{"id":2826,"date":"2018-07-31T07:56:54","date_gmt":"2018-07-31T10:56:54","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=2826"},"modified":"2018-07-31T07:56:54","modified_gmt":"2018-07-31T10:56:54","slug":"nas-entrelinhas-medo-do-imprevisto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-medo-do-imprevisto\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Medo do imprevisto"},"content":{"rendered":"<p><em>&#8220;N\u00e3o h\u00e1 alternativa para as for\u00e7as pol\u00edticas mais respons\u00e1veis que n\u00e3o seja a defesa da democracia, ganhando ou perdendo as elei\u00e7\u00f5es&#8221;<\/em><\/p>\n<p>\u201cSe algum sabich\u00e3o lhes disser o que vai acontecer, estar\u00e1 mentindo. Essa elei\u00e7\u00e3o \u00e9 imprevis\u00edvel!\u201d, disse o velho Ant\u00f4nio Ribeiro Granja, antes de apagar as velas do bolo de anivers\u00e1rio de 105 anos, domingo. Rodeado de parentes, amigos e companheiros que lhe deram apoio na clandestinidade, voltou ao velho ref\u00fagio do Fara\u00f3 de Baixo, localidade de Cachoeiras de Macacu (RJ) cercada de fontes de \u00e1gua mineral, no p\u00e9 da Serra do Mar.<\/p>\n<p>Integrante do Comit\u00ea Central do PCB, Granja escapou de um sequestro em Itabora\u00ed, em 1975, por muito pouco. \u00c0 \u00e9poca, 18 integrantes do PCB, dos quais 12 do Comit\u00ea Central, foram assassinados. Avisado pelo filho, o engenheiro mec\u00e2nico Jos\u00e9 Roberto Portugal, ent\u00e3o um menino, saiu pelos fundos do s\u00edtio quando a equipe de agentes do DOI-CODI estava chegando. \u201cUm deles passou a 20 metros de mim, com a metralhadora nas m\u00e3os; eu estava escondido no meio do mato, s\u00f3 com a cal\u00e7a do pijama e descal\u00e7o.\u201d<\/p>\n<p>Gra\u00e7as \u00e0quela regi\u00e3o montanhosa e aos antigos h\u00e1bitos de ex-trabalhador rural, \u201cSeu Chico\u201d, como era chamado na regi\u00e3o, driblou seus perseguidores se passando por boia-fria na fazenda Funchal. Depois, foi morar num s\u00edtio em Casemiro de Abreu. Foi um dos poucos dirigentes a permanecer no pa\u00eds durante todo o regime militar. De sand\u00e1lia havaiana e chap\u00e9u de palha, com as m\u00e3os calejadas pelo cabo da enxada, circulava pelo interior do antigo Estado do Rio como um peixe na \u00e1gua. Foi assim que reorganizou o antigo Partid\u00e3o no interior fluminense e garantiu a elei\u00e7\u00e3o dos deputados comunistas Marcelo Cerqueira (federal) e Alves de Brito (estadual), pelo antigo MDB, nas elei\u00e7\u00f5es de 1978.<\/p>\n<p>Seu grande m\u00e9rito foi se distanciar do interesse imediato, no caso, a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia, para compreender o processo pol\u00edtico. Granja percebeu, mesmo ap\u00f3s as pris\u00f5es do professor e economista A\u00edrton Albuquerque, chefe do Departamento de Economia da Universidade Federal Fluminense, e dos jornalistas Maur\u00edcio Azedo e Luiz Paulo Santana Machado, logo ap\u00f3s o carnaval de 1976, que a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica estava mudando. Saiu da toca e foi \u00e0 luta pela liberdade e pela democracia. Seu objetivo imediato era a anistia, a grande miss\u00e3o que confiou a Marcelo Cerqueira como parlamentar.<\/p>\n<p>O Pacote de Abril, baixado pelo presidente Ernesto Geisel com o prop\u00f3sito de conter o avan\u00e7o das oposi\u00e7\u00f5es nas elei\u00e7\u00f5es municipais de 1976, na sua avalia\u00e7\u00e3o, fora uma demonstra\u00e7\u00e3o de fraqueza. Os fatos confirmaram as previs\u00f5es do velho dirigente do PCB, que aos 105 anos continua com uma mem\u00f3ria invej\u00e1vel, capaz ainda de recitar suas poesias, contar causos da longa milit\u00e2ncia pol\u00edtica e, com fina ironia e grande senso de humor, falar sobre a conjuntura sem dizer as besteiras que circulam com fartura pelas redes sociais.