena\u00e7\u00e3o em segunda inst\u00e2ncia. A lei somente poderia ser revogada pelo Congresso.<\/p>\n<p>Ocorre que o ex-presidente Lula n\u00e3o aceita as decis\u00f5es judiciais, se diz v\u00edtima de persegui\u00e7\u00e3o da Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato e lidera uma campanha pol\u00edtica cujo objetivo n\u00e3o \u00e9 apenas a sua liberdade, mas a manuten\u00e7\u00e3o da candidatura a presidente da Rep\u00fablica na marra, aproveitando-se do calend\u00e1rio eleitoral e dos ritos processuais. Seu objetivo \u00e9 concorrer \u00e0s elei\u00e7\u00f5es sub j\u00fadice, para emparedar o Judici\u00e1rio e revogar sua pris\u00e3o pelo \u201cvoto popular\u201d. Quem ganha com isso? Em primeiro lugar, a recidiva do florianismo, representado pelo deputado Jair Bolsonaro (PSL), o ex-capit\u00e3o do Ex\u00e9rcito que empolga setores conservadores da sociedade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEles est\u00e3o soltos, e n\u00e3o ser\u00e1 uma tarefa f\u00e1cil lidar com isto: os fantasmas do velho positivismo autorit\u00e1rio rondam o Pal\u00e1cio do Planalto, \u00e0 direita e \u00e0 esquerda\u201d \u201cSoltar o dem\u00f4nio da revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. 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