{"id":3775,"date":"2019-05-19T08:12:23","date_gmt":"2019-05-19T11:12:23","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=3775"},"modified":"2019-05-19T08:12:23","modified_gmt":"2019-05-19T11:12:23","slug":"nas-entrelinhas-gaiato-no-navio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-gaiato-no-navio\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Gaiato no navio"},"content":{"rendered":"<p>\u201c<i><b>O \u201capelo \u00e0s massas\u201d \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o recorrente na pol\u00edtica brasileira, quando presidentes se veem em dificuldades com a economia e o Congresso, mas n\u00e3o costuma dar certo. Bolsonaro lembra J\u00e2nio Quadros e Collor de Mello\u201d<\/b><\/i><\/p>\n<p>A aparente desorienta\u00e7\u00e3o do presidente Jair Bolsonaro, que compartilhou de forma enigm\u00e1tica, na sua rede pessoal de WhatsApp, um texto do economista Jo\u00e3o Portinho, no qual o autor afirma que o pa\u00eds \u00e9 ingovern\u00e1vel por causa das corpora\u00e7\u00f5es, do Congresso e do Judici\u00e1rio, lembra um velho rock de Os Paralamas do Sucesso, Mel\u00f4 do marinheiro, de Bi Ribeiro e Jo\u00e3o Barone: \u201cEntrei de gaiato num navio\/ Entrei, entrei, entrei pelo cano\/ Entrei de gaiato\/ Entrei, entrei, entrei por engano\u201d, diz o refr\u00e3o. \u00c9 uma analogia quase perfeita com a situa\u00e7\u00e3o: \u201cAceitei, me engajei, fui conhecer a embarca\u00e7\u00e3o\/ A popa e o conv\u00e9s, a proa e o tim\u00e3o\/ Tudo bem bonito pra chamar a aten\u00e7\u00e3o\/ Foi quando eu recebi um balde d\u2019\u00e1gua e sab\u00e3o\/ T\u00e1 vendo essa sujeira bem debaixo dos seus p\u00e9s?\/ Pois deixa de moleza e vai lavando esse conv\u00e9s!\u201d<\/p>\n<p>Sucesso na voz de Hebbert Vianna, a m\u00fasica prossegue: \u201cQuando eu dei por mim eu j\u00e1 estava em alto-mar\/Sem a menor chance nem vontade de voltar\/Pensei que era moleza, mas foi pura ilus\u00e3o\/Conhecer o mundo inteiro sem gastar nenhum tost\u00e3o\/Liverpool, Baltimore, Bangkok e Jap\u00e3o\/ E eu aqui descascando batata no por\u00e3o!\u201d A divulga\u00e7\u00e3o do texto por Bolsonaro, com um coment\u00e1rio que revelava sua frustra\u00e7\u00e3o no cargo, provocou boatos e muita confus\u00e3o pol\u00edtica. Fontes palacianas vazaram para a imprensa que o presidente da Rep\u00fablica, desgostoso com as dificuldades que enfrenta, estaria disposto at\u00e9 a renunciar para n\u00e3o ceder \u00e0s press\u00f5es do Congresso, por mais espa\u00e7o no governo em troca da aprova\u00e7\u00e3o da reforma da Previd\u00eancia. O vazamento foi atribu\u00eddo a militares, que estariam em rota de colis\u00e3o com Bolsonaro.<\/p>\n<p>O diagn\u00f3stico foi catastr\u00f3fico para o governo. Ao ser indagado sobre o texto ontem, em frente ao Pal\u00e1cio da Alvorada, Bolsonaro minimizou sua repercuss\u00e3o: \u201cO texto? Pergunta para o autor. Eu apenas passei para meia d\u00fazia de pessoas\u201d. Entretanto, em linha com a narrativa de Portinho, apoiadores de Bolsonaro est\u00e3o convocando uma manifesta\u00e7\u00e3o para o pr\u00f3ximo dia 26, cujo objetivo seria \u201cinvadir\u201d o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF). Movimentos c\u00edvicos como Vem Pra Rua, liderado por Rog\u00e9rio Chequer, e Movimento Brasil Livre (MBL), de Kim Kataguiri, tamb\u00e9m nas redes sociais, por\u00e9m, se manifestaram contra o movimento, que virou um dos assuntos quentes deste fim de semana.