{"id":2911,"date":"2018-08-26T08:06:38","date_gmt":"2018-08-26T11:06:38","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=2911"},"modified":"2018-08-26T08:09:10","modified_gmt":"2018-08-26T11:09:10","slug":"nas-entrelinhas-escolha-errada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-escolha-errada\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: A escolha errada"},"content":{"rendered":"<p><em>A recess\u00e3o do governo Dilma foi um desses momentos em que o pa\u00eds andou para tr\u00e1s. Ao final de 2016, a economia havia encolhido quase 8% em dois anos<\/em><\/p>\n<p>Um pa\u00eds de dimens\u00f5es continentais como o Brasil n\u00e3o costuma andar para tr\u00e1s. Seu progresso tem uma in\u00e9rcia poderosa, que empurra o pa\u00eds para frente em situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis, como aconteceu, por exemplo, no governo Sarney: em plena hiperinfla\u00e7\u00e3o, todos os indicadores sociais avan\u00e7aram. Por isso mesmo, previs\u00f5es catastrofistas n\u00e3o costumam se confirmar. No governo Dutra, ap\u00f3s a redemocratiza\u00e7\u00e3o de 1945, a esquerda dizia que o pa\u00eds havia entrado num processo de \u201catraso progressivo\u201d, por\u00e9m, a industrializa\u00e7\u00e3o avan\u00e7ava. \u00c0quela \u00e9poca, muita gente acreditava que n\u00e3o haveria industrializa\u00e7\u00e3o com \u201clatif\u00fandio e domina\u00e7\u00e3o imperialista\u201d; deu-se exatamente o contr\u00e1rio, a industrializa\u00e7\u00e3o avan\u00e7ou com o capital estrangeiro; a monocultura de exporta\u00e7\u00e3o possibilitou a moderniza\u00e7\u00e3o do campo. Entretanto, quase 70 anos depois, uma parte da esquerda ainda acredita nisso.<\/p>\n<p>Nos momentos em que o pa\u00eds retrocedeu ou se estagnou, as escolhas pol\u00edticas erradas foram deliberadas, para privilegiar determinados grupos de interesse. Foi o que aconteceu no longo reinado de Dom Pedro 2\u00ba, por exemplo. Em 1800, o Brasil contava com uma popula\u00e7\u00e3o de 4,4 milh\u00f5es de habitantes, um pouco menos que os Estados Unidos, que tinham 5 milh\u00f5es. O porte das duas economias era semelhante. Por causa da escravid\u00e3o, com o tempo, a dist\u00e2ncia se tornou abissal. A renda per capita do norte-americano triplicou entre 1820 e 1900, passando de 1,3 mil para 4 mil d\u00f3lares, cinco, sete vezes a do brasileiro. A popula\u00e7\u00e3o norte-americana, com o fim da escravid\u00e3o, saltou de 35 milh\u00f5es, em 1865, para 63 milh\u00f5es em 1890, 4,5 vezes maior que a brasileira. A renda per capita cresceu 55%. A produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola representava apenas 22% do valor da produ\u00e7\u00e3o, enquanto a ind\u00fastria atingia 41%.<\/p>\n<p>Ou seja, enquanto os Estados Unidos faziam a sua revolu\u00e7\u00e3o industrial, o Brasil fazia tudo para manter a escravid\u00e3o. De 1820 a 1890, a nossa renda per capita subiu apenas de 670 para 704 d\u00f3lares anuais. Nesse per\u00edodo, a renda da Argentina subiu de 1,3 para 2,7 mil d\u00f3lares; e a de Portugal chegou 1, 4 mil d\u00f3lares. S\u00e3o escolhas pol\u00edticas que determinam o futuro das na\u00e7\u00f5es. Basta olhar aqui para o lado, a Venezuela, a maior pot\u00eancia petrol\u00edfera do continente, mergulhada no autoritarismo pol\u00edtico, no caos econ\u00f4mico, no paramilitarismo e na corrup\u00e7\u00e3o. O governo de Campos Sales, por exemplo, promoveu uma das maiores recess\u00f5es da hist\u00f3ria, deliberadamente, porque o presidente da rep\u00fablica e seu ministro da Fazenda, Joaquim Murtinho, eram contra a industrializa\u00e7\u00e3o e se aliaram \u00e0s velhas for\u00e7as retr\u00f3gradas do Imp\u00e9rio, que queriam manter seus privil\u00e9gios.<\/p>\n<p>A crise econ\u00f4mica em que o Brasil mergulhou durante o governo Dilma Rousseff foi um desses momentos em que o pa\u00eds andou para tr\u00e1s. Ao final de 2016, a economia havia encolhido quase 8% em dois anos. A \u00faltima vez que algo parecido havia acontecido fora no bi\u00eanio 1930-31, em meio \u00e0 Grande Depress\u00e3o, quando a gera\u00e7\u00e3o de riquezas diminuiu pouco mais de 5%. Dilma assumiu o Planalto em 2011, herdando um crescimento econ\u00f4mico de 7,53% no ano anterior, com o ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva alardeando que o Brasil foi o \u00faltimo pa\u00eds a entrar e o primeiro a sair da crise internacional. O discurso triunfalista se baseava numa pol\u00edtica de expans\u00e3o do cr\u00e9dito e de aumento do sal\u00e1rio real que n\u00e3o tinha lastro no aumento da produtividade e na amplia\u00e7\u00e3o do deficit p\u00fablico, e nas demandas de commodities de alimentos e min\u00e9rios geradas pela expans\u00e3o da economia chinesa, al\u00e9m do chamado b\u00f4nus demogr\u00e1fico, que reduziu o n\u00famero de dependentes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o economicamente ativa e com renda.