{"id":2855,"date":"2018-08-08T08:21:50","date_gmt":"2018-08-08T11:21:50","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=2855"},"modified":"2018-08-08T08:22:31","modified_gmt":"2018-08-08T11:22:31","slug":"nas-entrelinhas-militares-na-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-militares-na-politica\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Militares na pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"<p><em>Com a candidatura de Bolsonaro, al\u00e9m do general Mour\u00e3o, mais de uma centena de militares disputam as elei\u00e7\u00f5es, em todos os n\u00edveis. S\u00e3o raros os que n\u00e3o apoiam o ex-capit\u00e3o do Ex\u00e9rcito<\/em><\/p>\n<p>A \u00faltima vez que um militar disputou a presid\u00eancia da Rep\u00fablica em elei\u00e7\u00f5es diretas foi em 1960. No final do governo, em meio \u00e0 crise econ\u00f4mica e a amplia\u00e7\u00e3o das demandas sociais, Juscelino Kubitschek tentou costurar uma alian\u00e7a entre o bloco PSD-PTB e a UDN. A proposta, por\u00e9m, foi recha\u00e7ada por Carlos Lacerda, que decidiu apoiar J\u00e2nio Quadros, que havia se notabilizado como bom administrador em S\u00e3o Paulo e n\u00e3o tinha compromisso com partidos. Filiado ao Partido Trabalhista Nacional (PTN), o pol\u00edtico populista contava com o apoio de tr\u00eas pequenas agremia\u00e7\u00f5es \u2014 o Partido Libertador (PL), o Partido Democrata Crist\u00e3o (PDC) e o Partido Republicano (PR) \u2014 e se colocava acima delas. A mesma postura adotou em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 UDN.<\/p>\n<p>Diante do impasse, sem um nome que unificasse a elite pol\u00edtica, PSD e o PTB resolveram lan\u00e7ar o marechal Henrique Teixeira Lott, um l\u00edder militar de muito prest\u00edgio entre os pol\u00edticos por posi\u00e7\u00f5es legalistas. Era ministro da Guerra desde de 1954, escolhido pelo vice-presidente Jo\u00e3o Caf\u00e9 Filho, logo ap\u00f3s tomar posse na Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, no mesmo dia do suic\u00eddio de Get\u00falio Vargas: 24 de agosto. Conhecido por sua intoler\u00e2ncia a qualquer indisciplina militar, foi mantido no cargo por Juscelino, que em fevereiro de 1956, logo ap\u00f3s tomar posse, teve que enfrentar uma rebeli\u00e3o militar, conhecida como Revolta de Jacareacanga, no Par\u00e1. Lott agiu com vigor, mas Juscelino, depois, concedeu uma anistia aos insubordinados para pacificar a caserna.<\/p>\n<p>J\u00e2nio venceu as elei\u00e7\u00f5es presidenciais de outubro de 1960 com 48% dos votos do eleitorado, contra 32% dados a Lott e 20% a Ademar de Barros. Tomou posse com Jo\u00e3o Goulart, que foi eleito gra\u00e7as \u00e0 manobra dos sindicalistas de S\u00e3o Paulo, que lan\u00e7aram a chapa Jan-Jan, uma dobradinha pirata entre o candidato da UDN e o vice do PTB, rifando o cabe\u00e7a de chapa do PSD (naquela \u00e9poca, votava-se separadamente no vice). Lott foi um desastre como candidato, embora sua campanha tenha se notabilizado pelo marketing pol\u00edtico profissional. Anos Dourados, seu jingle de campanha, ainda hoje \u00e9 considerado um dos melhores de todos os tempos. A espada como s\u00edmbolo, por\u00e9m, n\u00e3o foi boa ideia; em contraponto, J\u00e2nio escolheu uma vassoura, que fez enorme sucesso gra\u00e7as ao jingle Varre, varre, vassourinha, no qual prometia uma faxina no governo. Na reta final da campanha, perguntava aos correligion\u00e1rios para onde iria o marechal, em tom de piada, e dizia que mandaria cancelar os com\u00edcios nas cidades por onde o militar passasse\u201d.