{"id":3538,"date":"2019-03-10T06:48:04","date_gmt":"2019-03-10T09:48:04","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=3538"},"modified":"2019-03-10T06:48:04","modified_gmt":"2019-03-10T09:48:04","slug":"nas-entrelinhas-o-modelo-dos-militares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-modelo-dos-militares\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O modelo dos militares"},"content":{"rendered":"<p><em>&#8220;A equipe do ministro da Economia, Paulo Guedes, defende um amplo programa de privatiza\u00e7\u00f5es, por\u00e9m, os militares s\u00e3o nacional-desenvolvimentistas&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Comparar as biografias do ex-senador Amaral Peixoto e do ex-presidente Ernesto Geisel ajuda a entender como os projetos liberal-democr\u00e1tico e nacional-desenvolvimentista se digladiaram, \u00e0 sombra do populismo, durante a maior parte do per\u00edodo republicano. Genro de Get\u00falio Vargas, Amaral teve papel decisivo nas articula\u00e7\u00f5es com os Estados Unidos para o Brasil entrar na guerra contra o Eixo (Alemanha, It\u00e1lia e Jap\u00e3o) e na constru\u00e7\u00e3o das alian\u00e7as do governo Juscelino Kubitschek; Geisel presidiu a Petrobras e sucedeu o general Garrastazu M\u00e9dici na Presid\u00eancia, sendo respons\u00e1vel pelo desalinhamento da pol\u00edtica externa brasileira em rela\u00e7\u00e3o aos Estados Unidos, com o acordo nuclear com a Alemanha, o reatamento de rela\u00e7\u00f5es com a China e o reconhecimento da independ\u00eancia de Angola. Foram advers\u00e1rios pol\u00edticos por toda a vida.<\/p>\n<p>Amaral lan\u00e7ou a candidatura de Juscelino (PSD) \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica na elei\u00e7\u00e3o de 1955, com um discurso desenvolvimentista cujo slogan era \u201c50 anos em 5\u201d, tendo como companheiro de chapa Jo\u00e3o Goulart (PTB). Com 35,6% dos votos, contra 30,2% de Juarez T\u00e1vora (UDN), Juscelino somente tomou posse porque o general Henrique Lott, legalista, desencadeou um movimento militar que a garantiu. Respons\u00e1vel pela constru\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia, atraiu investimentos estrangeiros, promoveu a industrializa\u00e7\u00e3o, o desenvolvimento do interior e a integra\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, num ambiente de estabilidade pol\u00edtica e liberdade. Entretanto, deixou como heran\u00e7a d\u00edvidas interna e externa elevadas, aumento da infla\u00e7\u00e3o e concentra\u00e7\u00e3o de renda, que alimentaram a crise pol\u00edtica dos anos 1960 e desaguaram no golpe militar de 1964.<\/p>\n<p>Geisel herdou a crise do \u201cmilagre econ\u00f4mico\u201d do general M\u00e9dici, idealizado pelos ministros Jo\u00e3o Paulo dos Reis Velloso e M\u00e1rio Henrique Simonsen, com o objetivo de preparar a infraestrutura necess\u00e1ria ao desenvolvimento: transportes e telecomunica\u00e7\u00f5es, ci\u00eancia e tecnologia, ind\u00fastrias naval, sider\u00fargica e petroqu\u00edmica. Grandes obras de infraestrutura foram executadas: a hidrel\u00e9trica de Itaipu, a Ponte Rio-Niter\u00f3i e a rodovia Transamaz\u00f4nica. Houve crescimento m\u00e9dio de 11,2% ao ano, com uma infla\u00e7\u00e3o inercial de 19%. A crise do petr\u00f3leo de 1974, por\u00e9m, interrompeu o ciclo e for\u00e7ou uma mudan\u00e7a de rumo na economia.