{"id":3320,"date":"2019-01-06T08:57:03","date_gmt":"2019-01-06T10:57:03","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=3320"},"modified":"2019-01-06T08:57:03","modified_gmt":"2019-01-06T10:57:03","slug":"nas-entrelinhas-o-menino-da-rua-do-cupim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-menino-da-rua-do-cupim\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O menino da Rua do Cupim"},"content":{"rendered":"<p><em>&#8220;A ministra Damares cumpre um duplo papel no governo: provoca a oposi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 identidade de g\u00eanero e sai em defesa da seguran\u00e7a das crian\u00e7as e suas familias&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Damares Alves, a ministra da Mulher, Fam\u00edlia e Direitos Humanos, j\u00e1 \u00e9 uma estrela da nova equipe de governo de Jair Bolsonaro. Pastora evang\u00e9lica, roubou a cena entre os seus pares ao afirmar, logo ap\u00f3s a posse, para um grupo de apoiadores, que \u201cmenino veste azul e menina veste rosa\u201d. Como quase tudo que acontece entre amigos, algu\u00e9m gravou e vazou nas redes sociais a frase pol\u00eamica, que viralizou e levantou um debate sobre identidade de g\u00eanero muito maior do que aquele que ela pr\u00f3pria pretendia.<\/p>\n<p>A oposi\u00e7\u00e3o e a imprensa atravessaram a rua para escorregar na casca de banana. Apontada pela m\u00eddia como patinha feia da equipe ministerial, Damares deu a volta por cima durante entrevista \u00e0 GloboNews, na qual driblou os craques do jornalismo pol\u00edtico da emissora com respostas que miravam os eleitores de Bolsonaro e n\u00e3o os seus interlocutores. Falou o que eles gostariam de ouvir. N\u00e3o foi \u00e0 toa, portanto, que o escritor, dramaturgo e jornalista Aguinaldo Silva disparou no Twitter: \u201cVenderam a ministra Damares como uma esp\u00e9cie de \u201cmaluquete xiita\u201d e ontem ela provou que na verdade \u00e9 outra coisa: uma mulher conservadora, sim. Mas sensata, convencida do que diz, preparad\u00edssima e disposta a fortalecer os v\u00ednculos na c\u00e9lula mater da sociedade, que \u00e9 a fam\u00edlia.\u201d<\/p>\n<p>O novelista sabe das coisas, \u00e9 um premiado campe\u00e3o de audi\u00eancia no hor\u00e1rio nobre da tev\u00ea brasileira e mais do que um observador arguto da revolu\u00e7\u00e3o dos costumes sociais e pol\u00edticos no Brasil, que j\u00e1 dura meio s\u00e9culo. \u00c9 um protagonista dessa revolu\u00e7\u00e3o, ao lado de outros autores. Damares reagiu \u00e0s cr\u00edticas que recebeu com o argumento que repete \u00e0 exaust\u00e3o: \u201cFiz uma met\u00e1fora contra a ideologia de g\u00eanero, mas meninos e meninas podem vestir azul, rosa, colorido, enfim, da forma que se sentirem melhores.\u201d Garantiu que n\u00e3o haver\u00e1 retrocesso em termos de direitos adquiridos, em mat\u00e9ria de identidade de g\u00eanero. E partiu para a ofensiva num tema que explica muita coisa na elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro e que a oposi\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o captou: a defesa das crian\u00e7as e da fam\u00edlia como institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que muitos imaginam, Damares n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a pastora evang\u00e9lica e assessora parlamentar que deu uma rasteira no chefe, o ex-senador Magno Malta, e virou ministra em seu lugar. \u00c9 uma militante reconhecida do movimento em defesa das crian\u00e7as que sofrem de depress\u00e3o e outros dist\u00farbios psicol\u00f3gicos, que t\u00eam impactado os alt\u00edssimos indicadores de suic\u00eddio e automutila\u00e7\u00e3o entre pr\u00e9-adolescentes e adolescentes no Brasil. \u201cPobre, gay, mulato e aben\u00e7oado\u201d, Aguinaldo Silva, o menino da Rua do Cupim, no Recife, sacou que a ministra sabe o que est\u00e1 fazendo.