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio de Lott, cujo vice era um pol\u00edtico profissional, o deputado Jair Bolsonaro (PSL) escolheu um general de quatro estrelas para companheiro de chapa: o ga\u00facho Ant\u00f4nio Hamilton Martins Mour\u00e3o. Sua estreia na campanha foi desastrosa. Em Caxias do Sul, ao falar sobre o desenvolvimento do pa\u00eds, disse bobagem: \u201cE o nosso Brasil? J\u00e1 citei nosso porte estrat\u00e9gico. Mas tem uma dificuldade para transformar isso em poder. Ainda existe o famoso \u2018complexo de vira-lata\u2019 aqui no nosso pa\u00eds, infelizmente (\u2026) Essa heran\u00e7a do privil\u00e9gio \u00e9 uma heran\u00e7a ib\u00e9rica. Temos uma certa heran\u00e7a da indol\u00eancia, que vem da cultura ind\u00edgena. Eu sou ind\u00edgena. Meu pai \u00e9 amazonense. E a malandragem. Nada contra, mas a malandragem \u00e9 oriunda do africano. Ent\u00e3o, esse \u00e9 o nosso \u2018cadinho\u2019 cultural.\u201d<\/p>\n<p><strong>Estrela<\/strong><\/p>\n<p>A \u201cli\u00e7\u00e3o de antropologia\u201d n\u00e3o tem nada a ver com o mito fundador do pr\u00f3prio Ex\u00e9rcito, que cultua a mem\u00f3ria dos her\u00f3is da Batalha de Guararapes, na expuls\u00e3o dos invasores holandeses: o \u00edndio potiguar Filipe Camar\u00e3o, o negro Henrique Dias e o mazombo Andr\u00e9 Vidal de Negreiros. Mour\u00e3o tentou se justificar para a imprensa: \u201cQuiseram colocar que o Bolsonaro \u00e9 racista, agora querem colocar em mim. N\u00e3o sou racista, muito pelo contr\u00e1rio. Tenho orgulho da nossa ra\u00e7a brasileira\u201d, disse. Mour\u00e3o se notabilizou quando era Comandante Militar do Sul, ao prestar homenagem ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ultra, conhecido torturador, que chamou de her\u00f3i em solenidade militar oficial. Ap\u00f3s o epis\u00f3dio, foi transferido para um cargo burocr\u00e1tico, embora importante: a Secretaria de Economia e Finan\u00e7as do Ex\u00e9rcito. Numa palestra na Ma\u00e7onaria, em Bras\u00edlia, ap\u00f3s criticar o governo Temer, por\u00e9m, voltou a falar demais e defendeu uma interven\u00e7\u00e3o militar. Perdeu a fun\u00e7\u00e3o e ficou na geladeira at\u00e9 passar \u00e0 reserva.<\/p>\n<p>Com a candidatura de Bolsonaro, al\u00e9m de Mour\u00e3o, mais de uma centena de militares disputam as elei\u00e7\u00f5es, em todos os n\u00edveis. S\u00e3o raros os que n\u00e3o apoiam o ex-capit\u00e3o do Ex\u00e9rcito. Muito da resili\u00eancia e capilaridade da sua campanha se deve ao apoio maci\u00e7o de militares da ativa e da reserva \u00e0 sua candidatura. No alto-comando, quatro generais s\u00e3o seus companheiros de turma. Inicialmente, a indica\u00e7\u00e3o de Mour\u00e3o foi vista como uma esp\u00e9cie de blindagem, para barrar um eventual processo de impeachment pelo Congresso, caso Bolsonaro seja eleito. Nesse caso, seria substitu\u00eddo por um militar de alta patente. Entretanto, Mour\u00e3o j\u00e1 se tornou uma estrela da campanha e ofuscou o pr\u00f3prio Bolsonaro no notici\u00e1rio pol\u00edtico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com a candidatura de Bolsonaro, al\u00e9m do general Mour\u00e3o, mais de uma centena de militares disputam as elei\u00e7\u00f5es, em todos os n\u00edveis. S\u00e3o raros os que n\u00e3o apoiam o ex-capit\u00e3o do Ex\u00e9rcito A \u00faltima vez que um militar disputou a presid\u00eancia da Rep\u00fablica em elei\u00e7\u00f5es diretas foi em 1960. 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