{"id":3771,"date":"2019-05-17T08:44:05","date_gmt":"2019-05-17T11:44:05","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=3771"},"modified":"2019-05-17T08:44:05","modified_gmt":"2019-05-17T11:44:05","slug":"nas-entrelinhas-o-delirio-atomico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-delirio-atomico\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O del\u00edrio at\u00f4mico"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>&#8220;O Brasil sonhou com a bomba at\u00f4mica durante o regime militar. As consequ\u00eancias foram mais negativas. \u00a0A ambi\u00e7\u00e3o era adquirir o ciclo nuclear por meio de coopera\u00e7\u00e3o internacional&#8221;<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O ex-deputado federal Benito Gama \u00e9 uma raposa pol\u00edtica baiana daquelas que j\u00e1 viram de tudo no Congresso, desde quando presidiu a Comiss\u00e3o Parlamentar de Inqu\u00e9rito (CPI) que investigou o ex-presidente Collor de Mello e resultou na sua ren\u00fancia \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica para evitar o pr\u00f3prio impeachment. Governista, defende o presidente Jair Bolsonaro com bom humor e fina ironia. Um de seus argumentos favoritos, quando algu\u00e9m cita declara\u00e7\u00f5es pol\u00eamicas do presidente e seus ministros, \u00e9 comparar o come\u00e7o do atual governo com o do ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva: \u201cFoi muito pior, a confus\u00e3o era tanta que tinha at\u00e9 ministro defendendo a fabrica\u00e7\u00e3o de uma bomba at\u00f4mica!\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 uma alus\u00e3o ao ent\u00e3o ministro da Ci\u00eancia e Tecnologia, Roberto Amaral, que defendeu a retomada do projeto nuclear com objetivos militares, que teve p\u00e9ssima repercuss\u00e3o internacional. Esse argumento j\u00e1 n\u00e3o pode ser utilizado por Benito, porque o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL), presidente da Comiss\u00e3o de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores da C\u00e2mara e filho do presidente da Rep\u00fablica, defendeu que o Brasil tenha armas nucleares, para ser levado \u201cmais a s\u00e9rio\u201d. Emin\u00eancia parda da pol\u00edtica externa brasileira, Eduardo Bolsonaro acompanhou o pai no encontro com o presidente norte-americano, Donald Trump, no Sal\u00e3o Oval da Casa Branca, em Washington.<\/p>\n<p>Eduardo soltou o disparate durante palestra para alunos do curso superior de defesa da Escola Superior de Guerra, em reuni\u00e3o da comiss\u00e3o que preside na C\u00e2mara. Ele defendeu o rompimento do Tratado de N\u00e3o Prolifera\u00e7\u00e3o de Armas Nucleares, assinado pelo Brasil em 1998: \u201cA gente sabe que se o Brasil quiser atropelar essa conven\u00e7\u00e3o, tem uma s\u00e9rie de san\u00e7\u00f5es. \u00c9 um tema muito complicado, mas eu acredito que um dia possa voltar ao debate aqui\u201d. A Constitui\u00e7\u00e3o brasileira, no seu artigo 21, determina que toda atividade nuclear em territ\u00f3rio brasileiro seja realizada apenas para fins pac\u00edficos e mediante aprova\u00e7\u00e3o do Congresso Nacional.<\/p>\n<p>Eleito por S\u00e3o Paulo com 1,8 milh\u00e3o de votos, Eduardo Bolsonaro \u00e9 o parlamentar com mais influ\u00eancia na pol\u00edtica externa brasileira, foi um dos padrinhos na nomea\u00e7\u00e3o do ministro de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, Ernesto Ara\u00fajo. A vis\u00e3o do filho n\u00e3o \u00e9 desconectada das ideias do presidente Bolsonaro, que se declara um \u201carmamentista\u201d. A express\u00e3o n\u00e3o se refere apenas \u00e0 libera\u00e7\u00e3o da posse de armas, expressa uma concep\u00e7\u00e3o de proje\u00e7\u00e3o de poder, que ainda pode dar muitas dores de cabe\u00e7a para o Brasil na sua pol\u00edtica externa.