<\/p>\n<p><strong>Nova matriz<\/strong><\/p>\n<p>Dilma aprofundou as pol\u00edticas de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva e adotou outras, que chamou de \u201cnova matriz econ\u00f4mica\u201d. O trip\u00e9 formado por metas de infla\u00e7\u00e3o, superavit prim\u00e1rio e c\u00e2mbio flutuante, heran\u00e7a do governo de Fernando Henrique Cardoso, seguido \u00e0 risca pelo presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva no primeiro mandato, foi substitu\u00eddo por interven\u00e7\u00f5es mais acentuadas na taxa de juros e nos pre\u00e7os administrados; por refor\u00e7os na prote\u00e7\u00e3o \u00e0 ind\u00fastria nacional, em especial a automotiva; e pela amplia\u00e7\u00e3o das desonera\u00e7\u00f5es tribut\u00e1rias e do cr\u00e9dito subsidiado a empresas. A maior recess\u00e3o da hist\u00f3ria brasileira nasceu da obsess\u00e3o de Lula, de Dilma e do PT pelo crescimento a qualquer custo.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o somente se deu conta do problema quando veio a onda de desemprego e o endividamento em massa. As medidas antic\u00edclicas adotadas no fim do governo Lula, que tinham por objetivo combater a recess\u00e3o, tornaram-se permanentes. Ainda que a economia tenha crescido quase 4% no primeiro ano do governo, Dilma continuou elevando gastos e abrindo m\u00e3o de arrecada\u00e7\u00e3o. Com or\u00e7amento engessado por vincula\u00e7\u00f5es e indexa\u00e7\u00f5es, v\u00e1rias delas criadas nas administra\u00e7\u00f5es petistas, um governo m\u00e3o aberta dependeria de crescimento econ\u00f4mico alto e ininterrupto para conseguir pagar suas contas. N\u00e3o foi o que aconteceu.<\/p>\n<p>O controle de pre\u00e7os tirou dinheiro do Tesouro e de estatais. A crise da zona do euro e o fim do superciclo das commodities se somaram \u00e0 desacelera\u00e7\u00e3o. Sem reformas para elevar a produtividade, esgotou-se o crescimento anabolizado por consumo e endividamento. O pa\u00eds mergulhou na recess\u00e3o e no desemprego em massa, a infla\u00e7\u00e3o disparou, em meio a esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o, entre os quais o da Petrobras. O governo n\u00e3o conseguiu cumprir suas metas fiscais, recorreu a malabarismos cont\u00e1beis e adiou sistematicamente pagamentos bilion\u00e1rios devidos a bancos p\u00fablicos, pr\u00e1tica que ficou conhecida como \u201cpedalada fiscal\u201d e serviu de pretexto ao impeachment. Dois anos depois, o ex-presidente Lula, seu eventual substituto, o ex-prefeito Fernando Haddad, e a pr\u00f3pria Dilma, disputam as elei\u00e7\u00f5es como se nada disso tivesse ocorrido. Prometem repetir os mesmos erros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A recess\u00e3o do governo Dilma foi um desses momentos em que o pa\u00eds andou para tr\u00e1s. Ao final de 2016, a economia havia encolhido quase 8% em dois anos Um pa\u00eds de dimens\u00f5es continentais como o Brasil n\u00e3o costuma andar para tr\u00e1s. Seu progresso tem uma in\u00e9rcia poderosa, que empurra o pa\u00eds para frente em situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis, como aconteceu, por [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[36,46,4,22,5,8,9,3],"tags":[181,67,10],"class_list":["post-2911","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-economia","category-eleicoes","category-governo","category-impeachment","category-lava-jato","category-partidos","category-politica-2","category-politica","tag-crise","tag-eleicoes2018","tag-lula"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2911","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2911"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2911\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2917,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2911\/revisions\/2917"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2911"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2911"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2911"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}