{"id":2972,"date":"2018-09-14T07:51:00","date_gmt":"2018-09-14T10:51:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=2972"},"modified":"2018-09-14T07:51:00","modified_gmt":"2018-09-14T10:51:00","slug":"nas-entrelinhas-o-estelionato-eleitoral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-estelionato-eleitoral\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O estelionato eleitoral"},"content":{"rendered":"<p><em>&#8220;Quem vencer as elei\u00e7\u00f5es estar\u00e1 contingenciado pela dura realidade fiscal. Se n\u00e3o lev\u00e1-la em conta, jogar\u00e1 o pa\u00eds numa nova recess\u00e3o&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Enquanto avan\u00e7a a disputa entre os candidatos a presidente da Rep\u00fablica, o fosso entre as expectativas criadas junto aos eleitores e as possibilidades efetivas de atend\u00ea-las se aprofunda. Surgem solu\u00e7\u00f5es m\u00e1gicas para o desemprego, o endividamento das fam\u00edlias, a viol\u00eancia e a inefici\u00eancia dos servi\u00e7os p\u00fablicos na educa\u00e7\u00e3o e na sa\u00fade, mas muito pouco se fala sobre os cinco anos de deficit fiscal e o ajuste a ser feito, necessariamente, por quem ganhar a elei\u00e7\u00e3o, inclusive a reforma da Previd\u00eancia que aumente a idade m\u00ednima e unifique as aposentadorias de servidores p\u00fablicos e demais trabalhadores. Ou seja, vem a\u00ed mais um estelionato eleitoral.<\/p>\n<p>O reflexo imediato das incertezas quanto \u00e0 crise de financiamento do Estado brasileiro \u00e9 a alta do d\u00f3lar, que alcan\u00e7ou o maior valor da hist\u00f3ria do real: ontem, fechou negociado a R$ 4,19. A corrida pela moeda norte-americana \u00e9 influenciada pelo cen\u00e1rio internacional desfavor\u00e1vel aos pa\u00edses emergentes. A guerra comercial e a alta dos juros protagonizada pelos Estados Unidos fazem a festa para os especuladores. E as promessas mirabolantes dos candidatos para seduzir os eleitores n\u00e3o ajudam a acalmar o mercado. Quem vencer as elei\u00e7\u00f5es estar\u00e1 contingenciado pela dura realidade fiscal. Se n\u00e3o lev\u00e1-la em conta, jogar\u00e1 o pa\u00eds numa espiral de infla\u00e7\u00e3o alta e nova recess\u00e3o. A maior prova disso \u00e9 a lenta recupera\u00e7\u00e3o da atividade econ\u00f4mica no governo Temer, que est\u00e1 associada diretamente ao deficit fiscal. O atual governo conseguiu controlar a infla\u00e7\u00e3o e sair da recess\u00e3o, mas n\u00e3o obteve taxas de crescimento capazes de resolver o problema do desemprego. O deficit fiscal de R$ 159 bilh\u00f5es previsto para este ano barra o crescimento.<\/p>\n<p>Vejamos, por exemplo, as promessas de campanha do candidato do PT, Fernando Haddad, que anuncia um cen\u00e1rio de bonan\u00e7a. O petista promete retomar o fio da hist\u00f3ria a partir do governo Lula, que registrou crescimento de 7,5% em 2010. Isso somente foi poss\u00edvel porque a economia estava anabolizada pela superoferta de cr\u00e9dito, pelas isen\u00e7\u00f5es fiscais e pelos subs\u00eddios das tarifas de energia e combust\u00edvel. A tentativa de manter essa rota foi chamada de \u201cnova matriz econ\u00f4mica\u201d e levou o pa\u00eds ao colapso no governo Dilma Rousseff. Al\u00e9m disso, as condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis \u00e0quele regime de pleno emprego deixaram de existir: a forte expans\u00e3o da economia mundial foi interrompida com a crise do mercado financeiro de 2008, o superavit fiscal herdado do governo de Fernando Henrique Cardoso foi canibalizado, e o b\u00f4nus demogr\u00e1fico, que aumentou a renda m\u00e9dia das fam\u00edlias com a redu\u00e7\u00e3o do n\u00famero de dependentes, foi abduzido pela crise da seguridade social.