{"id":35,"date":"2016-01-10T16:36:06","date_gmt":"2016-01-10T18:36:06","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=35"},"modified":"2016-02-05T16:31:59","modified_gmt":"2016-02-05T18:31:59","slug":"no-inferno-de-dante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/no-inferno-de-dante\/","title":{"rendered":"No Inferno de Dante"},"content":{"rendered":"<p><em>Uma advert\u00eancia que poderia estar na porta do Congresso ou do Pal\u00e1cio do Planalto: \u201cDeixai toda esperan\u00e7a, \u00f3 v\u00f3s que entrais\u201d<\/em><\/p>\n<p>Protagonizada por verdadeiros mortos-vivos, \u00a0em raz\u00e3o da Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato, a pol\u00edtica brasileira est\u00e1 vivendo uma esp\u00e9cie de Inferno de Dante, inclusive agora, com as recentes revelac\u00f5es sobre as mensagens do empreiteiro L\u00e9o Pinheiro, ex-presidente da OAS, pela Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato. A descri\u00e7\u00e3o de Dante \u00e9 uma representa\u00e7ao dos mortos da antiga Gr\u00e9cia em plena Idade M\u00e9dia, per\u00edodo em que o cristianismo era atazanado por almas penadas e dem\u00f4nios que habitavam suas profundezas em meio ao fogo e \u00e0 expia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse mundo fantasmag\u00f3rico foi descrito por Dante Alighieri entre 1304 e 1321, na primeira parte da \u201cCommedia\u201d, \u00a0conjunto de 100 cantos \u00e9picos escritos em dialeto toscano, divididos em tr\u00eas volumes \u2014 Inferno, Purgat\u00f3rio e Para\u00edso \u2014, que se tornaram conhecidos como \u201cA Divina Com\u00e9dia\u201d a partir do s\u00e9culo XVI. Alighieri nasceu em Floren\u00e7a, em 1265. Dedicou sua vida \u00e0 pol\u00edtica. No ex\u00edlio, escreveu esse cl\u00e1ssico da literatura, que contradiz a trag\u00e9dia grega porque come\u00e7a com um \u00a0grande sofrimento e tem um final feliz.<\/p>\n<p>O foco do poema \u00e9 a busca de Dante por sua amada Beatriz, que come\u00e7a pelo inferno, cuja descri\u00e7\u00e3o tem tudo a ver com a crise pol\u00edtica e os personagens investigados pela Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato. O inferno de Dante \u00e9 composto por nove c\u00edrculos, que se diferenciam por puni\u00e7\u00f5es, danados, ambientes e dem\u00f4nios. Seu companheiro de viagem \u00e9 Virg\u00edlio, autor de Eneida, o \u00e9pico romano. \u00a0Logo na chegada do Inferno se deparam com uma advert\u00eancia que poderia estar na porta do Congresso ou do Pal\u00e1cio do Planalto: \u201cDeixai toda esperan\u00e7a, \u00f3 v\u00f3s que entrais\u201d.<\/p>\n<p>No primeiro c\u00edrculo do inferno, chamado Limbo, est\u00e3o aqueles que n\u00e3o foram batizados e os que nasceram antes de Jesus Cristo. Digamos que s\u00e3o os pol\u00edticos de oposi\u00e7\u00e3o que tamb\u00e9m receberam doa\u00e7\u00f5es legais das empreiteiras envolvidas na Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato ou estiveram no poder antes da elei\u00e7\u00e3o do ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva.<\/p>\n<p>Do segundo ao quinto c\u00edrculo, encontramos os pecados cometidos sem culpa, pela ingenuidade ou ignor\u00e2ncia. Min\u00f3s, \u00a0o juiz do inferno, escuta as confiss\u00f5es de cada pecador e pune os luxuriosos, que s\u00e3o jogados num turbilh\u00e3o de vento violento. Podemos classificar nesse c\u00edrculo os eleitores da presidente Dilma Rousseff e alguns de seus apoiadores arrependidos.