<\/p>\n<p>Em 1954, aos 11 anos, Aguinaldo Silva mudou com a fam\u00edlia da Cidade de Carpina para a capital pernambucana. Trouxe na mem\u00f3ria afetiva boa parte da mat\u00e9ria-prima de suas novelas, de Tieta ao S\u00e9timo Guardi\u00e3o. No bairro dos Aflitos, viveu o drama de menino pobre que aos 11 anos era \u201cesquisito\u201d e passou a ser chamado de \u201cfrango\u201d aos 13 anos. \u201cForam muito dif\u00edceis aqueles anos que passei na Rua do Cupim, tendo que ouvir todo tipo de acusa\u00e7\u00f5es e insultos\u2026, mas eles foram tamb\u00e9m muito prazerosos. Pois, na casa ao lado da minha, morava uma fam\u00edlia de crentes cujo chefe tinha uma portentosa biblioteca da qual sua filha, Glyce, de vez em quando sacava um livro e me emprestava. Li \u201cMadame Bovary\u201d aos 13 anos e chorei feito um louco por causa de Ema, pois achei que, em sua loucura, ela estava cert\u00edssima\u2026 E felizmente ainda acho isso at\u00e9 hoje.\u201d<\/p>\n<p><strong>Identidade de g\u00eanero<\/strong><\/p>\n<p>Aguinaldo j\u00e1 escreveu mais de 100 mil p\u00e1ginas de livros, novelas, s\u00e9ries, miniss\u00e9ries, pe\u00e7as de teatro, cr\u00f4nicas, artigos e reportagens, sem contar os textos do seu blog, no qual faz uma esp\u00e9cie de striptease da sua vida intelectual: \u201cAos 75 anos, escrevo todos os santos dias, sem falhar carnaval, Natal, ano-novo ou qualquer feriado. N\u00e3o preciso fazer como o general Coriolano, da trag\u00e9dia de Shakespeare, e ir \u00e0 pra\u00e7a p\u00fablica mostrar minhas muitas cicatrizes. Minhas 14 novelas e meus 16 livros est\u00e3o a\u00ed para isso\u201d.<\/p>\n<p>A chamada pauta identit\u00e1ria de g\u00eanero virou uma armadilha pol\u00edtica. Serviu para que o PT sa\u00edsse do isolamento ap\u00f3s os esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o que protagonizou no poder e o impeachment de Dilma Rousseff. O movimento \u201c#EleN\u00e3o\u201d foi uma ponte com as manifesta\u00e7\u00f5es de g\u00eanero e deu sustenta\u00e7\u00e3o \u00e0 campanha de Fernando Haddad, principalmente depois da pris\u00e3o do ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva. Entretanto, como no caso de Hillary Clinton, nas elei\u00e7\u00f5es norte-americanas, \u00e9 uma agenda progressista, mas ideologicamente minorit\u00e1ria na sociedade. Espertamente, foi associada por Bolsonaro \u00e0 desagrega\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, uma trag\u00e9dia para os mais pobres, principalmente numa conjuntura de desemprego em massa.<\/p>\n<p>Damares cumpre um duplo papel no governo: de um lado, espica\u00e7a a oposi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a um tema no qual a opini\u00e3o p\u00fablica ainda \u00e9 conservadora e, majoritariamente, est\u00e1 ao lado de Bolsonaro; de outro, se prop\u00f5e a enfrentar um problema que as pol\u00edticas p\u00fablicas oficiais, segmentadas, n\u00e3o deram conta de resolver. A aten\u00e7\u00e3o dada a gestantes, idosos e crian\u00e7as, por exemplo, \u00e9 estanque e n\u00e3o cuida da seguran\u00e7a da fam\u00edlia como um todo. Quando fala em virar esse jogo, Damares sabe que \u00e9 m\u00fasica para os eleitores do capit\u00e3o. A estrat\u00e9gia de penetra\u00e7\u00e3o dos pastores evang\u00e9licos nas comunidades pobres do pa\u00eds \u00e9 focada exatamente nisso. Hoje, \u00e9 uma experi\u00eancia exitosa de trabalho social, religioso e pol\u00edtico, que comeu o mingau eleitoral pelas beiradas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;A ministra Damares cumpre um duplo papel no governo: provoca a oposi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 identidade de g\u00eanero e sai em defesa da seguran\u00e7a das crian\u00e7as e suas familias&#8221; Damares Alves, a ministra da Mulher, Fam\u00edlia e Direitos Humanos, j\u00e1 \u00e9 uma estrela da nova equipe de governo de Jair Bolsonaro. 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