<\/p>\n<p>Haddad anunciou, ontem, a proposta de zerar as d\u00edvidas dos consumidores, macaqueando a proposta do candidato do PDT, Ciro Gomes, que prometeu limpar o nome de todos os endividados no SPC. Promete a retomada da \u201cnova matriz econ\u00f4mica\u201d do programa do PT. Ao mesmo tempo, sinaliza para o mercado que pretende convidar para o Minist\u00e9rio da Fazenda o economista Marcos Lisboa, um dos cr\u00edticos da pol\u00edtica de Dilma Rousseff, que fez parte da equipe do ministro Antonio Palocci no come\u00e7o do governo Lula. Haddad faz campanha como se fosse s\u00f3sia do ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva e, nos bastidores, manda recado para o mercado financeiro de que pretende adotar a t\u00e1tica do violino: segurar o governo com a esquerda para tocar a pol\u00edtica econ\u00f4mica com a direita.<\/p>\n<p><strong>Teto de gastos<\/strong><\/p>\n<p>Presidente do Insper, Ph.D. em economia pela Universidade da Pensilv\u00e2nia, Marcos Lisboa foi professor da Universidade de Stanford e diretor-executivo e vice-presidente do Ita\u00fa-Unibanco de 2006 a 2013. Fez duras cr\u00edticas ao governo Dilma em 2015: \u201cA causa imediata da grave crise \u00e9 o desequil\u00edbrio fiscal e a tend\u00eancia de aumento da d\u00edvida p\u00fablica, que significa risco para a sustentabilidade das contas p\u00fablicas nos pr\u00f3ximos anos. As raz\u00f5es desse desequil\u00edbrio n\u00e3o se resumem apenas \u00e0s escolhas de pol\u00edtica econ\u00f4mica dos \u00faltimos anos, ainda que essas escolhas o tenham agravado. O gasto p\u00fablico no Brasil apresenta uma tend\u00eancia de crescimento maior do que o da renda nacional, decorrente de diversas regras legais e da transi\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica. A popula\u00e7\u00e3o idosa cresce 4% ao ano, enquanto a popula\u00e7\u00e3o em idade ativa cresce apenas 1% ao ano, implicando a necessidade de aumento cont\u00ednuo da carga tribut\u00e1ria para preservar os benef\u00edcios previdenci\u00e1rios previstos\u201d.<\/p>\n<p>Para Marcos Lisboa, reverter a trajet\u00f3ria de crescimento do gasto passa pela reforma da Previd\u00eancia, com ado\u00e7\u00e3o de observadas nos pa\u00edses desenvolvidos e a elimina\u00e7\u00e3o dos regimes especiais. O economista defende regras de vincula\u00e7\u00e3o dos gastos p\u00fablicos ao aumento da renda nacional e ao aumento da produtividade, o que requer uma extensa agenda de reforma das pol\u00edticas p\u00fablicas adotadas no governo Lula e a manuten\u00e7\u00e3o da lei do teto de gastos. \u00c9 dif\u00edcil acreditar que venha a ser ministro da Fazenda de um eventual governo petista, a n\u00e3o ser que Haddad fa\u00e7a mesmo uma ruptura com as pol\u00edticas que vem defendendo na campanha eleitoral.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Quem vencer as elei\u00e7\u00f5es estar\u00e1 contingenciado pela dura realidade fiscal. Se n\u00e3o lev\u00e1-la em conta, jogar\u00e1 o pa\u00eds numa nova recess\u00e3o&#8221; Enquanto avan\u00e7a a disputa entre os candidatos a presidente da Rep\u00fablica, o fosso entre as expectativas criadas junto aos eleitores e as possibilidades efetivas de atend\u00ea-las se aprofunda. 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