{"id":3525,"date":"2019-03-03T08:01:59","date_gmt":"2019-03-03T11:01:59","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=3525"},"modified":"2019-03-03T08:01:59","modified_gmt":"2019-03-03T11:01:59","slug":"nas-entrelinhas-a-festa-imoral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-a-festa-imoral\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: A festa imoral"},"content":{"rendered":"<p><em>&#8220;De onde vem tanta energia? N\u00e3o \u00e9 das academias de gin\u00e1stica, \u00e9 de certas contradi\u00e7\u00f5es entre a revolu\u00e7\u00e3o nos costumes, que a liberdade proporciona, e os preconceitos arraigados e discrimina\u00e7\u00f5es&#8221;<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 muito tempo, n\u00e3o t\u00ednhamos um carnaval como o deste ano, em que a alma transgressora dos cidad\u00e3os, liberada pela revolu\u00e7\u00e3o dos costumes, se choca frontalmente com a pol\u00edtica oficial, que prop\u00f5e uma esp\u00e9cie de contrarrevolu\u00e7\u00e3o cultural. O carnaval \u00e9 imoral, digamos, assim, no sentido mais conservador e religioso do termo. A prop\u00f3sito dessa contradi\u00e7\u00e3o, a cultura judaica, t\u00e3o perseguida, tem muita coisa a nos ensinar. Para o rabino Nilton Bonder, a \u201calma\u201d seria nada mais que o componente consciente da necessidade de evolu\u00e7\u00e3o, a parcela de n\u00f3s capaz de romper com os padr\u00f5es e com a moral. Sua natureza seria, portanto, transgressora, por n\u00e3o corroborar os interesses da moral.<\/p>\n<p>Um dos exemplos utilizados pelo rabino para explicar a tese, no livro a Alma Imoral, que serviu de roteiro para o mon\u00f3logo interpretado por Clarice Niskier, de muito sucesso, \u00e9 justamente a rela\u00e7\u00e3o corpo-alma. Ao longo dos anos, a cultura afirmou ser o corpo a fonte do imoral e a alma, do moral. O primeiro ato de Ad\u00e3o e Eva como seres conscientes foi cobrir o corpo nu, dando a no\u00e7\u00e3o de indec\u00eancia e imoralidade do corpo, frente ao despertar da alma supostamente moral. No entanto, \u00e9 justamente o contr\u00e1rio. A alma \u00e9 imoral e n\u00e3o o corpo.<\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o tem tr\u00eas eixos: a fam\u00edlia, os contratos sociais e as cren\u00e7as. A primeira foi moldada para atender \u00e0s necessidades reprodutivas; os segundos, para preserva\u00e7\u00e3o da vida humana; as terceiras, para respaldar tudo isso no plano ideol\u00f3gico. O processo civilizat\u00f3rio \u00e9 a transgress\u00e3o das tradi\u00e7\u00f5es, ultrapassando-as, gera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s gera\u00e7\u00e3o, mas preserva esses objetivos vitais.<\/p>\n<p>No teatro, Clarice Niskier apresenta o mon\u00f3logo em estado de nudez real e, ao mesmo tempo, simb\u00f3lica. A alma desnuda, em conflito com o corpo vestido, coloca em xeque dogmas religiosos. \u201cA psicologia evolucionista aponta o corpo como o gerador da moralidade. \u00c9 justamente para dar conta de seus interesses de preserva\u00e7\u00e3o que a moralidade \u00e9 engendrada. Esta moralidade \u00e9 oposta \u00e0s for\u00e7as transgressoras da alma. Assim, a alma vive do que a sociedade reconhece como imoral\u201d, argumenta o rabino.<\/p>\n<p><strong>Quarta-feira de Cinzas<\/strong><br \/>\nToda nudez ser\u00e1 castigada, diria Nelson Rodrigues, menos no carnaval. \u00c9 impressionante o ressurgimento do carnaval de rua em todo o pa\u00eds como uma festa de grandes multid\u00f5es. J\u00e1 era uma tradi\u00e7\u00e3o no Rio de Janeiro, Salvador e Recife\/Olinda, mas agora se transformou em megaevento popular em outras cidades, como S\u00e3o Paulo, cujo carnaval j\u00e1 n\u00e3o deve nada a ningu\u00e9m, e Bras\u00edlia, cujos blocos tomam conta do Plano Piloto desde a semana passada. De onde vem tanta energia? N\u00e3o \u00e9 das academias de gin\u00e1stica, \u00e9 da tal alma imoral. E de certas contradi\u00e7\u00f5es entre a revolu\u00e7\u00e3o nos costumes, que a liberdade proporciona, e os preconceitos arraigados e discrimina\u00e7\u00f5es que as pessoas sofrem no cotidiano, pelos mais diversos motivos. O carnaval as liberta.<\/p>\n<p>O antrop\u00f3logo Roberto Da Matta, h\u00e1 mais de 40 anos, nos demonstrou que o carnaval \u00e9 um ritual que vira pelo avesso as tradi\u00e7\u00f5es de nossa sociedade: o povo organiza a festa, os pobres se vestem de nobres, as mulheres aparecem irreverentes e desnudas, troca-se o dia pela noite, a rela\u00e7\u00e3o com o sobrenatural e o imagin\u00e1rio se materializa nas ruas por meio das pessoas comuns.<\/p>\n<p>\u201cCarnavais, malandros e her\u00f3is\u201d tamb\u00e9m nos mostra porque a festa tem que acontecer, apesar das trag\u00e9dias recentes, como as de Brumadinho e do Ninho do Urubu. Com seus pierr\u00f4s e colombinas, porta-bandeiras e mestres-salas, monstros e palha\u00e7os, marinheiros e melindrosas, pinguins e batmans, super-homens e mulheres-maravilha, o carnaval \u00e9 o abre-alas da cr\u00edtica social e das mudan\u00e7as dos costumes. Na Quarta-feira de Cinzas, a festa acaba e tudo volta ao normal, mas \u00e9 sempre bom parar para pensar no recado dos foli\u00f5es. Eles mostram o que se passa na alma das ruas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;De onde vem tanta energia? 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