{"id":2935,"date":"2018-09-04T08:42:05","date_gmt":"2018-09-04T11:42:05","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=2935"},"modified":"2018-09-04T23:06:15","modified_gmt":"2018-09-05T02:06:15","slug":"nas-entrelinhas-historia-deriva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-historia-deriva\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: A hist\u00f3ria \u00e0 deriva"},"content":{"rendered":"<p><em>&#8220;Em pleno processo eleitoral, a identifica\u00e7\u00e3o das causas reais do inc\u00eandio do Museu de nada servir\u00e1 para evitar o embate pol\u00edtico que j\u00e1 se estabeleceu entre governo e oposi\u00e7\u00e3o&#8221;<\/em><\/p>\n<p>O Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, cujo acervo foi quase completamente destru\u00eddo por um inc\u00eandio na noite de domingo, era o retrato da rela\u00e7\u00e3o do Brasil com a sua cultura. Entrou na pauta das elei\u00e7\u00f5es da pior forma poss\u00edvel: como nova trag\u00e9dia nacional, que comoveu o mundo da cultura e, principalmente, o povo do Rio de Janeiro. Por causa das linhas de trens e de metr\u00f4, era muito visitado por estudantes de todas as idades e pelas fam\u00edlias de cariocas dos sub\u00farbios da Central do Brasil e da Leopoldina, para os quais era uma janela para o mundo da Hist\u00f3ria Natural e das civiliza\u00e7\u00f5es antigas.<\/p>\n<p>A exist\u00eancia do museu se deve, em primeiro lugar, \u00e0 transfer\u00eancia da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro, entre 1808 e 1821, com a vinda de Dom Jo\u00e3o VI e sua fam\u00edlia para o Brasil, acompanhado de mais de 10 mil pessoas, entre servi\u00e7ais, religiosos, militares e a nobreza, fugindo do ex\u00e9rcito de Napole\u00e3o Bonaparte, o imperador franc\u00eas. O antrop\u00f3logo e jornalista australiano Patrick Wilcken, no livro Imp\u00e9rio \u00e0 deriva, descreve essa mudan\u00e7a de forma magistral, no contexto da pol\u00edtica europeia da \u00e9poca. O choque cultural que ela provocou, por\u00e9m, \u00e9 narrado com riqueza de detalhes por Laurentino Gomes, no livro 1808.<\/p>\n<p>Laurentino Gomes \u00e9 autor de uma trilogia que inclui 1822 \u2014 Como um homem s\u00e1bio, uma princesa triste e um escoc\u00eas louco por dinheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil \u2013 um pa\u00eds que tinha tudo para dar errado, sobre a Independ\u00eancia; e 1889 \u2013 Como um imperador cansado, um marechal vaidoso e um professor injusti\u00e7ado contribu\u00edram para o fim da Monarquia e a Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica do Brasil, que narra o colapso do regime imperial escravocrata. \u00c9 dele, \u201cdepois de uma noite mal- dormida\u201d, o coment\u00e1rio mais cr\u00edtico sobre o inc\u00eandio na Quinta da Boa Vista:<\/p>\n<p>\u201cAbandonado, desleixado, com um acervo rico, por\u00e9m esquizofr\u00eanico, pouco acolhedor para quem se animassem a visit\u00e1-lo, o Museu Nacional era um s\u00edmbolo do que nos tornamos nos \u00faltimos anos: uma caricatura do que gostar\u00edamos de ser e nunca fomos\u201d, criticou. O pr\u00e9dio da Quinta da Boa Vista foi palco de grandes momentos da hist\u00f3ria do Brasil Imperial. Segundo Laurentino, tinha voca\u00e7\u00e3o para Museu Hist\u00f3rico, mas virou Museu de Ci\u00eancias Naturais. \u201cO acervo era confuso e pouco did\u00e1tico, entregue aos malcuidados de funcion\u00e1rios e curadores burocr\u00e1ticos, sem inspira\u00e7\u00e3o e entusiasmo\u201d, critica.<\/p>\n<p>Para o historiador, era um s\u00edmbolo do toma l\u00e1 d\u00e1 c\u00e1 na pol\u00edtica brasileira: o pr\u00e9dio original foi um presente de um grande traficante de escravos a D. Jo\u00e3o no dia da chegada da Corte portuguesa ao Rio de Janeiro, em 1808. Elias Ant\u00f4nio Lopes era \u201cum dos homens que mais se enriqueceria e ganharia t\u00edtulos e honrarias nos 13 anos da Corte portuguesa no Brasil.\u201d De fato, a cole\u00e7\u00e3o do museu come\u00e7ou como um projeto que se inspirava nas casas reais europeias. D. Pedro II era neto do rei portugu\u00eas Jo\u00e3o VI e de Francisco II, \u00faltimo monarca do Sacro Imp\u00e9rio Romano-Germ\u00e2nico, sobrinho de Napole\u00e3o Bonaparte e primo dos imperadores Francisco Jos\u00e9 I da \u00c1ustria e Maximiliano do M\u00e9xico.