{"id":3507,"date":"2019-02-26T08:14:13","date_gmt":"2019-02-26T11:14:13","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=3507"},"modified":"2019-02-26T08:14:13","modified_gmt":"2019-02-26T11:14:13","slug":"nas-entrelinhas-a-cabeca-de-maduro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-a-cabeca-de-maduro\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas:  A cabe\u00e7a de Maduro"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;<em>A\u00a0crise venezuelana estava se transformando no epicentro da disputa dos Estados Unidos com a R\u00fassia e a China, muito distante das fronteiras quentes em que ocorre desde a guerra fria\u201d\u00a0<\/em><\/p>\n<p>A queda do presidente da Venezuela, N\u00edcolas Maduro, \u00e9 uma esp\u00e9cie de trof\u00e9u para a nova pol\u00edtica externa do governo Jair Bolsonaro. Traduziria no plano internacional a ruptura po- l\u00edtica que sua elei\u00e7\u00e3o representou. Ocorre que a pol\u00edtica externa brasileira, desde o bar\u00e3o do Rio Branco, \u00e9 uma pol\u00edtica de Estado. Quando tudo parecia que a disjuntiva entre uma coisa e outra era um fato consumado, a realidade come\u00e7ou a se impor com toda a for\u00e7a \u00e0 nossa diplomacia. O Brasil meteu a colher na pol\u00edtica interna da Venezuela como nunca antes, pero no mucho. Os militares cuidaram de jogar um balde de \u00e1gua fria na estrat\u00e9gia de confronto com Maduro.<\/p>\n<p>H\u00e1 raz\u00f5es para isso. O Brasil n\u00e3o est\u00e1 preparado para uma guerra de verdade e n\u00e3o tem uma cultura militar intervencionista. Uma coisa \u00e9 mobilizar as For\u00e7as Armadas e a popula\u00e7\u00e3o para se defender de uma agress\u00e3o. Outra coisa, muito diferente, \u00e9 participar de uma interven\u00e7\u00e3o militar ou mesmo apoi\u00e1-la num pa\u00eds vizinho. A paz nas nossas fronteiras da Amaz\u00f4nia foi uma conquista diplom\u00e1tica, n\u00e3o foi um estatuto estabelecido militarmente, com exce\u00e7\u00e3o do Acre. Os militares sabem muito bem disso, assim como o Itamaraty, mas parece que foi preciso o vice-presidente Hamilton Mour\u00e3o, que foi adido militar brasileiro na Venezuela, explicar aos parceiros da nova diplomacia do chanceler Ernesto Ara\u00fajo que nosso alinhamento aos Esta- dos Unidos tem um limite.<\/p>\n<p>Ontem, durante o encontro do Grupo de Lima, em Bogot\u00e1 (Col\u00f4mbia), Mour\u00e3o afirmou que o governo brasileiro defende uma solu\u00e7\u00e3o \u201csem qualquer medida extrema\u201d. O Grupo de Lima foi criado em 2017, por iniciativa do governo peruano, com o objetivo de pressionar Maduro a restabelecer a democracia na Venezuela. Al\u00e9m de Brasil e Peru, Argentina, Canad\u00e1, Co- l\u00f4mbia, Costa Rica, Chile, Guatemala, Guiana, Honduras, M\u00e9xico, Panam\u00e1 e Paraguai integram o grupo: \u201cO Brasil acredita firmemente que \u00e9 poss\u00edvel devolver a Venezuela ao conv\u00edvio democr\u00e1tico das Am\u00e9ricas sem qualquer medida extrema que nos confunda com aquelas na\u00e7\u00f5es que ser\u00e3o julgadas pela his- t\u00f3ria como agressoras, invasoras e violadoras das soberanias nacionais\u201d, disse Mour\u00e3o.