{"id":3176,"date":"2018-11-08T08:33:57","date_gmt":"2018-11-08T10:33:57","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=3176"},"modified":"2018-11-08T08:33:57","modified_gmt":"2018-11-08T10:33:57","slug":"nas-entrelinhas-nao-morra-antes-da-hora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-nao-morra-antes-da-hora\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: N\u00e3o morra antes da hora"},"content":{"rendered":"<p><em>&#8220;Quem disse que a democracia nos Estados Unidos estava \u00e0 beira da morte queimou a l\u00edngua&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Poeta, dramaturgo, romancista, ensa\u00edsta, fot\u00f3grafo e ator, Evgu\u00eani Evtuchenko (1932- 2017) foi o cronista da mudan\u00e7a pol\u00edtica na antiga URSS. Nos anos 1960, seus recitais ao lado de Bella Akhmadulina, sua ex-mulher, atra\u00edam multid\u00f5es que lotavam est\u00e1dios. Seu poema Babi Yar, nome de um desfiladeiro nas imedia\u00e7\u00f5es de Kiev, que relata o massacre de 35 mil judeus pelos nazistas, em setembro de 1941, serviu de inspira\u00e7\u00e3o para a 13\u00aa Sinfonia de Chostak\u00f3vitch, cuja for\u00e7a l\u00edrica tamb\u00e9m foi uma cr\u00edtica ao antissemitismo sovi\u00e9tico.<\/p>\n<p>Seu livro em prosa N\u00e3o morra antes de morrer, publicado no Brasil pela Record, em 1999, relata a crise que levou ao colapso o sistema sovi\u00e9tico, depois do sequestro de Mikhail Gorbatchov pelos militares, que tentaram dar um golpe de Estado contra a perestroika. Foi um tiro pela culatra, pois houve grande rea\u00e7\u00e3o popular. Evtuchenko e o ent\u00e3o presidente da R\u00fassia, Boris Yeltsin, lideraram os protestos que acabaram frustrando os objetivos da linha dura comunista e resultaram no fim do comunismo sovi\u00e9tico.<\/p>\n<p>Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, dois conceituados professores de Harvard, s\u00e3o os autores do best-seller Como morrem as democracias (Zahar), o livro pol\u00edtico da moda no Brasil. \u00c9 uma leitura instigante, porque eles procuram explicar como a elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump se tornou poss\u00edvel e mostram as vicissitudes dos regimes democr\u00e1ticos do Ocidente nos \u00faltimos 100 anos, com destaque para a ascens\u00e3o do nazismo na Alemanha, com Hitler, e do fascismo na It\u00e1lia, com Mussolini, dois l\u00edderes carism\u00e1ticos que se aproveitaram do direito de express\u00e3o e da liberdade de organiza\u00e7\u00e3o asseguradas pela democracia para se tornar ditadores sanguin\u00e1rios.<\/p>\n<p>No mesmo embalo, fazem uma radiografia das ditaduras latino-americanas da d\u00e9cada de 1970, entre as quais as do Cone Sul, inclusive o Brasil. Segundo eles, a democracia atualmente n\u00e3o termina com uma ruptura violenta nos moldes de uma revolu\u00e7\u00e3o ou de um golpe militar; agora, a escalada do autoritarismo se d\u00e1 com o enfraquecimento lento e constante de institui\u00e7\u00f5es cr\u00edticas \u2014 como o Judici\u00e1rio e a imprensa \u2014 e a eros\u00e3o gradual de normas pol\u00edticas de longa data. A R\u00fassia de Putin, a Turquia de Erdogan e a vizinha Venezuela de Maduro seriam exemplos desse processo. Lan\u00e7ado \u00e0s v\u00e9speras das elei\u00e7\u00f5es aqui Brasil, nas quais o deputado Jair Bolsonaro foi eleito presidente da Rep\u00fablica, o livro \u00e9 um sucesso de cr\u00edtica e de vendas, quando nada porque deu sustenta\u00e7\u00e3o te\u00f3rica ao alarmismo que cercou a vit\u00f3ria do capit\u00e3o reformado do Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>De