<\/p>\n<p><strong>Acervo<\/strong><br \/>\nUma parte do acervo se deve ao interesse de D. Pedro II pelas ci\u00eancias e seu esfor\u00e7o de reconhecimento pela nobreza europeia. Na d\u00e9cada de 1870, o imperador brasileiro fez duas grandes viagens \u00e0 Europa, Oriente M\u00e9dio, \u00c1frica e Estados Unidos, o que acabou influenciando as caracter\u00edsticas do acervo que Laurentino chama de \u201cesquizofr\u00eanico\u201d. H\u00e1 que se considerar que o colonialismo estava no auge e o saque ao patrim\u00f4nio hist\u00f3rico das antigas civiliza\u00e7\u00f5es orientais e mediterr\u00e2neas pelas pot\u00eancias da Europa estava em pleno curso. A outra parte \u00e9 fruto da pesquisa arqueol\u00f3gica e antropol\u00f3gica dos pesquisadores abnegados do pr\u00f3prio museu, que completavam a cole\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O museu comemorou em junho seu bicenten\u00e1rio. Recebia 150 mil visitantes por ano e era um importante centro de pesquisa e estudo, porque estava integrado \u00e0 Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), desde 1946. Sua biblioteca possu\u00eda 537 mil livros, incluindo 1.560 obras raras, como um exemplar de Hist\u00f3ria natural (Pl\u00ednio, o Velho), de 1410. Um dos acervos mais atingidos \u00e9 o do departamento de paleontologia, com mais de 26 mil f\u00f3sseis, incluindo o esqueleto de um dinossauro descoberto em Minas Gerais e in\u00fameras esp\u00e9cies extintas, como pregui\u00e7as gigantes e tigres-dentes-de-sabre. Sua cole\u00e7\u00e3o de antropologia biol\u00f3gica inclu\u00eda o mais antigo f\u00f3ssil humano descoberto no Brasil, conhecido como \u201cLuzia\u201d, que sobreviveu a 12 mil anos, mas n\u00e3o ao descaso oficial com a cultura.<\/p>\n<p>No dia 6 de junho, a dire\u00e7\u00e3o do Museu Nacional e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social (BNDES) assinaram um contrato que prev\u00ea investimento de R$ 21,7 milh\u00f5es para o plano de revitaliza\u00e7\u00e3o do pr\u00e9dio hist\u00f3rico, seu acervo e espa\u00e7os de exposi\u00e7\u00e3o. Mas j\u00e1 era tarde, pois o mais trivial \u2014 a manuten\u00e7\u00e3o da rede el\u00e9trica e armazenamento adequado de produtos qu\u00edmicos \u2014 n\u00e3o foi feito. As investiga\u00e7\u00f5es sobre o inc\u00eandio provavelmente apontar\u00e3o uma multiplicidade de fatores de risco, do cupim nas madeiras \u00e0 falta de equipe de combate a inc\u00eandio.<\/p>\n<p>Em pleno processo eleitoral, a identifica\u00e7\u00e3o das causas reais do inc\u00eandio de nada servir\u00e1 para evitar o embate pol\u00edtico que j\u00e1 se estabeleceu entre governo e oposi\u00e7\u00e3o. A dire\u00e7\u00e3o da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) \u00e9 controlada por uma alian\u00e7a de partidos de esquerda \u2014 PSOL, PCdoB e PCB \u2014, enquanto os minist\u00e9rios da Cultura e da Educa\u00e7\u00e3o est\u00e3o sob comando de aliados do presidente Michel Temer. Embora o PT tenha exercido o poder de 2002 a 2016, estudantes e dirigentes universit\u00e1rios culpam Temer pelo sucateamento do museu. Entretanto, a manuten\u00e7\u00e3o do museu deveria ter sido uma prioridade no or\u00e7amento da universidade, que poderia remanejar verbas e fazer contratos emergenciais para isso, em vez de criar novas despesas. Depois do inc\u00eandio, isso nem se discute.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Em pleno processo eleitoral, a identifica\u00e7\u00e3o das causas reais do inc\u00eandio do Museu de nada servir\u00e1 para evitar o embate pol\u00edtico que j\u00e1 se estabeleceu entre governo e oposi\u00e7\u00e3o&#8221; O Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, cujo acervo foi quase completamente destru\u00eddo por um inc\u00eandio na noite de domingo, era o retrato da rela\u00e7\u00e3o do Brasil com a sua [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[28,46,4,9,3,39],"tags":[67,226],"class_list":["post-2935","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cultura","category-eleicoes","category-governo","category-politica-2","category-politica","category-universidade","tag-eleicoes2018","tag-museu"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2935","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2935"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2935\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2943,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2935\/revisions\/2943"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2935"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2935"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2935"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}