{"id":2902,"date":"2018-08-23T06:55:34","date_gmt":"2018-08-23T09:55:34","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=2902"},"modified":"2018-08-23T11:37:28","modified_gmt":"2018-08-23T14:37:28","slug":"nas-entrelinhas-o-ciclo-de-maluf","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-ciclo-de-maluf\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O ciclo de Maluf"},"content":{"rendered":"<p><em>&#8220;A trajet\u00f3ria de Maluf foi marcada por esc\u00e2ndalos e den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o, mas o pol\u00edtico paulista sempre conseguia se safar na Justi\u00e7a. Era s\u00edmbolo da impunidade e da compra de votos e de aliados&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Depois de muito protelar, ontem, a Mesa da C\u00e2mara cassou o mandato do deputado Paulo Maluf (PP-SP), por unanimidade. Ele havia perdido os direitos pol\u00edticos em raz\u00e3o de condena\u00e7\u00e3o pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), por lavagem de dinheiro, em maio de 2017. Em mar\u00e7o deste ano, por raz\u00f5es humanit\u00e1rias, o ministro Dias Toffoli autorizou que Maluf cumprisse pris\u00e3o domiciliar. Estava preso desde dezembro do ano passado no Complexo Penitenci\u00e1rio da Papuda, em Bras\u00edlia. Em fevereiro, fora afastado do cargo pelo presidente da C\u00e2mara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).<\/p>\n<p>Aos 86 anos, Maluf encerra um ciclo pol\u00edtico iniciado na abertura do regime militar, quando se elegeu governador de S\u00e3o Paulo em elei\u00e7\u00e3o indireta, contra a vontade do presidente Ernesto Geisel, que apostava na elei\u00e7\u00e3o de Laudo Natel, de quem Maluf havia sido secret\u00e1rio de Transportes no come\u00e7o dos anos 1970. Geisel subestimou a capacidade de articula\u00e7\u00e3o do ent\u00e3o presidente da Associa\u00e7\u00e3o Comercial de S\u00e3o Paulo, que visitou um a um os 1.261 delegados \u00e0 conven\u00e7\u00e3o da Arena e, por isso, foi escolhido o candidato governista, por 617 votos, contra os 589 obtidos por Natel.<\/p>\n<p>Ligado ao ex-ministro do Ex\u00e9rcito S\u00edlvio Frota, Maluf foi uma inven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do ex-ministro da Fazenda Delfim Neto, que se encantou com sua gest\u00e3o \u00e0 frente da Caixa Econ\u00f4mica Federal, na qual ampliou a oferta de servi\u00e7os e criou o financiamento da casa pr\u00f3pria. Por influ\u00eancia do ent\u00e3o ministro da Fazenda, Costa Silva nomeou Maluf para a prefeitura de S\u00e3o Paulo, a contragosto do ent\u00e3o governador, Abreu Sodr\u00e9. Foi na prefeitura que construiu a imagem de tocador de grandes obras, a maioria vi\u00e1rias, como o pol\u00eamico Minhoc\u00e3o, trechos importantes das Marginais Tiet\u00ea e Pinheiros e v\u00e1rios viadutos e avenidas.<\/p>\n<p>Repetiu a estrat\u00e9gia no governo de S\u00e3o Paulo, onde executou grandes obras, abriu estradas e pavimentou o caminho para disputar a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. Em 1982, renunciou ao mandato e concorreu \u00e0 C\u00e2mara, sendo eleito por 672.927 eleitores, o mais votado do pa\u00eds. No Congresso, Maluf iniciou a estrat\u00e9gia para se tornar o candidato a presidente da Rep\u00fablica do PDS (antiga Arena), na sucess\u00e3o do general Jo\u00e3o Figueiredo. Com os mesmos m\u00e9todos de abordagem individual de delegados que usara em S\u00e3o Paulo, conseguiu derrotar, na conven\u00e7\u00e3o do partido, o candidato do Pal\u00e1cio do Planalto, o ex-ministro dos Transportes Mario Andreazza, que havia se notabilizado em raz\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o da Ponte Rio-Niter\u00f3i e da Rodovia Transamaz\u00f4nica.