<\/p>\n<p>Outro assunto \u00e9 a quebra do sigilo banc\u00e1rio de Fabr\u00edcio Queiroz, ex-assessor do senador Fl\u00e1vio Bolsonaro (PSL-RJ), filho do presidente da Rep\u00fablica. De janeiro a dezembro de 2016, a conta no Ita\u00fa aberta por Queiroz na ag\u00eancia Personnalit\u00e9 Freguesia, no Rio, movimentou R$ 1,23 milh\u00e3o. Os dep\u00f3sitos em dinheiro representam um ter\u00e7o do total de R$ 605.652 que entraram na conta. Tamb\u00e9m ter\u00e3o as contas banc\u00e1rias investigadas a esposa de Fl\u00e1vio, Fernanda Bolsonaro; uma empresa do casal, Bolsotini Chocolates e Caf\u00e9 Ltda; as duas filhas de Queiroz, Nathalia e Evelyn; e a esposa do ex-assessor, Marcia. Outros 88 ex-funcion\u00e1rios do gabinete, seus parentes e empresas relacionadas a eles tamb\u00e9m ter\u00e3o as informa\u00e7\u00f5es banc\u00e1rias checadas. Entre os investigados est\u00e3o Danielle N\u00f3brega e Raimunda Magalh\u00e3es, irm\u00e3 e m\u00e3e do ex-PM Adriano Magalh\u00e3es da N\u00f3brega, o homem-forte do \u201cEscrit\u00f3rio do crime\u201d, organiza\u00e7\u00e3o de milicianos suspeitos de envolvimento no assassinato da vereadora carioca Marielle Franco.<\/p>\n<p><b>Ideologia<\/b><br \/>\nO \u201capelo \u00e0s massas\u201d \u00e9 recorrente na pol\u00edtica brasileira, quando presidentes se veem em dificuldades com a economia e o Congresso, mas n\u00e3o costuma dar certo. Bolsonaro lembra J\u00e2nio Quadros e Collor de Mello, simultaneamente. O primeiro renunciou ao mandato, acreditando que voltaria ao poder nos bra\u00e7os do povo; o segundo, convocou seus apoiadores a vestir verde e amarelo e acabou for\u00e7ado a renunciar pela campanha do impeachment. A voz rouca das ruas, como dizia o falecido deputado Ulysses Guimar\u00e3es, se manifestou na semana passada pela primeira vez ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es, por causa do contingenciamento de verbas das universidades federais, com forte repercuss\u00e3o no Congresso. A convoca\u00e7\u00e3o de uma manifesta\u00e7\u00e3o em apoio ao governo como resposta n\u00e3o vai resolver os problemas do pa\u00eds, apenas eleva a temperatura pol\u00edtica e aumenta a radicaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O governo tem duas ordens de problemas: uma \u00e9 estrutural, a crise fiscal, a estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e o desemprego em massa demandam reformas econ\u00f4micas, principalmente a da Previd\u00eancia; a outra \u00e9 pol\u00edtica, passa por reformas nas institui\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o contingenciadas pela Constitui\u00e7\u00e3o, ou seja, pelo Congresso e o Judici\u00e1rio. A maneira correta de lidar com isso \u00e9 a apresenta\u00e7\u00e3o de propostas tecnicamente robustas e politicamente exequ\u00edveis, n\u00e3o h\u00e1 outro caminho na democracia. O problema \u00e9 que Bolsonaro est\u00e1 focado numa revolu\u00e7\u00e3o conservadora, inspirada em certa nostalgia reacion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Houve, no mundo, uma revolu\u00e7\u00e3o cultural bem-sucedida, com o feminismo, os direitos dos homossexuais e o decl\u00ednio da autoridade patriarcal, mas n\u00e3o houve uma revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. A democracia representativa foi posta em xeque pelo globalismo e o multiculturalismo. \u00c9 nesse cen\u00e1rio que autores reacion\u00e1rios, como Olavo de Carvalho, encontraram seu p\u00fablico e ajudaram pol\u00edticos de direita do Ocidente a sair do isolamento e catalisar as insatisfa\u00e7\u00f5es populares, chegando ao poder em alguns pa\u00edses, entre os quais os Estados Unidos. Toda ideologia, por\u00e9m, \u00e9 uma vis\u00e3o distorcida da realidade; diante da objetividade dos nossos problemas, o Brasil precisa \u00e9 de coes\u00e3o pol\u00edtica para sair do atoleiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO \u201capelo \u00e0s massas\u201d \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o recorrente na pol\u00edtica brasileira, quando presidentes se veem em dificuldades com a economia e o Congresso, mas n\u00e3o costuma dar certo. 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