<\/p>\n<p>Na vis\u00e3o de Eduardo, bombas nucleares garantem a paz, como se n\u00e3o fosse poss\u00edvel, no caso brasileiro, defend\u00ea-la como se fez at\u00e9 agora, desmilitarizando o Atl\u00e2ntico Sul e evitando a nucleariza\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina. \u00c9 simples e direto o seu racioc\u00ednio: \u201cTem um colega do Paquist\u00e3o aqui, n\u00e3o tem? Como \u00e9 que \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o do Paquist\u00e3o com a \u00cdndia se s\u00f3 um dos lados tivesse uma bomba nuclear? Ser\u00e1 que seria da mesma maneira que \u00e9 hoje? \u00d3bvio que n\u00e3o. Quando um desenvolveu a bomba nuclear, o outro desenvolveu no dia seguinte. E ali est\u00e1 selada ao menos minimamente uma esp\u00e9cie de paz. Eu sou entusiasta dessa vis\u00e3o\u201d, explicou aos alunos da ESG.<\/p>\n<p><strong>Programa nuclear<\/strong><br \/>\nO Brasil sonhou com a bomba at\u00f4mica durante o regime militar. As consequ\u00eancias foram mais negativas do que positivas para o pa\u00eds. O presidente Costa e Silva chegou a defender a condu\u00e7\u00e3o de pesquisa, minera\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o de artefatos nucleares numa reuni\u00e3o do Conselho de Seguran\u00e7a Nacional: \u201cN\u00e3o vamos chamar de bomba, vamos chamar de artefatos que possam explodir\u201d, disse. A ambi\u00e7\u00e3o do governo era adquirir todas as fases do ciclo nuclear por meio de coopera\u00e7\u00e3o internacional.<\/p>\n<p>Chefiada por Paulo Nogueira Batista, um diplomata de carreira, a rec\u00e9m-criada Nuclebras, na d\u00e9cada de 1970, foi encarregada de implementar o programa nuclear. Ap\u00f3s a \u00cdndia testar uma bomba nuclear em 1974, no entanto, os EUA suspenderam a coopera\u00e7\u00e3o nuclear com o Brasil, que passou a privilegiar as negocia\u00e7\u00f5es com a Fran\u00e7a e com a Alemanha Ocidental para transfer\u00eancia de tecnologia. A partir da\u00ed, passou a sofrer fortes press\u00f5es de EUA, Reino Unido, Canad\u00e1, Fran\u00e7a e da antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, que somente cessaram quando o Brasil e a Alemanha Ocidental assinaram um acordo com a Ag\u00eancia Internacional de Energia At\u00f4mica que assegura a natureza pac\u00edfica do programa nuclear brasileiro.<\/p>\n<p>Coube ao ent\u00e3o presidente Collor de Mello p\u00f4r uma p\u00e1 de cal no projeto, ao lacrar os po\u00e7os localizados na base a\u00e9rea da Serra do Cachimbo, no Par\u00e1, em setembro de 1990. As atividades nucleares foram reduzidas ao programa de desenvolvimento de um submarino nuclear e \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de duas usinas nucleares adicionais em Angra dos Reis (RJ). O Livro Branco de Defesa Nacional, divulgado em 2012 e publicado pelo Minist\u00e9rio da Defesa, reafirma que a Am\u00e9rica Latina \u00e9 uma Zona Livre de Armas Nucleares e que o Brasil defende o desarmamento nuclear. Tamb\u00e9m afirma que o submarino de propuls\u00e3o nuclear contribuiria para a prote\u00e7\u00e3o de rotas comerciais, a manuten\u00e7\u00e3o da livre navega\u00e7\u00e3o, a prote\u00e7\u00e3o de recursos naturais e a promo\u00e7\u00e3o do desenvolvimento tecnol\u00f3gico no pa\u00eds.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;O Brasil sonhou com a bomba at\u00f4mica durante o regime militar. 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