{"id":3719,"date":"2019-05-02T08:18:55","date_gmt":"2019-05-02T11:18:55","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=3719"},"modified":"2019-05-02T08:18:55","modified_gmt":"2019-05-02T11:18:55","slug":"nas-entrelinhas-os-militares-e-maduro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-os-militares-e-maduro\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Os militares e Maduro"},"content":{"rendered":"<p>\u201d<em><strong>A experi\u00eancia dos nossos generais e a doutrina de defesa das For\u00e7as Armadas brasileiras impediram que Bolsonaro desse um passo maior do que as pernas\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A chave para uma sa\u00edda negociada para a crise venezuelana \u00e9 uma retirada em ordem dos militares do poder, restabelecendo as regras do jogo democr\u00e1tico e mantendo a unidade e disciplina das For\u00e7as Armadas da Venezuela. A melhor e mais bem-sucedida experi\u00eancia de uma opera\u00e7\u00e3o dessa natureza foi a longa transi\u00e7\u00e3o brasileira, na qual os militares voltaram para os quart\u00e9is e somente recuperaram o poder com a elei\u00e7\u00e3o do presidente Jair Bolsonaro, depois de passarem 34 anos fora da pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Os generais que cercam o presidente da Rep\u00fablica, principalmente os tr\u00eas mais poderosos \u2014 o vice-presidente Hamilton Mour\u00e3o; o chefe do Gabinete de Seguran\u00e7a Institucional (GSI), general Augusto Heleno; e o ministro da Defesa, general Fernando Azevedo \u2014, viveram esse processo na caserna. A \u201cdistens\u00e3o lenta, gradual e segura\u201d do presidente Ernesto Geisel, iniciada nas elei\u00e7\u00f5es de 1974 (logo seguida de pris\u00f5es em massa de oposicionistas, ap\u00f3s a derrota eleitoral de novembro daquele ano), somente foi encerrada com elei\u00e7\u00e3o de Tancredo Neves, em 1985, no col\u00e9gio eleitoral, no fim do governo de Jo\u00e3o Figueiredo.<\/p>\n<p>Politicamente, foi uma opera\u00e7\u00e3o bem-sucedida; militarmente, coincidiu com a maior profissionaliza\u00e7\u00e3o e aperfei\u00e7oamento da forma\u00e7\u00e3o dos militares e o refor\u00e7o da disciplina e do respeito \u00e0 hierarquia. A mesma gera\u00e7\u00e3o de militares que se beneficiou dessa mudan\u00e7a qualitativa no comportamento das For\u00e7as Armadas, viu frustrada as ambi\u00e7\u00f5es de ascens\u00e3o social e pol\u00edtica por meio da carreira militar, em raz\u00e3o do desprest\u00edgio causado pelas viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos e do fracasso do modelo de capitalismo de estado implantado pelo regime militar.<\/p>\n<p>Nada disso se compara, por\u00e9m, \u00e0 experi\u00eancia dos militares de outros pa\u00edses quando foram apeados do poder: muitos foram presos, julgados e condenados por causa da tortura, como na Argentina. Mesmo os militares chilenos, muito bem-sucedidos na economia com seu modelo neoliberal, foram atropelados pela vit\u00f3ria do \u201cNo\u201d no plebiscito convocado pelo general Augusto Pinochet. A \u201canistia rec\u00edproca\u201d negociada com o Congresso, com Figueiredo no poder, em 1979, foi o n\u00f3 que amarrou a transi\u00e7\u00e3o. Depois da redemocratiza\u00e7\u00e3o, mesmo nos governos do PT, o pacto que garantiu o sucesso da transi\u00e7\u00e3o foi mantido.<\/p>\n<p>Vejamos os \u00faltimos acontecimentos na Venezuela. Mesmo enfraquecido na sociedade, Nicolas Maduro permanece no poder, gra\u00e7as ao apoio dos militares venezuelanos. Ontem, o l\u00edder da oposi\u00e7\u00e3o Juan Guaid\u00f3, em Caracas, voltou a pedir o apoio dos militares, 24 horas depois do fracassado \u201clevante\u201d militar que havia anunciado. Maduro tem o apoio da c\u00fapula das For\u00e7as Armadas de seu pa\u00eds, de Cuba, da R\u00fassia e da China. Os acontecimentos de ontem, quando a Guarda Nacional Venezuelana reprimiu violentamente os manifestantes, mostram que a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 cr\u00edtica, mas o governo n\u00e3o perdeu o sabre que cont\u00e9m os protestos.