{"id":3680,"date":"2019-04-21T07:46:34","date_gmt":"2019-04-21T10:46:34","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=3680"},"modified":"2019-04-21T07:47:57","modified_gmt":"2019-04-21T10:47:57","slug":"nas-entrelinhas-santos-e-dragoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-santos-e-dragoes\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Santos e drag\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>\u201c<em>Ap\u00f3s 20 anos de regime militar e 34, de democracia, o Brasil ainda n\u00e3o se livrou do populismo, do messianismo e do banditismo, que transitaram do Brasil rural para o urbano\u201d<\/em><\/p>\n<p>A trilogia Deus e o diabo na terra do Sol (1964), Terra em transe (1967) e O drag\u00e3o da maldade contra o santo guerreiro (1968), que revolucionou o cinema brasileiro e teve grande impacto entre cineastas do mundo inteiro, apesar do contexto pol\u00edtico em que foi realizada, trata de temas que permanecem atuais: o populismo, o messianismo e o banditismo. Messianismo e banditismo representam respectivamente Deus e o diabo, mas o manique\u00edsmo entre ambos, uma constru\u00e7\u00e3o do cristianismo, n\u00e3o muda a realidade. Glauber tinha entre 25 e 30 anos quando produziu sua trilogia, da qual a obra mais importante, esteticamente, \u00e9 Deus e o diabo, que estreou no dia 10 de julho de 1964.<\/p>\n<p>O filme diz muito mais sobre a identidade nacional do que a simples alegoria do golpe militar de 1964, embora Glauber tenha sido perseguido, principalmente ap\u00f3s o Ato Institucional n\u00ba 5, de 13 de dezembro de 1968, quando o regime se tornou uma ditadura aberta, na avalia\u00e7\u00e3o do ex-ministro da Educa\u00e7\u00e3o Jarbas Passarinho. Inspirado na obra O Diabo e o bom Deus, do fil\u00f3sofo franc\u00eas Jean Paul Sartre, Glauber adapta livremente o roteiro, para retratar a rela\u00e7\u00e3o entre a religi\u00e3o e o poder no sert\u00e3o brasileiro. Seus personagens, por\u00e9m, s\u00e3o arqu\u00e9tipos que transcendem os contextos regional e temporal.<\/p>\n<p>Manuel (Geraldo Del Rey) se liberta do patr\u00e3o explorador (M\u00edlton Roda) e, em companhia da mulher, Rosa (Yon\u00e1 Magalh\u00e3es), junta-se aos fan\u00e1ticos liderados pelo profeta negro S\u00e3o Sebasti\u00e3o (L\u00eddio Silva) e, depois, ao cangaceiro Corisco (Othon Bastos). O matador Ant\u00f4nio das Mortes (Maur\u00edcio do Valle) \u00e9 contratado pela Igreja e pelos latifundi\u00e1rios para eliminar as amea\u00e7as ao status quo que constituem tanto o l\u00edder messi\u00e2nico quanto o justiceiro do canga\u00e7o. Glauber explora a literatura de cordel para tecer a trama do fanatismo religioso. Em meio a alucina\u00e7\u00f5es sebastianistas, revelava influ\u00eancias do neorrealismo italiano e da nouvelle vague, com cenas inspiradas em Luis Bu\u00f1uel, Sergei Eisenstein e Akira Kurosawa. Glauber morreu aos 64 anos, consagrado como cineasta e incompreendido como g\u00eanio na cultura nacional.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica ao sebastianismo e ao banditismo \u00e9 sofisticada. Os discursos de Sebasti\u00e3o prometem o c\u00e9u na terra: \u201cAgora eu digo, o outro lado de l\u00e1, deste Monte Santo, existe uma terra onde tudo \u00e9 verde, os cavalos comendo as flores e os meninos bebendo leite na \u00e1gua do rio. O homem come o p\u00e3o feito de pedra e poeira da terra vira farinha. Tem \u00e1gua e comida, tem a fartura do c\u00e9u e todo dia, quando o Sol nasce, aparece Jesus Cristo e Virgem Maria, S\u00e3o Jorge e meu Santo Sebasti\u00e3o\u201d. Rosa percebe que as promessas do profeta n\u00e3o levar\u00e3o a lugar nenhum. Sebasti\u00e3o tamb\u00e9m incomoda a elite local. O padre solicita a Ant\u00f4nio das Mortes, assassino de aluguel, que mate Sebasti\u00e3o e todos os seus seguidores; ele, por\u00e9m, afirma ter receio de cumprir tais ordens por mexer com coisas de Deus. Ant\u00f4nio das Mortes tem medo de enfrentar Sebasti\u00e3o e seus seguidores.