{"id":3459,"date":"2019-02-12T08:55:42","date_gmt":"2019-02-12T10:55:42","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=3459"},"modified":"2019-02-12T08:55:42","modified_gmt":"2019-02-12T10:55:42","slug":"nas-entrelinhas-o-trilema-das-reformas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-trilema-das-reformas\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O trilema das reformas"},"content":{"rendered":"<p><em>&#8220;O problema nesse cen\u00e1rio est\u00e1 na resist\u00eancia das corpora\u00e7\u00f5es e dos segmentos empresariais que n\u00e3o suportam a concorr\u00eancia&#8221;<\/em><\/p>\n<p>O economista Claudio Porto, fundador da Macroplan, batizou de trilema os cen\u00e1rios poss\u00edveis para o Brasil a m\u00e9dio prazo. Como aperitivo, faz uma compara\u00e7\u00e3o entre o que aconteceu no Brasil e na China nos \u00faltimos 40 anos, com base num resumo de Jorge Caldeira, no livro Hist\u00f3ria da Riqueza no Brasil (Esta\u00e7\u00e3o Brasil). Quando foi lan\u00e7ado o Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), na d\u00e9cada de 1970, o regime militar apostou no mercado interno e na constru\u00e7\u00e3o de uma economia autossuficiente em todas as \u00e1reas, uma vis\u00e3o aut\u00e1rquica e baluartista de pa\u00eds. Deu errado. A China apostou na globaliza\u00e7\u00e3o, no com\u00e9rcio exterior e na complementariedade. Resultado, em 1979, no final do governo Geisel, em d\u00f3lares de 2010, o Brasil tinha um PIB de 926 bilh\u00f5es e a China, de 327 bilh\u00f5es; em 2017, o PIB do Brasil chegou a 2, 3 trilh\u00f5es e o da China saltou para 10,1 trilh\u00f5es.<\/p>\n<p>As causas desse nosso desempenho est\u00e3o diagnosticadas: economia fechada, com baixa produtividade e muita inseguran\u00e7a; desigualdades muito altas, com 12 milh\u00f5es de desempregados e 30 milh\u00f5es abaixo da linha de pobreza; e sistema educacional de baixa qualidade, com o Brasil em 66\u00ba lugar entre 73 pa\u00edses no PISA (Programme for Internacional Stuident Assessment), atr\u00e1s de todos os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, com exce\u00e7\u00e3o do Peru e da Rep\u00fablica Dominicana. A grande preocupa\u00e7\u00e3o de Porto \u00e9 uma recidiva do padr\u00e3o de desenvolvimento da d\u00e9cada de 1970, cujo resultado seria a retomada do crescimento com agravamento das desigualdades.<\/p>\n<p>Para quem acompanha a pol\u00edtica em Bras\u00edlia, esse cen\u00e1rio n\u00e3o deve ser subestimado, porque pode resultar da converg\u00eancia de vari\u00e1veis que est\u00e3o fortemente presentes no governo Bolsonaro e no atual Congresso. As vari\u00e1veis positivas s\u00e3o o avan\u00e7o das reformas liberais no plano fiscal e previdenci\u00e1rio, com amplia\u00e7\u00e3o das concess\u00f5es e parcerias p\u00fablico-privadas. S\u00e3o fatores negativos: manuten\u00e7\u00e3o do \u201ccapitalismo de la\u00e7os\u201d e restri\u00e7\u00f5es aos privil\u00e9gios das corpora\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter parcial ou meramente simb\u00f3lico, com restri\u00e7\u00f5es \u00e0s pol\u00edticas sociais e intervencionismo econ\u00f4mico. Trocando em mi\u00fados, nesse rumo, a economia pode crescer sem infla\u00e7\u00e3o e baixa produtividade, a taxas entre 2,2% e 1,6% ao ano, com queda na renda m\u00e9dia das fam\u00edlias na base da pir\u00e2mide.