<\/p>\n<p>Granja nunca teve medo do novo. Todas as vezes em que foi necess\u00e1rio, jogou dogmas e concep\u00e7\u00f5es ultrapassadas na lata do lixo da hist\u00f3ria. Fez autocr\u00edtica da Intentona de 1935, apoiou o relat\u00f3rio Kruschov, renegou as teses que defendiam a luta armada para lutar contra ditadura e chegar ao poder. Sabia que o PCB flertara com o golpismo em 1964, pois foi testemunha da conversa de Luiz Carlos Prestes com o presidente Jo\u00e3o Goulart, com Raul Riff, em fevereiro de 1964, quando o l\u00edder comunista sugeriu ao presidente deposto que apelasse \u00e0s massas para fazer as reformas, que anunciou no Com\u00edcio de 13 de mar\u00e7o, sem respaldo do Congresso, em vez de recuar. Granja apoiou a mudan\u00e7a de sigla do PCB para PPS, do qual \u00e9 o presidente de honra, e guardou no ba\u00fa de recorda\u00e7\u00f5es amorosas a velha bandeira vermelha com a foice e o martelo que empunhava desde 1934.<\/p>\n<p><strong>O futuro<\/strong><\/p>\n<p>O que fazer diante do imponder\u00e1vel anunciado por Granja? Em primeiro lugar, considerar as conting\u00eancias nas quais ocorrem as elei\u00e7\u00f5es deste ano. Uma economia que, bem ou mal, voltou a crescer, mas tem baixo desempenho porque o governo gasta mais do que arrecada. O pior j\u00e1 passou, foi a recess\u00e3o do governo Dilma Rousseff. Sua \u201cnova matriz econ\u00f4mica\u201d amea\u00e7ava transformar o pa\u00eds numa nova Venezuela. Nossas institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas sobreviveram \u00e0 crise tr\u00edplice (econ\u00f4mica, pol\u00edtica e \u00e9tica) que nos levou ao impeachment.<\/p>\n<p>O governo de transi\u00e7\u00e3o est\u00e1 enfraquecido pelas den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o, mas mant\u00e9m respaldo no Congresso para levar o pa\u00eds \u00e0s elei\u00e7\u00f5es. O presidente Michel Temer \u00e9 fleum\u00e1tico e equilibrado, apesar da impopularidade e das den\u00fancias da Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato. Finalmente, as For\u00e7as Armadas se mant\u00eam nos limites estabelecidos pela Constitui\u00e7\u00e3o, mesmo com a tropa torcendo pela elei\u00e7\u00e3o de um ex-militar \u00e0 Presid\u00eancia.<\/p>\n<p>O imprevis\u00edvel faz parte da democracia. Duro seria se tiv\u00e9ssemos elei\u00e7\u00f5es de cartas marcadas ou se as mesmas fossem suspensas. Sim, a radicaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica protagonizada pelo ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva em contraponto com a narrativa autorit\u00e1ria do deputado Jair Bolsonaro cria um quadro de instabilidade institucional, mas as regras do jogo eleitoral podem resolver essa quest\u00e3o. Quem quer que venha a ganhar, ter\u00e1 que lidar com o Congresso e o Judici\u00e1rio, a imprensa e a opini\u00e3o p\u00fablica. E n\u00e3o h\u00e1 alternativa para as for\u00e7as pol\u00edticas mais respons\u00e1veis que n\u00e3o seja a defesa da democracia, ganhando ou perdendo as elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;N\u00e3o h\u00e1 alternativa para as for\u00e7as pol\u00edticas mais respons\u00e1veis que n\u00e3o seja a defesa da democracia, ganhando ou perdendo as elei\u00e7\u00f5es&#8221; \u201cSe algum sabich\u00e3o lhes disser o que vai acontecer, estar\u00e1 mentindo. Essa elei\u00e7\u00e3o \u00e9 imprevis\u00edvel!\u201d, disse o velho Ant\u00f4nio Ribeiro Granja, antes de apagar as velas do bolo de anivers\u00e1rio de 105 anos, domingo. 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