{"id":3476,"date":"2019-02-17T08:46:02","date_gmt":"2019-02-17T11:46:02","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=3476"},"modified":"2019-02-17T09:45:26","modified_gmt":"2019-02-17T12:45:26","slug":"nas-entrelinhas-sargento-de-milicias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-sargento-de-milicias\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Sargento de mil\u00edcias"},"content":{"rendered":"<p>\u201c<em>O colapso dos esquemas de corrup\u00e7\u00e3o pol\u00edtica tradicionais fortaleceu o poder pol\u00edtico das mil\u00edcias fluminenses, que agora rondam o Pal\u00e1cio do Planalto\u201d<\/em><\/p>\n<p>O romance Mem\u00f3rias de um sargento de mil\u00edcias, de Manuel Ant\u00f4nio de Almeida, publicado integralmente em 1854, \u00e9 um manual da picardia caracter\u00edstica dos cariocas e fluminenses. Faz uma esp\u00e9cie de \u201cfusion\u201d identit\u00e1ria entre classe m\u00e9dia e as camadas populares do Rio de Janeiro, na qual tra\u00e7a o arqu\u00e9tipo da malandragem. Foge das caracter\u00edsticas do romantismo brasileiro da \u00e9poca, porque seu personagem principal, Leonardo, \u00e9 um cara muito esperto, que se torna sargento gra\u00e7as \u00e0 prote\u00e7\u00e3o de seu padrinho, Major Vidigal. N\u00e3o \u00e9 um her\u00f3i nativista ou patri\u00f3tico, capaz de servir de paradigma de nobres costumes para constru\u00e7\u00e3o da identidade nacional, como outros personagens da literatura da \u00e9poca.<\/p>\n<p>Como retrata a vida no Rio de Janeiro por ocasi\u00e3o da chegada de D. Jo\u00e3o VI e da corte portuguesa, em 1808, foge \u00e0 regra das hist\u00f3rias baseadas no cotidiano das elites cortes\u00e3s, embora tamb\u00e9m fa\u00e7a a cr\u00edtica do comportamento delas. \u00c9 uma mistura de romance picaresco e cr\u00f4nica dos costumes, cuja originalidade e import\u00e2ncia aumentam com o tempo, porque mostra caracter\u00edsticas identit\u00e1rias que se afirmaram como permanentes ao passar dos anos. Coube ao acad\u00eamico Ant\u00f4nio C\u00e2ndido destacar a import\u00e2ncia liter\u00e1ria do romance escrito em forma de folhetim e publicado originalmente no Correio Mercantil, entre 1852 e 1853.<\/p>\n<p>No ensaio Dial\u00e9tica da malandragem, um marco da cr\u00edtica liter\u00e1ria no Brasil, Ant\u00f4nio C\u00e2ndido mostra que o romance de Manoel Ant\u00f4nio de Almeida estabelece um nexo entre a ordem e a desordem, a primeira representada pelo Major Vidigal; a segunda, por Leonardo, mas ambos oscilam entre um polo e outro: ordem e desordem se articulam solidamente, mas \u201co mundo hierarquizado na apar\u00eancia se revela essencialmente subvertido, quando os extremos se tocam\u201d. Manuel Ant\u00f4nio de Almeida n\u00e3o faz ju\u00edzo de valor sobre os personagens, cujas a\u00e7\u00f5es certas e erradas se misturam. Na sua obra, como na vida, o bem e o mal se contrabalan\u00e7am a todo instante.<\/p>\n<p><b>Entre o bem e o mal<\/b><\/p>\n<p>\u00c9 nesse universo que os extremos s\u00e3o mitigados um pelo outro. N\u00e3o existe moral no livro, somente as a\u00e7\u00f5es e resultados. A leitura do romance ajuda a compreender a complexidade do problema das mil\u00edcias do Rio de Janeiro, quando nada porque sua origem s\u00e3o as entranhas da for\u00e7a policial criada por Dom Jo\u00e3o VI logo ap\u00f3s chegar ao Brasil, para manter a ordem na nova sede de seu imp\u00e9rio. N\u00e3o h\u00e1 rebeli\u00e3o pol\u00edtica ou guerra na hist\u00f3ria do Brasil, desde 1809, na qual a Pol\u00edcia Militar do Rio de Janeiro n\u00e3o tenha estado presente.<\/p>\n<p>O outro lado da moeda \u00e9 o achaque, a contraven\u00e7\u00e3o e a venda de servi\u00e7os de prote\u00e7\u00e3o por elementos ligados ou oriundos da Pol\u00edcia Militar fluminense. No caso do Rio de Janeiro, o colapso dos esquemas de corrup\u00e7\u00e3o pol\u00edtica tradicionais, que operavam na administra\u00e7\u00e3o direta e nas estatais, momentaneamente, fortaleceu o poder pol\u00edtico das mil\u00edcias, que agora rondam o Pal\u00e1cio do Planalto. Predominantemente formadas por ex-policiais militares, operam na economia informal, principalmente na presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os de toda ordem: do transporte de van ao gatonet, do fornecimento de g\u00e1s \u00e0 cobran\u00e7a de agiotas, da prote\u00e7\u00e3o aos bicheiros \u00e0 partilha do tr\u00e1fico de drogas, da recepta\u00e7\u00e3o de cargas coligadas ao contrabando, da grilagem de terra aos condom\u00ednios irregulares, dos servi\u00e7os de seguran\u00e7a \u00e0s execu\u00e7\u00f5es. N\u00e3o existe protesto de t\u00edtulo em cart\u00f3rio nessa economia informal, a cobran\u00e7a de d\u00edvidas \u00e9 feita \u00e0 bala. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que os \u00edndices de investiga\u00e7\u00e3o de homic\u00eddios s\u00e3o baix\u00edssimos. As mil\u00edcias do Rio de Janeiro s\u00e3o hoje uma tremenda for\u00e7a pol\u00edtica e eleitoral, cujo poderio n\u00e3o deve ser subestimado.<\/p>\n<p><b>Trairagem<\/b><\/p>\n<p>O secret\u00e1rio-geral da Presid\u00eancia, Gustavo Bebianno, perdeu o cargo porque teria vazado informa\u00e7\u00f5es e fotos sobre as rela\u00e7\u00f5es do cl\u00e3 Bolsonaro com o ex-capit\u00e3o do Bope Adriano Magalh\u00e3es da N\u00f3brega, acusado de ser um chef\u00e3o do \u201cEscrit\u00f3rio do crime\u201d, grupo de exterm\u00ednio das mil\u00edcias do Rio de Janeiro sob investiga\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF). Bebianno \u00e9 aliado de Paulo Marinho, primeiro suplente de Fl\u00e1vio, que caiu em desgra\u00e7a antes da posse, e do general Hamilton Mour\u00e3o, vice-presidente da Rep\u00fablica, quem mais tentou mant\u00ea-lo no cargo. No Pal\u00e1cio do Planalto, h\u00e1 muita teoria da conspira\u00e7\u00e3o na suposta trai\u00e7\u00e3o de Bebianno a Bolsonaro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO colapso dos esquemas de corrup\u00e7\u00e3o pol\u00edtica tradicionais fortaleceu o poder pol\u00edtico das mil\u00edcias fluminenses, que agora rondam o Pal\u00e1cio do Planalto\u201d O romance Mem\u00f3rias de um sargento de mil\u00edcias, de Manuel Ant\u00f4nio de Almeida, publicado integralmente em 1854, \u00e9 um manual da picardia caracter\u00edstica dos cariocas e fluminenses. 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