{"id":3562,"date":"2019-03-17T08:55:26","date_gmt":"2019-03-17T11:55:26","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=3562"},"modified":"2019-03-17T09:23:49","modified_gmt":"2019-03-17T12:23:49","slug":"nas-entrelinhas-o-lobo-e-o-bom-selvagemx","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-lobo-e-o-bom-selvagemx\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O lobo e o bom selvagem"},"content":{"rendered":"<p>\u201cO risco que corremos, com a polariza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica que se estabeleceu, \u00e9 o surgimento de uma milit\u00e2ncia pol\u00edtica armada. A sa\u00edda ainda \u00e9 depurar, reformar e fortalecer o sistema de seguran\u00e7a p\u00fablica\u201d<\/p>\n<p>Na pol\u00edtica, \u00e9 muito comum o sujeito achar que o bom rapaz terminar\u00e1 por \u00faltimo, uma express\u00e3o do mundo do beisebol, esporte no qual os melhores do mundo atualmente s\u00e3o o Jap\u00e3o, os Estados Unidos, a Coreia e Cuba, com a Venezuela na cola deles. O ardil, a dissimula\u00e7\u00e3o, a esperteza e a falta de escr\u00fapulos parecem ser a regra do jogo, mas n\u00e3o \u00e9 bem assim, existem bons rapazes na pol\u00edtica, sem a qual n\u00e3o existe processo civilizat\u00f3rio. O neodarwinista Richard Dawkins, no \u00faltimo cap\u00edtulo do livro O gene ego\u00edsta (Companhia das Letras), discute exatamente isso. Segundo Dawkins, o ser humano \u00e9 um grande arranjo biol\u00f3gico, uma esp\u00e9cie de m\u00e1quina de sobreviv\u00eancia de um gene ego\u00edsta reprodutor da esp\u00e9cie. Para isso, por\u00e9m, tamb\u00e9m precisa ser altru\u00edsta, cooperar com os demais integrantes da esp\u00e9cie para n\u00e3o entrar em extin\u00e7\u00e3o. \u00c9 a\u00ed que os bons rapazes podem acabar em primeiro.<\/p>\n<p>Para explicar o racioc\u00ednio, Dawkins faz uma analogia com os p\u00e1ssaros de uma mesma esp\u00e9cie, mas com comportamentos distintos: os trapaceiros, os trouxas e os rancorosos, todos em luta com piolhos alojados na cabe\u00e7a, que poderiam exterminar a esp\u00e9cie. Caso existissem somente trapaceiros e trouxas, a esp\u00e9cie seria extinta, porque somente o segundo cataria os piolhos alheios, o que n\u00e3o seria suficiente para manter o equil\u00edbrio ecol\u00f3gico. Os trapaceiros n\u00e3o catam piolho de ningu\u00e9m, nem podem remov\u00ea-los da pr\u00f3pria cabe\u00e7a; com a redu\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o de trouxas, todos acabariam extintos.<\/p>\n<p>Quando entram em cena os rancorosos, a situa\u00e7\u00e3o se modifica. S\u00e3o p\u00e1ssaros que ajudam uns aos outros de maneira mais ou menos altru\u00edsta, mas que se recusavam a colaborar com os indiv\u00edduos que se recusaram a ajud\u00e1-los. Por essa raz\u00e3o, os rancorosos conseguem transmitir mais genes \u00e0s gera\u00e7\u00f5es seguintes do que os trouxas (que ajudavam os indiv\u00edduos indiscriminadamente e por isso eram explorados) e tamb\u00e9m que os trapaceiros (que, implac\u00e1veis, tentavam explorar todo mundo e acabaram por se anular uns aos outros). Com o chamado altru\u00edsmo rec\u00edproco, a popula\u00e7\u00e3o de trouxas diminui e os trapaceiros acabam com a sobreviv\u00eancia amea\u00e7ada pelo isolamento. O Brasil est\u00e1 passando por um per\u00edodo darwinista na pol\u00edtica. Nesse contexto \u00e9 que devemos examinar a crise de seguran\u00e7a p\u00fablica e o problema da