fato, uma onda conservadora varre as democracias do Ocidente, ressuscitando for\u00e7as ultradireitistas e velhos sentimentos chauvinistas. Ao mesmo tempo, as elites pol\u00edticas tradicionais e seus partidos s\u00e3o atropeladas por movimentos c\u00edvicos e atores subterr\u00e2neos nas redes sociais, sem saber bem o que fazer para se manterem no poder. No Brasil, n\u00e3o \u00e9 muito diferente o que aconteceu nas elei\u00e7\u00f5es. Entretanto, mais uma vez, a democracia norte-americana, que surpreendeu o mundo com a elei\u00e7\u00e3o de Barack Obama e do pr\u00f3prio Donald Trump, volta a demonstrar sua vitalidade e capacidade de oferecer contrapesos ao poder da Casa Branca.<\/p>\n<p><strong>Onda azul<\/strong><\/p>\n<p>Ao renovar a C\u00e2mara dos Representantes, os eleitores americanos cortaram as asas de Donald Trump, que utilizou a vit\u00f3ria de 2016 para dividir ainda mais o pa\u00eds, com suas declara\u00e7\u00f5es racistas e xen\u00f3fobas. Agora, ser\u00e1 duro o caminho para a sua reelei\u00e7\u00e3o. Embora tenha preservado a maioria vermelha no Senado (\u00e9 isso mesmo: nos EUA, vermelhos s\u00e3o os republicanos), a \u201conda azul\u201d democrata obrigar\u00e1 Trump a buscar o caminho do centro, quando nada porque seu poder foi limitado e estar\u00e1 sob a vigil\u00e2ncia da nova maioria democrata na C\u00e2mara. Adeus \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do muro no M\u00e9xico; a revoga\u00e7\u00e3o do Obamacare, outra grande obsess\u00e3o, \u00e9 um projeto derrotado.<\/p>\n<p>Quem disse que a democracia nos Estados Unidos estava \u00e0 beira da morte queimou a l\u00edngua. Foi por causa disso que lembrei o falecido poeta russo e sua cr\u00f4nica memorialista. Na fornada eleitoral do Partido Democrata, na qual brilhou a lideran\u00e7a do ex-presidente Obama, foram eleitos latinos, ind\u00edgenas, mu\u00e7ulmanos e at\u00e9 um governador gay, no Colorado. Al\u00e9m disso, os democratas ganharam for\u00e7a para investigar os neg\u00f3cios do presidente da Rep\u00fablica e at\u00e9 aprovar um processo de impeachment, caso se comprove seu envolvimento com Putin nas elei\u00e7\u00f5es. Restar\u00e3o a Trump a blindagem republicana do Senado e seu pr\u00f3prio poder de veto.<\/p>\n<p>Ontem, o presidente eleito Jair Bolsonaro indicou a sexta integrante de seu governo, a deputada Tereza Cristina (DEM-MS), para o Minist\u00e9rio da Agricultura. Presidente da Frente Parlamentar Agropecu\u00e1ria do Congresso Nacional, \u00e9 engenheira agr\u00f4noma e empres\u00e1ria. Nos bastidores da C\u00e2mara, sua escolha foi o resultado de um grande embate entre ex-integrantes da antiga Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Ruralista (UDR), que projetou o rec\u00e9m-eleito governador de Goi\u00e1s, Ronaldo Caiado, e representantes do agroneg\u00f3cio paulista, que foram contra a extin\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente e levaram a melhor na queda de bra\u00e7o. Depois da indica\u00e7\u00e3o do juiz federal S\u00e9rgio Moro para o Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, com um olho na opini\u00e3o p\u00fablica e outro no Congresso, foi outro gol de placa de Bolsonaro na montagem de sua equipe.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Quem disse que a democracia nos Estados Unidos estava \u00e0 beira da morte queimou a l\u00edngua&#8221; Poeta, dramaturgo, romancista, ensa\u00edsta, fot\u00f3grafo e ator, Evgu\u00eani Evtuchenko (1932- 2017) foi o cronista da mudan\u00e7a pol\u00edtica na antiga URSS. 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