{"id":3378,"date":"2019-01-20T09:56:08","date_gmt":"2019-01-20T11:56:08","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=3378"},"modified":"2019-01-20T13:44:11","modified_gmt":"2019-01-20T15:44:11","slug":"nas-entrelinhas-a-montanha-magica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-a-montanha-magica\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: A montanha m\u00e1gica"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;A luta dentro do governo se parece com a disputa entre o humanista e enciclopedista Lodovico Settembrini e o jesu\u00edta totalit\u00e1rio Leo Naphta, personagens de Thomas Mann&#8221;<\/p>\n<p>Interessante a analogia feita por um dileto amigo, Arlindo Fernandes, entre a viagem do presidente Jair Bolsonaro a Davos, acompanhado do ministro da Economia, Paulo Guedes, e do chanceler Ernesto Araujo, e o famoso romance do escritor alem\u00e3o Thomas Mann que empresta o t\u00edtulo \u00e0 coluna, cuja hist\u00f3ria se passa exatamente naquela cidade dos Alpes, na Su\u00ed\u00e7a. Segundo ele, a luta instalada dentro do governo, assunto sobre o qual convers\u00e1vamos, se parece muito com a disputa entre dois personagens do romance, o humanista e enciclopedista Lodovico Settembrini e o jesu\u00edta totalit\u00e1rio Leo Naphta, que protagonizam um choque entre ideias liberais e conservadoras junto ao jovem engenheiro naval alem\u00e3o Hans Castorp.<\/p>\n<p>Mann come\u00e7ou a escrever A montanha m\u00e1gica em 1912, quando sua mulher Katharina Mann (Katia) foi internada num sanat\u00f3rio de Davos, para se curar de uma tuberculose. Tr\u00eas anos depois, indeciso sobre os rumos do romance, interrompeu a obra. Havia apoiado a Primeira Guerra Mundial, porque seria \u201ca guerra para terminar todas as guerras\u201d, e estava em conflito com o pr\u00f3prio irm\u00e3o Heinrich, tamb\u00e9m escritor, em rela\u00e7\u00e3o ao papel da Alemanha e \u00e0 pr\u00f3pria guerra. Thomas defendia uma Alemanha unificada, poderosa e zelosa de sua cultura; o irm\u00e3o desprezava o provincianismo autorit\u00e1rio e acr\u00edtico dos alem\u00e3es \u00e0 \u00e9poca. Ap\u00f3s a guerra, Thomas Mann termina de escrever seu romance, j\u00e1 com uma vis\u00e3o mais cr\u00edtica sobre tudo o que havia ocorrido; mais tarde, se posicionaria contra a II Guerra Mundial e a pr\u00f3pria Alemanha. O romance tamb\u00e9m reflete esse embate de ideias com o irm\u00e3o.<\/p>\n<p>O Sanat\u00f3rio Internacional de Berghof \u00e9 um estabelecimento fict\u00edcio, vizinho \u00e0 antiga e luxuosa casa de Repouso Schatzalp, que inspirou o escritor alem\u00e3o e, por isso, costuma receber levas de leitores-turistas fascinados com o livro. Virou hotel em 1954, como o Waldhotel, o antigo Waldsanatorium, onde Katia Mann, mulher de Thomas Mann, se internou em 1912. A visita que o romancista fez \u00e0 esposa por tr\u00eas meses o inspirou a escrever. Personagem principal do romance, Hans Castorp \u00e9 um jovem alem\u00e3o com os seus 20 anos, prestes a ter uma carreira naval em Hamburgo, sua cidade natal, que viaja para visitar seu primo tuberculoso Joachim Ziemssen, num sanat\u00f3rio em Davos.<\/p>\n<p>Durante sua longa perman\u00eancia, conhece personagens que representam um microcosmo do pensamento do pr\u00e9-guerra na Europa. Al\u00e9m de Setembrini e Naphta, a hedonista Mynher Peerperkorn e Madame Chauchat, por quem se apaixona. Ap\u00f3s sete anos, antes de ir para a guerra para morrer como um soldado an\u00f4nimo, Castorp descobre a arte, a cultura, a pol\u00edtica, a fragilidade humana e o amor; o tempo, a m\u00fasica, o nacionalismo, as quest\u00f5es sociais e as mudan\u00e7as. Todas as ideias do s\u00e9culo XX est\u00e3o presentes no romance, que \u00e9 considerado uma \u201cobra de forma\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Onde est\u00e1 a analogia? O italiano Lodovico Settembrini representa o humanismo e o iluminismo, atribui o progresso humano \u00e0 ci\u00eancia, defende a democracia liberal e acredita no livre-arb\u00edtrio. Leo Naphta, crist\u00e3o novo, interrompeu os estudos teol\u00f3gicos na Companhia de Jesus por causa da tuberculose, mas v\u00ea a f\u00e9 como o sentido da vida e das a\u00e7\u00f5es. Defende os atos sangrentos cometidos pela Igreja ao longo da hist\u00f3ria, v\u00ea na ci\u00eancia e nas explica\u00e7\u00f5es racionais os horrores das rebeli\u00f5es liberais, como a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa.