{"id":3455,"date":"2019-02-10T08:20:24","date_gmt":"2019-02-10T10:20:24","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=3455"},"modified":"2019-02-10T13:05:40","modified_gmt":"2019-02-10T15:05:40","slug":"nas-entrelinhas-o-coracao-das-trevas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-coracao-das-trevas\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O cora\u00e7\u00e3o das trevas"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;<em>O Brasil \u00e9 violento, ao contr\u00e1rio do que desejaria o &#8220;homem cordial\u201d de S\u00e9rgio Buarque de Holanda. A banaliza\u00e7\u00e3o da morte \u00e9 uma realidade, mesmo quando causa como\u00e7\u00e3o popular\u201d<\/em><\/p>\n<p>O mais famoso dos romances do ucraniano Joseph Conrad (1857-1942), todos escritos em ingl\u00eas, tem apenas 150 p\u00e1ginas e foi publicado em 1902, a primeira vez em tr\u00eas fasc\u00edculos: O cora\u00e7\u00e3o das trevas (Companhia das Letras), que serviu de inspira\u00e7\u00e3o para o filme Apocalipse Now, de Francis Ford Coppola. A bordo da escuna Nellie, o capit\u00e3o Charles Marlow aguarda uma mar\u00e9 vazante no Rio T\u00e2misa para seguir viagem e come\u00e7a a divagar sobre a hist\u00f3ria da Inglaterra e seu papel na \u00c1frica. Nesse contexto, conta sua viagem pelo rio Congo em busca do enigm\u00e1tico Sr. Kurtz, um traficante de marfim, no interior daquele continente.<\/p>\n<p>Marlow se depara com atrocidades e brutal explora\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o local, vive um choque entre os valores civilizat\u00f3rios das miss\u00f5es europeias e seus reais interesses mercantis na \u00c1frica. Os fins justificariam tudo; o bem se torna um disfarce do mal. O livro \u00e9 uma vis\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o humana na sua travessia inversa, da civiliza\u00e7\u00e3o para a barb\u00e1rie. No filme, entretanto, Coppola n\u00e3o adaptou o livro, se inspirou nos personagens e nos temas que Conrad aborda, mudando o contexto para a guerra do Vietn\u00e3, na fronteira com o Camboja.<\/p>\n<p>Interpretado por um obeso Marlon Brando, Kurtz \u00e9 um coronel do Exercito norte-americano que enlouqueceu, desertou e vive em uma fortaleza na selva. Martin Sheen interpreta o obstinado capit\u00e3o Willard, designado pelo alto-comando do Ex\u00e9rcito dos Estados Unidos para eliminar o coronel Kurtz, que se tornara um problema. No come\u00e7o do filme, em cena antol\u00f3gica, Robert Duvall comanda um ataque a\u00e9reo contra civis vietnamitas ao som da Cavalgada das Valqu\u00edrias, de Wagner. Tanto o livro quanto o filme foram libelos contra a banaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia e a l\u00f3gica de que os fins justificam os meios.<\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 uma sociedade violenta, ao contr\u00e1rio do que desejaria o \u201chomem cordial\u201d de S\u00e9rgio Buarque de Holanda. A banaliza\u00e7\u00e3o da morte \u00e9 uma realidade, mesmo quando causa grande como\u00e7\u00e3o popular. A trag\u00e9dia de Brumadinho, com151 mortos e 157 desaparecidos, \u00e9 um exemplo. N\u00e3o deveria ter ocorrido, se a trag\u00e9dia de Mariana tivesse servido de alerta para as autoridades e para a Vale, mineradora respons\u00e1vel pela barragem do C\u00f3rrego do Feij\u00e3o. Os fins justificaram os meios para os executivos da empresa. A morte de 10 garotos no Ninho do Urubu, o centro de treinamento do Flamengo, no Rio de Janeiro, \u00e9 outro exemplo dessa l\u00f3gica perversa. Os alojamentos n\u00e3o tinham alvar\u00e1 de funcionamento nem autoriza\u00e7\u00e3o dos bombeiros. O sonho dos garotos n\u00e3o justifica a gan\u00e2ncia de empres\u00e1rios e a ambi\u00e7\u00e3o de dirigentes esportivos.<\/p>\n<p><strong>Os b\u00e1rbaros<\/strong><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m no Rio de Janeiro, j\u00e1 s\u00e3o sete os mortos em consequ\u00eancia do temporal que atingiu a cidade na noite de quarta-feira: dois na Avenida Niemeyer, tr\u00eas em Barra de Guaratiba; um na Rocinha e outro no Vidigal. A prefeitura do Rio gasta menos do que deveria na conten\u00e7\u00e3o de encostas e nada faz para conter a ocupa\u00e7\u00e3o de \u00e1reas de risco. Os contratos de poda de \u00e1rvores deveriam passar por uma boa auditoria. As trag\u00e9dias de Brumadinho e Mariana derrubam a narrativa de que as licen\u00e7as ambientais atravancam o progresso do pa\u00eds; o mau tempo no Rio de Janeiro, como em outras localidades, tamb\u00e9m joga por terra as teorias de que n\u00e3o existem altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Voltemos \u00e0 alegoria de Conrad. Nela, os burocratas glorificam os neg\u00f3cios da companhia, mas n\u00e3o se arriscam a viver nos confins da \u00c1frica. N\u00e3o \u00e9 muito diferente do que acontece por aqui. Mas o risco que corremos \u00e9 ainda maior: podemos ir aos poucos para o cora\u00e7\u00e3o das trevas, sob a l\u00f3gica de que os fins justificam os meios. \u00c9 o caso, por exemplo, do combate ao tr\u00e1fico de drogas. A advert\u00eancia do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (\u201cN\u00e3o ande de fuzil, voc\u00ea vai morrer!\u201d), por exemplo, est\u00e1 sendo implementada. A comunidade do Fallet-Fogueteiro, em Santa Teresa, no Centro do Rio, amanheceu na sexta-feira com 13 pessoas mortas, depois de confronto com agentes do Comando de Opera\u00e7\u00f5es Especiais (COE). A opera\u00e7\u00e3o envolveu o Bope e o Batalh\u00e3o de Choque. Os traficantes estavam reunidos numa casa de fundos da comunidade na Rua Eliseu Visconde. Dois baleados foram levados ao Souza Aguiar; tr\u00eas traficantes em fuga foram presos numa van escolar. O padr\u00e3o de combate aos traficantes do Rio de Janeiro ser\u00e1 esse a\u00ed, com aplausos da opini\u00e3o p\u00fablica. Diria Marlow, depois de um apelo aos sentimentos altru\u00edstas: \u201cExterminem todos os b\u00e1rbaros!\u201d. \u00c9 o horror!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;O Brasil \u00e9 violento, ao contr\u00e1rio do que desejaria o &#8220;homem cordial\u201d de S\u00e9rgio Buarque de Holanda. 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