<\/p>\n<p>H\u00e1 mais dois cen\u00e1rios poss\u00edveis. O melhor \u00e9 a globaliza\u00e7\u00e3o inclusiva, cujo maior obst\u00e1culo aparente hoje \u00e9 a nova pol\u00edtica externa. Al\u00e9m de ajuste fiscal estruturante, desregulamenta\u00e7\u00e3o, privatiza\u00e7\u00f5es e parcerias p\u00fablico-privadas, o Brasil precisa de um ambiente de seguran\u00e7a p\u00fablica e jur\u00eddica, mais foco na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, prote\u00e7\u00e3o social aos vulner\u00e1veis e uma pol\u00edtica trabalhista que possibilite investimentos e gere mais empregos. Assim, poderia crescer em 4% e 3,4% ao ano. O problema nesse cen\u00e1rio est\u00e1 na resist\u00eancia das corpora\u00e7\u00f5es e dos segmentos empresariais que n\u00e3o suportam a concorr\u00eancia.<\/p>\n<p>O pior cen\u00e1rio \u00e9 o pacto perverso do populismo com o corporativismo, que tenta conciliar as demandas da popula\u00e7\u00e3o com as das corpora\u00e7\u00f5es. Nesse cen\u00e1rio, as reformas ser\u00e3o mitigadas no Congresso, com solu\u00e7\u00f5es de curto prazo para a crise fiscal, inclusive na reforma da Previd\u00eancia. Esse \u00e9 um horizonte de crescimento pr\u00f3ximo do zero, depois de mais um voo de galinha.<\/p>\n<p><strong>Boechat, 66 anos<\/strong><\/p>\n<p>Conheci Ricardo Boechat em Niter\u00f3i, no come\u00e7o dos anos 1970, quando fui trabalhar no jornal O Fluminense e estudar ci\u00eancias sociais na Universidade Federal Fluminense. Ele era rep\u00f3rter da coluna do Ibrahin Sued, no jornal O Globo. \u00c9ramos jovens militantes do antigo PCB e compartilhamos, em 1975, a ang\u00fastia de ver nossos \u201cassistentes\u201d presos e a gratid\u00e3o de saber que nenhum deles \u2014 nem Jos\u00e9 Otto de Oliveira nem A\u00edrton Albuquerque Queiroz, respectivamente, de quem receb\u00edamos o jornal clandestino Voz Oper\u00e1ria \u2014 havia nos denunciado. Gra\u00e7as a isso, pudemos prosseguir nossas vidas profissionais.<\/p>\n<p>Nos cruz\u00e1vamos, \u00e0s vezes, na barca Rio-Niter\u00f3i, at\u00e9 o dia em que Boechat resolveu comprar uma moto e atravessar a ponte por meios pr\u00f3prios. Por causa da minha vida cigana, nosso \u00faltimo encontro foi na reda\u00e7\u00e3o do jornal O Globo. Ele era colunista e eu, que trabalhava na sucursal de S\u00e3o Paulo, de passagem pelo Rio de Janeiro, fui \u00e0 reda\u00e7\u00e3o visitar Ali Kamel, que me resgatou para a grande imprensa, e l\u00e1 o reencontrei, como a outros velhos amigos comuns, entre os quais meu xar\u00e1 Lu\u00eds Carlos Cascon, ent\u00e3o chefe de reportagem, tamb\u00e9m de Niter\u00f3i. Depois, tivemos apenas algumas conversas por telefone. Boechat era tudo isso que os amigos est\u00e3o falando. Destaco, por\u00e9m, tr\u00eas qualidades do seu car\u00e1ter: a coragem, a integridade e o amor ao pr\u00f3ximo. Mando aqui meus p\u00easames para Veruska, sua mulher, colega jornalista que conheci em Vit\u00f3ria, e para os demais parentes e amigos. For\u00e7a a\u00ed!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;O problema nesse cen\u00e1rio est\u00e1 na resist\u00eancia das corpora\u00e7\u00f5es e dos segmentos empresariais que n\u00e3o suportam a concorr\u00eancia&#8221; O economista Claudio Porto, fundador da Macroplan, batizou de trilema os cen\u00e1rios poss\u00edveis para o Brasil a m\u00e9dio prazo. 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