<\/p>\n<p><strong>Disputa pol\u00edtica<\/strong><\/p>\n<p>De certa forma, essas duas tend\u00eancias est\u00e3o representadas no governo Bolsonaro, por alguns de seus integrantes: a primeira, pelos ministros Paulo Guedes (Economia), S\u00e9rgio Moro (Justi\u00e7a), Osmar Terra (Cidadania), Teresa Cristina (Agricultura), principalmente; a segunda, por Ernesto Araujo (Rela\u00e7\u00f5es Exteriores), Ricardo Velez-Rodriguez (Educa\u00e7\u00e3o) e Damares Alves (Mulher, Fam\u00edlia e Direitos Humanos), sobretudo. O predom\u00ednio de uma ou outra no governo depender\u00e1 muito do papel dos militares e da cabe\u00e7a de Bolsonaro, no exerc\u00edcio da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>A viagem a Davos pode fazer bem a Bolsonaro, pois l\u00e1 ser\u00e3o debatidas ideias novas para uma situa\u00e7\u00e3o de crise da ordem liberal, num mundo que passa por grandes transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e um enorme desajuste econ\u00f4mico e social entre as na\u00e7\u00f5es mais avan\u00e7adas, as emergentes e as que foram deixadas para tr\u00e1s. O grande sanat\u00f3rio geral descrito por Thomas Mann em seu romance parece estar de volta \u00e0 pol\u00edtica mundial, com sinais trocados.<\/p>\n<p>A partir de quarta-feira, 2.340 pessoas de 89 pa\u00edses, que comp\u00f5em a elite econ\u00f4mica e pol\u00edtica mundial, estar\u00e3o confinadas num centro de confer\u00eancias, cercadas de neve e seguran\u00e7as por todos os lados, durante cinco dias, at\u00e9 o dia 29. A guinada ultraliberal do Brasil na economia desperta interesse, o antiglobalismo da nova pol\u00edtica externa, um grande espanto. As estrelas do encontro ser\u00e3o a \u00cdndia, cujo avan\u00e7o econ\u00f4mico retira da mis\u00e9ria milh\u00f5es de cidad\u00e3os por ano; e a China, que assumiu a linha de frente da globaliza\u00e7\u00e3o. O presidente norte-americano Donald Trump, com a crista baixa por causa da crise com o Congresso norte-americano, n\u00e3o vai a Davos nem mandar\u00e1 representantes; a primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, balan\u00e7ando no cargo por causa do Brexit, tamb\u00e9m cancelou a participa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;A luta dentro do governo se parece com a disputa entre o humanista e enciclopedista Lodovico Settembrini e o jesu\u00edta totalit\u00e1rio Leo Naphta, personagens de Thomas Mann&#8221; Interessante a analogia feita por um dileto amigo, Arlindo Fernandes, entre a viagem do presidente Jair Bolsonaro a Davos, acompanhado do ministro da Economia, Paulo Guedes, e do chanceler Ernesto Araujo, e o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[36,4,92,113,9,3],"tags":[297,130,289,243,298],"class_list":["post-3378","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-economia","category-governo","category-literatura","category-militares","category-politica-2","category-politica","tag-araujo","tag-bolsonaro","tag-davos","tag-guedes","tag-mann"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3378","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3378"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3378\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3385,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3378\/revisions\/3385"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3378"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3378"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3378"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}