<\/p>\n<p><b>Ambiguidade<\/b><\/p>\n<p>Uma retirada das For\u00e7as Armadas da Venezuela do poder ser\u00e1 mais complexa do que se imagina, ao menos por tr\u00eas raz\u00f5es: o falecido presidente Hugo Chavez, que era militar, doutrinou e promoveu a maioria dos generais; as empresas estatais venezuelanas s\u00e3o controladas por militares corruptos; e o ministro da Defesa, Vladimir Padri\u00f1o, al\u00e9m dos neg\u00f3cios, controla o tr\u00e1fico de drogas no pa\u00eds. A c\u00fapula militar venezuelana n\u00e3o aceitar\u00e1 nenhum acordo que implique puni\u00e7\u00e3o pelos crimes que cometeu. A l\u00f3gica do confronto entre Maduro e Guaid\u00f3 n\u00e3o permite esse tipo de acordo, seria preciso que outros atores entrassem em cena, no governo e na oposi\u00e7\u00e3o, para uma solu\u00e7\u00e3o negociada. Esses atores existem, mas ainda n\u00e3o se apresentaram publicamente.<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o do Brasil nesse processo \u00e9 amb\u00edgua. O presidente Jair Bolsonaro, influenciado pelo ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, Ernesto Araujo, quase embarcou na l\u00f3gica intervencionista do governo Trump, que j\u00e1 fez tr\u00eas tentativas de for\u00e7ar a ren\u00fancia de Maduro: quando Guaid\u00f3 se declarou presidente interino, por ocasi\u00e3o da fracassada opera\u00e7\u00e3o de ajuda humanit\u00e1ria e na tentativa de levante de ter\u00e7a-feira passada. Nas tr\u00eas ocasi\u00f5es, o chanceler brasileiro estava mal-informado sobre a real correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as na Venezuela, em raz\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es recebidas de John Bolton, assessor de Seguran\u00e7a Nacional, e Mike Pompeo, secret\u00e1rio de Estado, com quem, inclusive, esteve novamente, na segunda passada.<\/p>\n<p>Apesar das defici\u00eancias dos servi\u00e7os de intelig\u00eancia do Brasil, a experi\u00eancia dos nossos generais e a doutrina de defesa das For\u00e7as Armadas brasileiras impediram que Bolsonaro desse um passo maior do que as pernas, como fez Guaid\u00f3, novamente, na ter\u00e7a-feira. A vari\u00e1vel nova na crise venezuelana \u00e9 a interfer\u00eancia de militares e servi\u00e7os de intelig\u00eancia russos, por ordem de Vladimir Putin, que tem outro tipo de experi\u00eancia de transi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Na R\u00fassia, os militares e burocratas poderosos se apropriaram das empresas estatais que comandavam, nas \u201cprivatiza\u00e7\u00f5es selvagens\u201d do governo Boris Yeltsin, dando origem \u00e0 atual e bilion\u00e1ria plutocracia russa. Os Estados Unidos acusam os russos de impedirem a ren\u00fancia de Maduro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201dA experi\u00eancia dos nossos generais e a doutrina de defesa das For\u00e7as Armadas brasileiras impediram que Bolsonaro desse um passo maior do que as pernas\u201d A chave para uma sa\u00edda negociada para a crise venezuelana \u00e9 uma retirada em ordem dos militares do poder, restabelecendo as regras do jogo democr\u00e1tico e mantendo a unidade e disciplina das For\u00e7as Armadas da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4,369,188,113,9,3,162,76],"tags":[130,189,165,58,190],"class_list":["post-3719","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-governo","category-itamaraty","category-maduro","category-militares","category-politica-2","category-politica","category-putin","category-trump","tag-bolsonaro","tag-maduro","tag-putin","tag-trump","tag-venezuela"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3719","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3719"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3719\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3724,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3719\/revisions\/3724"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3719"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3719"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3719"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}