<\/p>\n<p><b>Vi\u00e9s antropol\u00f3gico<\/b><\/p>\n<p>Sebasti\u00e3o \u00e9 morto pelas m\u00e3os de Rosa, ap\u00f3s o profeta exigir de Manuel o sacrif\u00edcio de sua mulher e de uma crian\u00e7a. Seus seguidores s\u00e3o mortos por Ant\u00f4nio das Mortes. Em fuga, Manoel e Rosa encontram o grupo de Corisco, veem uma oportunidade de mudar de vida. Diferente do messianismo, o canga\u00e7o n\u00e3o se baseia em uma entidade surreal para acabar com o sofrimento do povo, e sim no reconhecimento da estrutura de poder e na manuten\u00e7\u00e3o, por parte dela, das condi\u00e7\u00f5es sociais a que \u00e9 submetido. Eles n\u00e3o ficam \u00e0 espera de um anjo guerreiro vir arrancar a cabe\u00e7a dos inimigos, milagrosamente. O banditismo social se prop\u00f5e a cort\u00e1-la. No Drag\u00e3o da maldade contra o santo guerreiro, que encerra a trilogia, Glauber junta a devo\u00e7\u00e3o de um santo \u00e0 bravura de um guerreiro e projeta um novo messianismo, quando Ant\u00f4nio das Mortes abandona o Drag\u00e3o da maldade e adere \u00e0 causa do Santo guerreiro. Insinua um certo protagonismo popular, alternativo ao poder das oligarquias e ao banditismo do canga\u00e7o.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s 20 anos de regime militar e 34, de democracia, o Brasil ainda n\u00e3o se livrou do populismo, do messianismo e do banditismo, que transitaram do Brasil rural para o urbano. Muito menos do manique\u00edsmo que impede essa ultrapassagem. S\u00e3o tr\u00eas ingredientes da nossa pol\u00edtica que est\u00e3o a\u00ed viv\u00edssimos, no fen\u00f4meno da elei\u00e7\u00e3o do presidente Jair Bolsonaro, na resili\u00eancia eleitoral do ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva e na dram\u00e1tica situa\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro, onde o banditismo das mil\u00edcias emula com o tr\u00e1fico de drogas. S\u00e3o elementos da vida nacional retratados h\u00e1 55 anos por Glauber Rocha, um vi\u00e9s antropol\u00f3gico viv\u00edssimo da pol\u00edtica brasileira, que atrasa e puxa o pa\u00eds para baixo.<\/p>\n<p>Feliz P\u00e1scoa!!!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cAp\u00f3s 20 anos de regime militar e 34, de democracia, o Brasil ainda n\u00e3o se livrou do populismo, do messianismo e do banditismo, que transitaram do Brasil rural para o urbano\u201d A trilogia Deus e o diabo na terra do Sol (1964), Terra em transe (1967) e O drag\u00e3o da maldade contra o santo guerreiro (1968), que revolucionou o cinema [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[169,28,113,3,9,384,68],"tags":[388,130,101,385,387,386,10],"class_list":["post-3680","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cinema","category-cultura","category-militares","category-politica","category-politica-2","category-religiao","category-violencia","tag-bandidismo","tag-bolsonaro","tag-cinema","tag-glauber","tag-messianismo","tag-populismo","tag-lula"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3680","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3680"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3680\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3687,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3680\/revisions\/3687"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3680"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3680"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3680"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}