<\/p>\n<p>O II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), lan\u00e7ado por Geisel, por\u00e9m, fracassou. Fora idealizado por Reis Velloso, Simonsen e Severo Gomes para enfrentar a crise internacional provocada pelo \u201cchoque do petr\u00f3leo \u201c (os pa\u00edses produtores formaram um cartel e passaram a ditar os pre\u00e7os). Geisel fez a maior interven\u00e7\u00e3o estatal na economia da hist\u00f3ria do pa\u00eds, com medidas de regula\u00e7\u00e3o (taxa de c\u00e2mbio, taxa b\u00e1sica de juros, regras para exporta\u00e7\u00e3o e importa\u00e7\u00e3o, tributa\u00e7\u00e3o, etc.) e um ajuste estrutural na economia, com redu\u00e7\u00e3o da depend\u00eancia do petr\u00f3leo \u00e1rabe, por meio do investimento em pesquisa, prospec\u00e7\u00e3o, explora\u00e7\u00e3o e refino de petr\u00f3leo dentro do Brasil, al\u00e9m de investimento em fontes alternativas de energia, como o \u00e1lcool e a energia nuclear.<\/p>\n<p><strong>Privatiza\u00e7\u00f5es<\/strong><br \/>\nNo governo Geisel, gra\u00e7as ao fechamento da economia e subs\u00eddios generalizados, o Brasil conseguiu dominar todo o ciclo industrial, por\u00e9m a d\u00edvida externa e a infla\u00e7\u00e3o explodiram. O modelo de capitalismo de Estado dos militares naufragou na morat\u00f3ria de 1982, no governo Figueiredo, que sucedeu Geisel. A crise de financiamento do setor p\u00fablico colocou em xeque n\u00e3o s\u00f3 o modelo, mas o pr\u00f3prio regime militar. Ap\u00f3s sucessivas derrotas eleitorais, em 1974, 1978, 1982, Tancredo Neves (PMDB), um pol\u00edtico liberal-democrata, foi eleito em 1985, em pleito indireto, no embalo de greves de trabalhadores, protestos estudantis e uma campanha por elei\u00e7\u00f5es diretas para presidente da Rep\u00fablica que n\u00e3o vingou no Congresso. Mas a sa\u00edda da crise s\u00f3 veio com o Plano Real, nos governos Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso.<\/p>\n<p>Nos bastidores do governo Bolsonaro, h\u00e1 uma disputa surda entre dois modelos: a equipe do ministro da Economia, Paulo Guedes, defende um amplo programa de privatiza\u00e7\u00f5es, por\u00e9m, os militares, que assumiram o comando das empresas estatais e querem o controle das ag\u00eancias reguladoras, s\u00e3o nacional-desenvolvimentistas e n\u00e3o est\u00e3o muito dispostos a cumprir essa miss\u00e3o. Na semana passada, em Washington, nos Estados Unidos, o ministro de Minas e Energia, almirante Bento Albuquerque, anunciou que a Eletrobras n\u00e3o ser\u00e1 privatizada como estava previsto, mas capitalizada com base no mesmo modelo adotado em 1994 pela Embraer, que vendeu 55% das a\u00e7\u00f5es ordin\u00e1rias da companhia, com direito a voto, em leil\u00e3o na bolsa paulista.<\/p>\n<p>O ministro tamb\u00e9m quer rediscutir a rela\u00e7\u00e3o da Eletrobras com a Eletronuclear, a Chesf (Companhia Hidrel\u00e9trica do S\u00e3o Francisco) e a Itaipu Binacional. Bento Albuquerque disputa com Guedes o controle da Petrobras e foi um dos art\u00edfices do megaprograma de constru\u00e7\u00e3o do submarino nuclear brasileiro, cujo estaleiro franco-brasileiro, em Itagua\u00ed, corre o risco de ficar fora do programa de constru\u00e7\u00e3o das novas corvetas da Marinha (estimado entre US$ 1,6 bilh\u00e3o e US$ 2 bilh\u00f5es) e virar um elefante branco.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;A equipe do ministro da Economia, Paulo Guedes, defende um amplo programa de privatiza\u00e7\u00f5es, por\u00e9m, os militares s\u00e3o nacional-desenvolvimentistas&#8221; Comparar as biografias do ex-senador Amaral Peixoto e do ex-presidente Ernesto Geisel ajuda a entender como os projetos liberal-democr\u00e1tico e nacional-desenvolvimentista se digladiaram, \u00e0 sombra do populismo, durante a maior parte do per\u00edodo republicano. 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