{"id":3331,"date":"2019-01-09T08:15:37","date_gmt":"2019-01-09T10:15:37","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=3331"},"modified":"2019-01-09T08:24:07","modified_gmt":"2019-01-09T10:24:07","slug":"nas-entrelinhas-enrolar-o-paraquedasx","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-enrolar-o-paraquedasx\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Enrolar o paraquedas"},"content":{"rendered":"<p><em>&#8220;Os \u00edndios n\u00e3o abrem m\u00e3o de sua identidade \u00e9tnica e cultural; os sem-terra n\u00e3o querem deixar o campo; os imigrantes chegam para fugir de situa\u00e7\u00e3o muito pior&#8221;<\/em><\/p>\n<p>O presidente Jair Bolsonaro j\u00e1 aterrissou, mas ainda enrola o paraquedas. A segunda reuni\u00e3o ministerial que realizou ontem n\u00e3o concluiu o plano de trabalho para os primeiros 100 dias de governo, nem mesmo um programa minimalista, com come\u00e7o, meio e fim, que possa servir de base para que a sociedade saiba o que ele realmente pretende fazer. O governo est\u00e1 diante de uma equa\u00e7\u00e3o j\u00e1 anunciada por alguns analistas, mas que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil: precisa anunciar medidas que mantenham sua tropa aguerrida e unida, por\u00e9m est\u00e1 diante de uma realidade que n\u00e3o comporta solu\u00e7\u00f5es simplistas como as promessas da campanha eleitoral.<\/p>\n<p>Por exemplo, depois da reuni\u00e3o de ontem, o ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, anunciou que o governo prepara um decreto para flexibilizar a posse de arma, segundo o princ\u00edpio da leg\u00edtima defesa. \u00c9 uma bandeira de campanha de Bolsonaro que tem amplo respaldo popular, mas isso n\u00e3o significa a libera\u00e7\u00e3o do porte de arma para os cidad\u00e3os. A diferen\u00e7a entre uma coisa e outra \u00e9 abissal. Sem entrar no m\u00e9rito da quest\u00e3o, a medida contrasta com a realidade. Apresentada como ant\u00eddoto \u00e0 viol\u00eancia urbana, qualquer um que acompanhe o notici\u00e1rio policial sabe que o problema \u00e9 muito mais grave. Basta olhar para a crise de seguran\u00e7a em curso no Cear\u00e1, que p\u00f4s de ponta-cabe\u00e7a a rela\u00e7\u00e3o governo versus oposi\u00e7\u00e3o. O presidente da Rep\u00fablica gostaria de jogar o problema no colo do governador Camilo Santana (PT), mas teve de sair em seu socorro; o petista foi obrigado a pedir ajuda ao governo federal e deixar de lado a oposi\u00e7\u00e3o incondicional que vinha mantendo.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, essa crise do Cear\u00e1 pode se generalizar. Os governadores rec\u00e9m-eleitos anunciam que v\u00e3o endurecer o jogo com os chef\u00f5es do tr\u00e1fico de drogas, por\u00e9m, sem antes estudar as condi\u00e7\u00f5es para faz\u00ea-lo com efici\u00eancia e sem os efeitos colaterais. O governador de Goi\u00e1s, Ronaldo Caiado (DEM), passando em vista as tropas da Pol\u00edcia Militar, anunciou que os bandidos v\u00e3o ter de mudar de Goi\u00e1s, porque a barra l\u00e1 vai pesar. No Rio de Janeiro, o governador Wilson Witzel (PSC) reiterou sua pol\u00edtica de abate de criminosos (\u201cN\u00e3o ande de fuzil, voc\u00ea vai morrer\u201d), no entanto, j\u00e1 come\u00e7ou a contabilizar policiais militares mortos durante a sua gest\u00e3o. At\u00e9 o governador Jo\u00e3o Doria (PSDB) endureceu a fala contra os chef\u00f5es que controlam os pres\u00eddios do estado.<\/p>\n<p><strong>Vulner\u00e1veis<\/strong><br \/>\nBem mais f\u00e1cil at\u00e9 agora tem sido a ado\u00e7\u00e3o de medidas contra os \u00edndios, os sem-terra e os imigrantes. Bolsonaro resolveu rever a demarca\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas e suspendeu os processos de reforma agr\u00e1ria; pediu aos diplomatas brasileiros que comuniquem \u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) que o Brasil saiu do Pacto Global para a Migra\u00e7\u00e3o, ao qual o pa\u00eds havia aderido em dezembro, no fim do governo Michel Temer. S\u00e3o medidas compat\u00edveis com as promessas de campanha. Como s\u00e3o grupos minorit\u00e1rios e muitos vulner\u00e1veis, que precisam de certa prote\u00e7\u00e3o do Estado, logo come\u00e7ar\u00e3o os efeitos colaterais, principalmente a viol\u00eancia no campo, ainda mais com a libera\u00e7\u00e3o da posse de armas.<\/p>\n<p>Os Sert\u00f5es, de Euclides da Cunha, \u00a0foi livro de cabeceira dos integrantes do movimento tenentista. Relata o maior vexame pelo qual j\u00e1 passou o Ex\u00e9rcito brasileiro, bem como o maior massacre de civis que j\u00e1 protagonizou. O livro Abusado, de Caco Barcelos, que relata a vida de um traficante no Morro Dona Marta, no Rio de Janeiro, permite um paralelo entre duas situa\u00e7\u00f5es de absurda iniquidade social, uma rural e outra urbana, com um vi\u00e9s antropol\u00f3gico comum: a condi\u00e7\u00e3o humana. \u00c9 a\u00ed que est\u00e1 o xis do problema. Os \u00edndios sobrevivem porque n\u00e3o abrem m\u00e3o de sua identidade \u00e9tnica e cultural; os sem-terra existem porque n\u00e3o querem deixar o campo; os imigrantes chegam para fugir de situa\u00e7\u00e3o muito pior do que a que enfrentar\u00e3o por aqui. N\u00e3o h\u00e1 como resolver esses problemas sem eliminar suas causas, simples assim.<\/p>\n<p>E a Previd\u00eancia? N\u00e3o h\u00e1 um s\u00f3 integrante do governo que n\u00e3o diga que essa \u00e9 a prioridade da gest\u00e3o Bolsonaro. Onde est\u00e1 a dificuldade? A resist\u00eancia n\u00e3o vem da grande massa de trabalhadores do setor privado, mesmo que a idade m\u00ednima seja elevada para 65 anos. A resist\u00eancia vem das corpora\u00e7\u00f5es do Estado, principalmente dos estratos mais elevados, que n\u00e3o querem abrir m\u00e3o de privil\u00e9gios e tem o poder de paralisar o governo. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que Bolsonaro recuou de gra\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 idade m\u00ednima, perdendo assim um trunfo para a negocia\u00e7\u00e3o no Congresso. Procuradores, magistrados, militares, policiais, auditores-fiscais, as chamadas carreiras t\u00edpicas de Estado s\u00e3o contra a idade m\u00ednima e a paridade entre os dois sistemas, essa \u00e9 a verdade. Por isso, a proposta de reforma de Previd\u00eancia de Paulo Guedes pode morrer na praia. O que deve vingar \u00e9 a negociada por Michel Temer. Ainda assim, mitigada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Os \u00edndios n\u00e3o abrem m\u00e3o de sua identidade \u00e9tnica e cultural; os sem-terra n\u00e3o querem deixar o campo; os imigrantes chegam para fugir de situa\u00e7\u00e3o muito pior&#8221; O presidente Jair Bolsonaro j\u00e1 aterrissou, mas ainda enrola o paraquedas. 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