{"id":3703,"date":"2019-04-28T08:42:20","date_gmt":"2019-04-28T11:42:20","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=3703"},"modified":"2020-12-10T07:48:52","modified_gmt":"2020-12-10T10:48:52","slug":"nas-entrelinhas-mora-na-filosofia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-mora-na-filosofia\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Mora na filosofia"},"content":{"rendered":"<p style=\"padding-left: 30px\">\u201c<strong><em>A mais recente pol\u00eamica protagonizada pelo presidente Bolsonaro \u00e9 sobre o ensino de Humanas nas universidades, segundo ele, um desperd\u00edcio de recursos\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Devido ao suic\u00eddio de Get\u00falio Vargas no ano anterior, um presidente de enorme prest\u00edgio popular, o carnaval de 1955 era esperado com muito baixo-astral, mas o que aconteceu foi exatamente o contr\u00e1rio. O povo foi pra rua se divertir e a festa pegou fogo, com muitos sambas e marchinhas de sucesso. Foi o caso de Mora na filosofia, de autoria de Monsueto Menezes com Arnaldo Passos (parceiro de Geraldo Pereira), na voz de Marlene.<\/p>\n<p>Regravado na d\u00e9cada de 1970, no LP Transa, por Caetano Veloso, com um arranjo espetacular de Jards Macal\u00e9, \u00e9 ainda hoje considerado um dos mais belos sambas da hist\u00f3ria da nossa m\u00fasica popular: \u201cEu vou lhe dar a decis\u00e3o \/ Botei na balan\u00e7a\/ Voc\u00ea n\u00e3o pesou\/ Botei na peneira \/ Voc\u00ea n\u00e3o passou \/ Mora na filosofia \/ Pra que rimar\/Amor e dor\u201d. Aquele carnaval foi uma li\u00e7\u00e3o de que \u201ca arte existe porque a vida n\u00e3o basta\u201d, como diria mais tarde o poeta Ferreira Gullar.<\/p>\n<p>Judeu de origem sefardita, o antrop\u00f3logo, soci\u00f3logo e fil\u00f3sofo Edgar Morin, cujo verdadeiro sobrenome era Nahoum, foi um her\u00f3i da Resist\u00eancia francesa durante a II Guerra Mundial, o que lhe valeu as tarefas de adido ao Estado-maior do Primeiro Ex\u00e9rcito franc\u00eas na Alemanha ocupada, em 1945. Sua principal obra s\u00e3o os seis volumes de O m\u00e9todo, no qual questiona o fechamento ideol\u00f3gico e paradigm\u00e1tico das ci\u00eancias. Diante dos problemas complexos que as sociedades contempor\u00e2neas enfrentam, dizia, em meados da d\u00e9cada de 1970, apenas estudos de car\u00e1ter interpolitransdisciplinar poderiam resultar em an\u00e1lises satisfat\u00f3rias de tais complexidades. \u201cSomos complexos\u201d, dizia.<\/p>\n<p>Para Morin, o conhecimento complexo n\u00e3o est\u00e1 limitado \u00e0 ci\u00eancia, pois h\u00e1 na literatura, na poesia, nas artes, um profundo conhecimento. Todas as grandes obras de arte possuem um profundo pensamento sobre a vida. Segundo o pr\u00f3prio Morin, devemos romper com a no\u00e7\u00e3o de ter as artes de um lado e o pensamento cient\u00edfico do outro. Certo estava Paulo Vanzolini, o dubl\u00ea de cientista e sambista, autor de Ronda, o hino na noite paulista, entre outras can\u00e7\u00f5es antol\u00f3gicas: \u201cDe noite eu rondo a cidade \/ A lhe procurar sem encontrar \/ No meio de olhares espio \/ Em todos os bares voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 \/ Volto pra casa abatida \/ Desencantada da vida \/ O sonho alegria me d\u00e1 \/ Nele voc\u00ea est\u00e1\u201d.<\/p>\n<p>Compositor de Volta por cima e Na boca da noite, Vanzolini era zo\u00f3logo e foi um dos idealizadores da Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo (Fapesp). Com seu trabalho, a USP aumentou a cole\u00e7\u00e3o de r\u00e9pteis do seu Museu de Zoologia de cerca de 1,2 mil para 230 mil exemplares. Com o ge\u00f3grafo Aziz Ab\u2019Saber e com o norte-americano Ernest Williams, desenvolveu a Teoria do Ref\u00fagio em suas expedi\u00e7\u00f5es pela Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p><b>\u00c9tica<\/b><\/p>\n<p>A mais recente pol\u00eamica protagonizada pelo presidente Jair Bolsonaro \u00e9 sobre o ensino de filosofia, sociologia e hist\u00f3ria nas universidades, segundo ele, um desperd\u00edcio de recursos p\u00fablicos, diante das defici\u00eancias do pa\u00eds em outras \u00e1reas, como engenharia, medicina e veterin\u00e1ria. Realmente, existe um subinvestimento nessas \u00e1reas, que exigem muito mais infraestrutura para a forma\u00e7\u00e3o dos alunos. A maioria das faculdades n\u00e3o disp\u00f5e de recursos materiais nem humanos do n\u00edvel, por exemplo, do Instituto Militar de Engenharia (IME), do Instituto Tecnol\u00f3gico da Aeron\u00e1utica (ITA), da Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Polit\u00e9cnica da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP).<\/p>\n<p>Por ironia, as ideias defendidas por Bolsonaro est\u00e3o ancoradas na filosofia medieval: a escol\u00e1stica. Seu expoente foi S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino, cuja teologia tinha por objetivo provar a exist\u00eancia de Deus ou de seus atributos por modos puramente filos\u00f3ficos. O \u201ctomismo\u201d conciliou as posi\u00e7\u00f5es e os m\u00e9todos de Arist\u00f3teles com o cristianismo, tornando-se a corrente filos\u00f3fica oficial da Igreja Cat\u00f3lica na Idade M\u00e9dia, com influ\u00eancia na \u00e9tica, na teoria pol\u00edtica e na metaf\u00edsica, at\u00e9 o Renascimento e o Iluminismo.<\/p>\n<p>Tom\u00e1s de Aquino foi o grande te\u00f3logo da guerra (justa por uma boa causa, se declarada por uma autoridade leg\u00edtima e com objetivo de alcan\u00e7ar a paz). Muito criticado por Maquiavel, o \u201ctomismo\u201d (aristotelismo crist\u00e3o) foi uma ruptura com o pensamento de Plat\u00e3o, aquele fil\u00f3sofo da f\u00e1bula do homem da caverna, que enxergava as sombras na escurid\u00e3o, mas quando v\u00ea a luz fica cego e, ao voltar pra caverna, n\u00e3o enxerga mais. A ess\u00eancia da civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 o humanismo. \u00a0A ci\u00eancia sem a \u00e9tica, a antropologia e a sociologia \u00e9 um perigo. Exemplos n\u00e3o faltam, como o de Josep Mengele, em Auschwitz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA mais recente pol\u00eamica protagonizada pelo presidente Bolsonaro \u00e9 sobre o ensino de Humanas nas universidades, segundo ele, um desperd\u00edcio de recursos\u201d Devido ao suic\u00eddio de Get\u00falio Vargas no ano anterior, um presidente de enorme prest\u00edgio popular, o carnaval de 1955 era esperado com muito baixo-astral, mas o que aconteceu foi exatamente o contr\u00e1rio. 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