{"id":3530,"date":"2019-03-07T07:56:32","date_gmt":"2019-03-07T10:56:32","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=3530"},"modified":"2019-03-07T07:56:32","modified_gmt":"2019-03-07T10:56:32","slug":"nas-entrelinhas-a-chuva-dourada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-a-chuva-dourada\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: A chuva dourada"},"content":{"rendered":"<p><em>&#8220;A postagem de um v\u00eddeo obsceno postado por Bolsonaro virou chacota na imprensa mundial, por\u00e9m, mobilizou os partid\u00e1rios do presidente&#8221;<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Desde \u201cPelo telefone\u201d (Donga), composta em 1916, no quintal da casa da Tia Ciata, na Pra\u00e7a Onze, a rela\u00e7\u00e3o do samba e do carnaval com os bons costumes e a ordem institu\u00edda foi tensa. A letra original do primeiro samba, \u201cO chefe da folia\/ Pelo telefone \/ Mandou me avisar \/ Que com alegria \/ N\u00e3o se questione \/ Para se brincar\u201d, foi alterada para a vers\u00e3o mais conhecida hoje em dia, \u201cO Chefe da Pol\u00edcia \/ Pelo telefone\/ Manda me avisar\/ Que na Carioca \/ Tem uma roleta\/ Para se jogar\u201d. Composto por Sinh\u00f4 e gravada em 1928 pelo seu aluno de viol\u00e3o, M\u00e1rio Reis, e depois por Aracy Cortes e Noel Rosa, o samba \u201cJura\u201d, mais recentemente gravado por Zeca Pagodinho, nasceu no teatro de revista, com uma letra que insinua o sexo n\u00e3o-convencional: \u201cJura. Jura de cora\u00e7\u00e3o\/ Para que um dia\/ Eu possa dar-te o meu amor\/ Sem mais pensar na ilus\u00e3o\/ Da\u00ed ent\u00e3o dar-te eu irei\/ Um beijo puro na catedral do amor.\u201d<\/p>\n<p>No come\u00e7o dos anos 1970, uma professora prim\u00e1ria escandalizou o pa\u00eds ao exibir os seios num baile do Clube S\u00edrio e Liban\u00eas, em Botafogo, no Rio de Janeiro. Era uma \u00e9poca em que as grandes sociedades, como o Clube dos Democr\u00e1ticos e os Tenentes do Diabo, estavam em absoluta decad\u00eancia, o desfile de escola de samba ainda era na Avenida Presidente Vargas e os blocos de massa, apenas dois, Cacique de Ramos e Bafo da On\u00e7a. Quem quisesse brincar na rua os quatro dias de carnaval no Rio de Janeiro teria de ir \u00e0 Avenida Rio Branco e correr atr\u00e1s dos chamados blocos de sujo, que se formavam quase espontaneamente.<\/p>\n<p>A Banda de Ipanema, que desfilara a primeira vez em 1965, inspirando o surgimento de dezenas de bandas pela cidade, fez renascer das cinzas o carnaval de rua. Sua musa inspiradora, a atriz Leila Diniz, com seu biqu\u00edni bem-comportado, escandalizara a cidade ao exibir na praia o barrig\u00e3o da gravidez. Criada por Ferdy Carneiro, Albino Pinheiro, Jaguar, Ziraldo, S\u00e9rgio Cabral, o pai, e demais integrantes de O Pasquim, a banda reunia os protagonistas do cinema novo e da bossa nova, era um contraponto sat\u00edrico a in\u00fameras proibi\u00e7\u00f5es \u00e0 cultura feitas pelo regime militar.<\/p>\n<p>Com o tempo, os bailes nos clubes foram ficando cada vez mais permissivos; os desfiles de escolas de samba mais luxuosos e glamourizados; a folia de rua, mais popular e democr\u00e1tica. O gigantismo da Banda de Ipanema levou ao surgimento de outros blocos na Zona Sul carioca, como o Simpatia \u00e9 Quase Amor, inspirado num personagem de Aldir Blanc. O carnaval, com sua for\u00e7a transgressora, foi a vanguarda da revolu\u00e7\u00e3o dos costumes, em curso no mundo ocidental, desde as manifesta\u00e7\u00f5es de 1968.<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca, tudo acabava a zero hora de Quarta-feira de Cinzas. Apenas dois blocos desfilavam no Rio de Janeiro depois disso: \u201cO que \u00e9 que eu vou dizer em casa\u201d, que reunia os foli\u00f5es mais exaltados, que saiam do xadrez da antiga Delegacia de Averigua\u00e7\u00f5es, na Avenida Presidente Vargas; e o \u201cChave de Ouro\u201d, liderado por playboys do Cine Imperator, na Avenida Dias da Cruz, no Meier, sub\u00farbio carioca da Central do Brasil, que promoviam um jogo de gato e rato com os policiais mobilizados para impedir a folia.<\/p>\n<p><strong>Pornografia<\/strong><\/p>\n<p>Em mais de 100 anos, ningu\u00e9m conseguiu conter os foli\u00f5es, a libera\u00e7\u00e3o dos costumes nem os excessos dos mais exaltados. O v\u00eddeo divulgado pelo presidente Jair Bolsonaro, a partir de sua conta no Twitter, condenando a festa popular, \u00e9 o flagrante de um fato isolado, num bloco da Bela Vista, bairro bo\u00eamio de S\u00e3o Paulo. As cenas obscenas de um homem urinando na cabe\u00e7a de um travesti, que havia se masturbado, sobre um ponto de \u00f4nibus, por\u00e9m, n\u00e3o poderiam ser generalizadas, por mais permissivo e erotizado que esteja o carnaval. Muito menos compartilhadas. Pornogr\u00e1fico, o v\u00eddeo viralizou nas redes sociais e espantou o mundo, literalmente.<\/p>\n<p>Ontem, Bolsonaro se fez de desentendido e perguntou no Twitter: \u201cO que \u00e9 golden shower?\u201d. A tradu\u00e7\u00e3o significa \u201cchuva dourada\u201d, uma pr\u00e1tica sexual escatol\u00f3gica. N\u00e3o se sabe se a autoria foi do pr\u00f3prio presidente ou de seu filho ca\u00e7ula, o vereador carioca Carlos Bolsonaro, que opera suas redes sociais. A postagem virou chacota na imprensa mundial, por\u00e9m, mobilizou os partid\u00e1rios do presidente da Rep\u00fablica, que lidera uma campanha moralista e ganhou as elei\u00e7\u00f5es com uma agenda pautada pela defesa da fam\u00edlia. A rigor, deveria estar mais preocupado com a reforma da Previd\u00eancia e a articula\u00e7\u00e3o da base governista na C\u00e2mara do que com o carnaval.<\/p>\n<p>Viva a Mangueira!!!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;A postagem de um v\u00eddeo obsceno postado por Bolsonaro virou chacota na imprensa mundial, por\u00e9m, mobilizou os partid\u00e1rios do presidente&#8221; &nbsp; Desde \u201cPelo telefone\u201d (Donga), composta em 1916, no quintal da casa da Tia Ciata, na Pra\u00e7a Onze, a rela\u00e7\u00e3o do samba e do carnaval com os bons costumes e a ordem institu\u00edda foi tensa. 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