{"id":3308,"date":"2019-01-02T06:48:48","date_gmt":"2019-01-02T08:48:48","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=3308"},"modified":"2019-01-02T06:48:48","modified_gmt":"2019-01-02T08:48:48","slug":"nas-entrelinhas-o-governo-da-ordem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-governo-da-ordem\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O governo da ordem"},"content":{"rendered":"<p><em>&#8220;Bolsonaro promete um governo comprometido com a meritocracia, a honestidade e a efici\u00eancia. \u00c9 m\u00fasica para a maioria da sociedade&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Para n\u00e3o chover no molhado, direi que o momento mais simb\u00f3lico da posse de Jair Bolsonaro foi aquele em que passou em revista a Guarda Presidencial, como comandante supremo das For\u00e7as Armadas, depois de jurar a Constitui\u00e7\u00e3o. Foi o \u00fanico instante em que n\u00e3o sorriu; com o cenho franzido, ao contr\u00e1rio, chorou. Como velho rep\u00f3rter, se tivesse oportunidade, perguntaria o que passou pela sua cabe\u00e7a naquele primeiro e breve momento de \u201csolid\u00e3o do poder\u201d. Bolsonaro sabe que jamais chegaria \u00e0 Presid\u00eancia a n\u00e3o ser pelo voto.<\/p>\n<p>Como os generais de quatro estrelas Hamilton Mour\u00e3o, seu vice-presidente, e Augusto Heleno, o novo chefe do Gabinete de Seguran\u00e7a Institucional, faz parte de uma gera\u00e7\u00e3o que optou pela carreira militar quando o Ex\u00e9rcito ainda era a via de acesso ao Pal\u00e1cio do Planalto, mas teve essa ambi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica frustrada pela redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, em 1985. Sua indisciplina acabou abortando a carreira militar. A op\u00e7\u00e3o pela pol\u00edtica, por\u00e9m, demonstrou-se a alternativa acertada. Ningu\u00e9m exerce seis mandatos na C\u00e2mara impunemente. Por caminhos tortuosos, o capit\u00e3o reformado enxergou na escurid\u00e3o e agora \u00e9 o presidente da Rep\u00fablica, depois de 30 anos de vida pol\u00edtica.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi \u00e0 toa, portanto, que fez um discurso mais conciliador e apelou aos antigos colegas durante a sess\u00e3o de posse no Congresso. Deixou muito claro que conta com o apoio do parlamento para aprovar as reformas e viabilizar o seu governo. No decorrer deste m\u00eas, esse discurso ter\u00e1 que ganhar forma nas articula\u00e7\u00f5es para as Mesas da C\u00e2mara e do Senado. O grande divisor de \u00e1guas de seu governo ser\u00e1 a aprova\u00e7\u00e3o da reforma da Previd\u00eancia, sem ela estar\u00e1 condenado a uma esp\u00e9cie de feij\u00e3o com arroz neoliberal, restringindo a efic\u00e1cia das medidas econ\u00f4micas que est\u00e3o sendo elaboradas pelo seu ministro da Fazenda, Paulo Guedes. Que ningu\u00e9m se surpreenda se fizer uma composi\u00e7\u00e3o de \u00faltima hora em favor da reelei\u00e7\u00e3o de Rodrigo Maia, atual presidente da C\u00e2mara, que tem afinidades program\u00e1ticas e regionais com Guedes.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do apoio maci\u00e7o de militares e crist\u00e3os, como gosta de ressaltar o professor da UnB Elimar Pinheiro, soci\u00f3logo e cientista pol\u00edtico, a vit\u00f3ria de Bolsonaro tem um ingrediente antropol\u00f3gico, que as an\u00e1lises pol\u00edticas de seus advers\u00e1rios e muitos analistas demoraram a captar: o apoio das fam\u00edlias como institui\u00e7\u00e3o. Numa sociedade em que a desagrega\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia unicelular patriarcal se transformou numa trag\u00e9dia social por causa do desemprego, do crime organizado e dos p\u00e9ssimos servi\u00e7os de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, esse fen\u00f4meno emergiu na campanha eleitoral como uma esp\u00e9cie de for\u00e7a popular subterr\u00e2nea, mobilizada por cat\u00f3licos e evang\u00e9licos. O discurso contra a corrup\u00e7\u00e3o e a viol\u00eancia trouxe o apoio da classe m\u00e9dia.