<\/p>\n<p>Em termos geopol\u00edticos, para ser bem claro, a crise venezuelana estava se transformando no epicentro de uma disputa dos Estados Unidos com a R\u00fassia e a China, muito distante das fronteiras quentes em que historicamente ela ocorre desde a guerra fria. H\u00e1 muito petr\u00f3leo em jogo, como no Oriente M\u00e9dio, e tamb\u00e9m uma esp\u00e9cie de simetria com os casos da Ucr\u00e2nia e da S\u00edria, onde a R\u00fassia teve seus interesses estrat\u00e9gicos amea\u00e7ados pelos Estados Unidos. A guerra comercial com a China p\u00f5e mais lenha na fogueira. Para os advers\u00e1rios de Trump, a crise ve-nezuelana \u00e9 uma esp\u00e9cie de feiti\u00e7o contra o feiticeiro.<\/p>\n<p><strong>Interven\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nOs militares brasileiros n\u00e3o est\u00e3o nessa, n\u00e3o v\u00e3o riscar um palito de f\u00f3sforo perto de um barril de p\u00f3lvora. Pode ser que Maduro caia mais rapidamente do que se imagina, mas o fato \u00e9 que ele tem todas as condi\u00e7\u00f5es de se manter no poder por mais tempo com o apoio das For\u00e7as Armadas venezuelanas e a ajuda da R\u00fassia e da China, a n\u00e3o ser que haja uma interven\u00e7\u00e3o militar norte- americana que arrase suas instala\u00e7\u00f5es e tropas militares.<br \/>\nQual seria a repercuss\u00e3o disso nos demais pa\u00edses do continente? Seria a volta da pol\u00edtica de \u201cBig Stick\u201d do presidente Theo-dore Roosevelt, como corol\u00e1rio da Doutrina Monroe, segundo a qual os Estados Unidos deveriam exercer a sua pol\u00edtica externa como forma de deter as interven\u00e7\u00f5es europeias.<\/p>\n<p>Por ironia, o canal do Panam\u00e1, constru\u00eddo para consolidar a hegemonia norte- americana, hoje serve aos interesses comerciais chineses, que ainda pretendem construir na Nicar\u00e1gua um canal tr\u00eas vezes maior, com 80km, ao custo de US$ 40 bilh\u00f5es (cerca de R$ 85 bi- lh\u00f5es), aproximadamente quatro vezes o PIB nicaraguense.\u00a0A escalada intervencionista protagonizada pelos Estados Unidos, a partir da ajuda humanit\u00e1ria articulada pelo \u201cpresi-dente interino\u201d Juan Guaid\u00f3, que atravessou a fronteira para a Col\u00f4mbia com objetivo de liderar a entrada de caminh\u00f5es com alimentos e kits de primeiros socorros, \u00e9 uma jogada de alto risco. Se foi um erro ou n\u00e3o, s\u00f3 saberemos quando tentar voltar, mas o fato \u00e9 que a maioria dos generais est\u00e1 com Maduro.<\/p>\n<p>O caminho para supera\u00e7\u00e3o do problema n\u00e3o \u00e9 a interven\u00e7\u00e3o militar. \u00c9 a negocia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no plano internacional e no plano interno, com a convoca\u00e7\u00e3o de novas elei\u00e7\u00f5es e uma anistia geral. O comprometimento com a corrup\u00e7\u00e3o e o tr\u00e1fico de drogas por parte dos l\u00edderes militares da Venezuela s\u00e3o um complicador para qualquer acordo que n\u00e3o lhes garanta a uma certa impunidade. \u00c9 a\u00ed que est\u00e1 o grande entrave \u00e0 sa\u00edda de Maduro, por mais que sua cabe\u00e7a tenha sido posta a pr\u00eamio<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;A\u00a0crise venezuelana estava se transformando no epicentro da disputa dos Estados Unidos com a R\u00fassia e a China, muito distante das fronteiras quentes em que ocorre desde a guerra fria\u201d\u00a0 A queda do presidente da Venezuela, N\u00edcolas Maduro, \u00e9 uma esp\u00e9cie de trof\u00e9u para a nova pol\u00edtica externa do governo Jair Bolsonaro. 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