viol\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Milit\u00e2ncia<\/strong><br \/>\nOs animais agem instintivamente na luta pela sobreviv\u00eancia, a viol\u00eancia \u00e9 um elemento natural que faz parte de um ciclo independente e resulta do instinto de conserva\u00e7\u00e3o. Entretanto, s\u00f3 se utilizam dessa pr\u00e1tica na busca de alimento, na luta pelo territ\u00f3rio ou na disputa pela f\u00eamea; ou ainda, quando se sentem amea\u00e7ados. Ou seja, somente em situa\u00e7\u00f5es extremas, em prol da conserva\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie. O homem tamb\u00e9m \u00e9 um animal que se utiliza da viol\u00eancia para sobreviver. Por\u00e9m, extrapola os limites do natural e, muitas vezes, age violentamente a ponto de prejudicar a sua pr\u00f3pria esp\u00e9cie, fato que contraria as leis da natureza. A desigualdade social, a impunidade e a corrup\u00e7\u00e3o est\u00e3o entre os fatores de viol\u00eancia, mas \u00e9 preciso saber lidar com isso e cont\u00ea-las.<\/p>\n<p>H\u00e1 duas concep\u00e7\u00f5es seminais sobre isso: A tese do \u201clobo do homem\u201d, de Thomas Hobbes, segundo o qual a sociedade est\u00e1 sempre amea\u00e7ada por uma guerra civil, onde todos os seus integrantes vivem em uma situa\u00e7\u00e3o de permanente conflito, \u201cuma guerra de um contra todos e de todos entre si\u201d. O estado da natureza, segundo ele, era um mundo de feras, onde \u201co verdadeiro lobo do homem era o pr\u00f3prio homem\u201d. Para Hobbes, \u201cum homem n\u00e3o pode abandonar o direito de resistir \u00e0queles que o atacam com for\u00e7a para lhe retirar a vida\u201d. E o mito do \u201cbom selvagem\u201d, do iluminista franc\u00eas Jean Jaques Russeau, para quem primitivamente o homem \u00e9 generoso, embora esteja sempre sob o jugo da vida em sociedade, a qual o predisp\u00f5e \u00e0 maldade. A condi\u00e7\u00e3o para reverter essa tend\u00eancia e transform\u00e1-lo num bom cidad\u00e3o \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de um \u201ccontrato social\u201d, que estabele\u00e7a as regras do jogo: \u201cO mais forte n\u00e3o \u00e9 suficientemente forte se n\u00e3o conseguir transformar a sua for\u00e7a em direito e a obedi\u00eancia em dever.\u201d<\/p>\n<p>O debate sobre a viol\u00eancia no Brasil gravita em torno dessas duas concep\u00e7\u00f5es, que est\u00e3o na g\u00eanese do Estado moderno. O ponto de converg\u00eancia entre ambos \u00e9 o monop\u00f3lio do uso da viol\u00eancia pelo Estado, como estabelece a nossa Constitui\u00e7\u00e3o. Esse monop\u00f3lio, por\u00e9m, foi quebrado pelos \u201ctrapaceiros\u201d. Est\u00e3o a\u00ed o PCC, em S\u00e3o Paulo, e as mil\u00edcias, no Rio de Janeiro, que atuam como \u201cEstados paralelos\u201d. N\u00e3o ser\u00e1 armando a popula\u00e7\u00e3o que esse problema ser\u00e1 resolvido.\u00a0O risco que corremos, com a polariza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica que se estabeleceu em torno disso, \u00e9 o surgimento de uma milit\u00e2ncia pol\u00edtica armada. A sa\u00edda ainda \u00e9 depurar, reformar e fortalecer o sistema de seguran\u00e7a p\u00fablica<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO risco que corremos, com a polariza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica que se estabeleceu, \u00e9 o surgimento de uma milit\u00e2ncia pol\u00edtica armada. 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