<\/p>\n<p><strong>O muro caiu<\/strong><br \/>\n\u201cPodemos, eu, voc\u00ea e as nossas fam\u00edlias, todos juntos, reestabelecer padr\u00f5es \u00e9ticos e morais que transformar\u00e3o nosso Brasil\u201d, conclamou Bolsonaro no discurso ap\u00f3s a transmiss\u00e3o do cargo. Essa mobiliza\u00e7\u00e3o lhe dar\u00e1 meios de acuar um Congresso fragilizado pela Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato: \u201cA corrup\u00e7\u00e3o, os privil\u00e9gios e as vantagens precisam acabar. Os favores politizados, partidarizados devem ficar no passado, para que o Governo e a economia sirvam de verdade a toda Na\u00e7\u00e3o\u201d. Bolsonaro promete um governo comprometido com a meritocracia, a honestidade e a efici\u00eancia. \u00c9 m\u00fasica para a maioria da sociedade.<\/p>\n<p>\u201cMe coloco diante de toda a na\u00e7\u00e3o, neste dia, como o dia em que o povo come\u00e7ou a se libertar do socialismo, da invers\u00e3o de valores, do gigantismo estatal e do politicamente correto\u201d, bradou, para del\u00edrio de seus partid\u00e1rios. \u201cN\u00e3o podemos deixar que ideologias nefastas venham a dividir os brasileiros. Ideologias que destroem nossos valores e tradi\u00e7\u00f5es, destroem nossas fam\u00edlias, alicerce da nossa sociedade\u201d. O Brasil nunca foi socialista, o nosso gigantismo estatal \u00e9 uma heran\u00e7a do nacional- desenvolvimentismo de Get\u00falio Vargas, Juscelino Kubitschek e, sobretudo, dos governos militares. Isso \u00e9 o que menos importa. Bolsonaro jogou no colo da oposi\u00e7\u00e3o, principalmente do PT, cujo envolvimento com a corrup\u00e7\u00e3o desmoralizou toda a esquerda, o esgotamento hist\u00f3rico do modelo socialista e a crise da socialdemocracia, como se o Muro de Berlim estivesse caindo novamente. Funciona, a esquerda brasileira ainda acha que o muro s\u00f3 havia ca\u00eddo na cabe\u00e7a dos militantes do antigo PCB.<\/p>\n<p>\u201cTemos o grande desafio de enfrentar os efeitos da crise econ\u00f4mica, do desemprego recorde, da ideologiza\u00e7\u00e3o de nossas crian\u00e7as, do desvirtuamento dos direitos humanos, e da desconstru\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia. Vamos propor e implementar as reformas necess\u00e1rias. Vamos ampliar infraestruturas, desburocratizar, simplificar, tirar a desconfian\u00e7a e o peso do Governo sobre quem trabalha e quem produz\u201d, promete.<\/p>\n<p>Bolsonaro anuncia um governo da ordem: \u201cTamb\u00e9m \u00e9 urgente acabar com a ideologia que defende bandidos e criminaliza policiais, que levou o Brasil a viver o aumento dos \u00edndices de viol\u00eancia e do poder do crime organizado, que tira vidas de inocentes, destr\u00f3i fam\u00edlias e leva a inseguran\u00e7a a todos os lugares. Nossa preocupa\u00e7\u00e3o ser\u00e1 com a seguran\u00e7a das pessoas de bem e a garantia do direito de propriedade e da leg\u00edtima defesa, e o nosso compromisso \u00e9 valorizar e dar respaldo ao trabalho de todas as for\u00e7as de seguran\u00e7a\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Bolsonaro promete um governo comprometido com a meritocracia, a honestidade e a efici\u00eancia. \u00c9 m\u00fasica para a maioria da sociedade&#8221; Para n\u00e3o chover no molhado, direi que o momento mais simb\u00f3lico da posse de Jair Bolsonaro foi aquele em que passou em revista a Guarda Presidencial, como comandante supremo das For\u00e7as Armadas, depois de jurar a Constitui\u00e7\u00e3o. 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