<\/p>\n<p>A emenda das elei\u00e7\u00f5es diretas havia sido derrotada no Congresso, apesar do grande apoio popular, e a escolha do futuro presidente se deu de forma indireta, no col\u00e9gio eleitoral, no qual o PDS tinha maioria de votos. Ocorre que o candidato do PMDB era Tancredo Neves, o governador de Minas, uma velha raposa do antigo PSD, que recebeu o apoio velado de outro veterano pessedista, Amaral Peixoto, ent\u00e3o presidente do PDS; do vice-presidente Aureliano Chaves, que havia sido preterido por Figueiredo; e dos caciques regionais Ant\u00f4nio Carlos Magalh\u00e3es, Marco Maciel e Jos\u00e9 Agripino, que fundaram o antigo PFL. Jos\u00e9 Sarney saiu do PDS e se filiou ao PMDB para ser vice na chapa de Tancredo; acabou assumindo a Presid\u00eancia com a morte de Tancredo.<\/p>\n<p><strong>Persist\u00eancia<\/strong><br \/>\nA derrota n\u00e3o afastou Maluf da pol\u00edtica. Disputou e perdeu a prefeitura de S\u00e3o Paulo para Luiza Erundina, ent\u00e3o no PT, em 1988. No ano seguinte, se lan\u00e7ou candidato a presidente da Rep\u00fablica pelo PDS, ficando em quinto lugar, mas apoiou Collor de Mello no segundo turno. Em 1990, bateu na trave na disputa pelo Pal\u00e1cio dos Bandeirantes, pois venceu o primeiro turno e perdeu no segundo para Luiz Ant\u00f4nio Fleury (PMDB). De tanto insistir, em 1992, se elegeu prefeito de S\u00e3o Paulo, derrotando o petista Eduardo Suplicy. E, depois, conseguiu eleger seu ex-secret\u00e1rio de Fazenda Celso Pitta como sucessor, mas deu errado. Foi o pior prefeito que S\u00e3o Paulo j\u00e1 teve.<\/p>\n<p>Mesmo assim, Maluf n\u00e3o desistiu. No ano 2000, com rejei\u00e7\u00e3o de 66% dos paulistanos, foi derrotado por Marta Suplicy (PT), a quem chamou de desqualificada e levou um sab\u00e3o. \u201cCala a boca, Maluf!\u201d \u2014 a resposta de Marta \u2014 virou um bord\u00e3o de campanha e ela ganhou a elei\u00e7\u00e3o com 58,51% dos votos. Maluf voltou a concorrer \u00e0 prefeitura em 2004, desta vez perdendo para Jos\u00e9 Serra. Teve 12%. Na elei\u00e7\u00e3o seguinte, tamb\u00e9m para a Prefeitura em 2008, sua vota\u00e7\u00e3o caiu para 5,1%. Mesmo com capital pol\u00edtico reduzido, Maluf continuou no jogo. Seu \u201cgran finale\u201d foi na campanha de 2012: retirou sua candidatura e decidiu apoiar o petista Fernando Haddad (PT), num acordo com o ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva e a ent\u00e3o presidente Dilma Rousseff.<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria de Maluf foi marcada por esc\u00e2ndalos e den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o, mas o pol\u00edtico paulista sempre conseguia se safar na Justi\u00e7a. Era um s\u00edmbolo da impunidade e da utiliza\u00e7\u00e3o de recursos p\u00fablicos na compra de votos e de aliados, para a qual estabeleceu um padr\u00e3o quase inexpugn\u00e1vel. Somente foi condenado por lavagem de dinheiro, em 2017, pelo Supremo Tribunal Federal. Em 2005, chegou a ser preso preventivamente, por 40 dias. Tamb\u00e9m teve um mandado de pris\u00e3o expedido pela Interpol, em 2010, a pedido da promotoria de Nova York. Ningu\u00e9m tem o direito de dizer que se enganou com Maluf, nem que ele mudou ao longo de sua trajet\u00f3ria pol\u00edtica. Quem mudou foram os antigos desafetos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;A trajet\u00f3ria de Maluf foi marcada por esc\u00e2ndalos e den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o, mas o pol\u00edtico paulista sempre conseguia se safar na Justi\u00e7a. Era s\u00edmbolo da impunidade e da compra de votos e de aliados&#8221; Depois de muito protelar, ontem, a Mesa da C\u00e2mara cassou o mandato do deputado Paulo Maluf (PP-SP), por unanimidade. 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