<\/p>\n<p>No terceiro c\u00edrculo, C\u00e9rbero espanca os gulosos jogados na lama sob uma chuva incandescente. Digamos que a\u00ed esteja a chamada nova classe m\u00e9dia, que apostou na ascens\u00e3o social via empreendedorismo e quebrou. Na entrada do quarto c\u00edrculo, o dem\u00f4nio Plut\u00e3o defende o local e pune os \u00e1varos e pr\u00f3digos, digamos, tanto os cr\u00e9dulos que perderam dinheiro guardando-o na poupan\u00e7a como aqueles que abusaram do cart\u00e3o de cr\u00e9dito, que agora empurram pesos enormes como castigo.<\/p>\n<p>Dante e Virg\u00edlio descem mais e chegam ao rio de sangue fervente chamado Estige, no quinto c\u00edrculo infernal: aqui s\u00e3o castigados os irados. S\u00e3o os petistas empedernidos que ainda defendem o partido e o governo, fervorosamente, nas ruas e nas redes sociais.<\/p>\n<p><strong>Os culpados<\/strong><\/p>\n<p>Fl\u00e9gias, da mitologia grega, possibilita a travessia de Dante e Virg\u00edlio para o sexto c\u00edrculo do inferno, onde esta a cidade de Dite, uma esp\u00e9cie de transi\u00e7\u00e3o dos pecados sem culpa para aqueles realizados com consci\u00eancia. Aqui s\u00e3o queimados os hereges, dentro de tumbas desprovidas de tampas. S\u00e3o os petistas e aliados que est\u00e3o se afastando do governo e do partido, por discordar h\u00e1 tempos do rumo das coisas ou porque resolveram pular do barco enquanto h\u00e1 tempo.<\/p>\n<p>No s\u00e9timo c\u00edrculo, se deparam com o Minotauro de Creta e com o rio Flegetonte. O minotauro \u00e9 o guardi\u00e3o dos tr\u00eas vales, onde est\u00e3o os culpados por viol\u00eancia. No primeiro est\u00e3o os homicidas, no segundo os suicidas e no terceiro os violentos contra Deus. Em linguagem figurada, \u00e9 claro, respectivamente, seriam os quadros do PT que fracassaram na condu\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas; os parlamentares que ainda p\u00f5em a cara a tapa pra defender o governo; e os sindicalistas da CUT e l\u00edderes dos movimentos sociais que lutam para preservar as benesses do poder.<\/p>\n<p>Quando Dante e Virg\u00edlio chegam ao oitavo c\u00edrculo ou Malebolge, encontram os fraudulentos. S\u00e3o sedutores, aduladores, simon\u00edacos, adivinhos, corruptos, hip\u00f3critas, ladr\u00f5es do sagrado, maus conselheiros, semeadores da disc\u00f3rdia e os alquimistas. Nessa turma est\u00e3o os envolvidos na Lava Jato e os que deram cobertura pol\u00edtica para as falcatruas: diretores da Petrobras, lobistas, doleiros, ministros e ex-ministros, governadores, senadores e deputados suspeitos de operar ou de se beneficiar do esquema de corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O nono c\u00edrculo est\u00e1 na parte mais funda, onde s\u00e3o punidos os traidores. Aqui des\u00e1guam os rios Estige, Flegetonte e Aqueronte, que formam o rio Cocito. \u00c9 a \u00fanica parte do inferno que \u00e9 fria ao extremo. Nela est\u00e1 L\u00facifer, aprisionado da cintura para baixo, com suas grandiosas asas e tr\u00eas cabe\u00e7as. Cada boca mastiga um dos traidores: Judas, Brutus e C\u00e1ssio. At\u00e9 agora h\u00e1 40 delatores na Lava-Jato. Esse, por\u00e9m, pode ser o lugar dos que fizeram um pacto com o diabo, como Fausto de Goethe (Mefistoles), mas essa j\u00e1 \u00e9 outra obra liter\u00e1ria. \u00c9 outro dem\u00f4nio!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma advert\u00eancia que poderia estar na porta do Congresso ou do Pal\u00e1cio do Planalto: \u201cDeixai toda esperan\u00e7a, \u00f3 v\u00f3s que entrais\u201d Protagonizada por verdadeiros mortos-vivos, \u00a0em raz\u00e3o da Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato, a pol\u00edtica brasileira est\u00e1 vivendo uma esp\u00e9cie de Inferno de Dante, inclusive agora, com as recentes revelac\u00f5es sobre as mensagens do empreiteiro L\u00e9o Pinheiro, ex-presidente da OAS, pela Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato. 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