{"id":378,"date":"2016-04-03T01:00:38","date_gmt":"2016-04-03T04:00:38","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=378"},"modified":"2016-04-03T11:17:43","modified_gmt":"2016-04-03T14:17:43","slug":"cortina-da-crise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/cortina-da-crise\/","title":{"rendered":"A cortina da crise"},"content":{"rendered":"<p><em>A economia est\u00e1 se desmanchando. A democracia brasileira foi bloqueada. Um pacto perverso garroteou suas institui\u00e7\u00f5es<\/em><\/p>\n<p>Num antol\u00f3gico ensaio sobre o romance, o escritor tcheco Milan Kundera enaltece a import\u00e2ncia da obra de Cervantes para toda a literatura contempor\u00e2nea: &#8220;Uma cortina m\u00e1gica, tecida de lendas, estava suspensa diante do mundo. Cervantes mandou Dom Quixote viajar e rasgou essa cortina. O mundo se abriu diante do cavaleiro errante em toda nudez c\u00f4mica de sua prosa&#8221;. \u00c9 a inven\u00e7\u00e3o do romance, a &#8220;marca de identidade&#8221; de uma arte.<br \/>\nSegundo Kundera, assim como uma mulher que se maquia antes de sair apressada para o primeiro encontro, quando o mundo corre em nossa dire\u00e7\u00e3o no momento em que nascemos, j\u00e1 est\u00e1 maquiado, mascarado, pr\u00e9-interpretado. &#8220;E os conformistas n\u00e3o ser\u00e3o os \u00fanicos a ser enganados; os seres rebeldes, \u00e1vidos de se opor a tudo e a todos, n\u00e3o se d\u00e3o conta do quanto tamb\u00e9m est\u00e3o sendo obedientes, n\u00e3o se revoltar\u00e3o a n\u00e3o ser contra o que \u00e9 interpretado (pr\u00e9-interpretado) como digno de revolta.&#8221;<br \/>\nAo fazer um paralelo entre a pintura e a literatura, Kundera destaca o quadro c\u00e9lebre de Delacroix, A liberdade guiando o povo, que retrata &#8220;uma mulher jovem numa barricada, o rosto severo, os seios nus inspirando medo; ao seu lado, um revolucion\u00e1rio maltrapilho com uma pistola na m\u00e3o&#8221;. Kundera n\u00e3o gosta da pintura, mas reconhece a obra de arte. Adverte, por\u00e9m, que um romance que glorifique semelhantes posturas convencionais, s\u00edmbolos t\u00e3o gastos, se excluiria da hist\u00f3ria da literatura. De fato, foi o que aconteceu com a maioria os autores do realismo socialista.<br \/>\nA Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato se desenrola como um grande romance, pois rasga a cortina de um mundo pol\u00edtico maquiado, mascarado e pr\u00e9-interpretado. Entretanto, nada pode contra a cegueira manique\u00edsta, causada por um conjunto de ideias que se tornaram anacr\u00f4nicas ap\u00f3s a queda do Muro de Berlim, a dissolu\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e o fim da guerra fria. Postas em pr\u00e1tica, essas ideias levam a economia \u00e0 bancarrota e bloqueiam a renova\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, al\u00e9m de resultar numa crise \u00e9tica sem precedentes.<br \/>\nA cortina da pol\u00edtica brasileira pode ser bem traduzido pelas palavras do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Lu\u00eds Roberto Barroso, numa conversa informal com estudantes de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em economia, gravadas sem que ele soubesse pelo sistema de tev\u00ea da Corte: &#8220;Quando, anteontem, o jornal exibia que o PMDB desembarcou do governo e mostrava as pessoas que erguiam as m\u00e3os, eu olhei e, meu Deus do c\u00e9u, essa \u00e9 a nossa alternativa de poder. Eu n\u00e3o vou fulanizar, mas quem viu a foto sabe do que estou falando.&#8221;<br \/>\n&#8220;O problema da pol\u00edtica neste momento, eu diria, \u00e9 a falta de alternativa. N\u00e3o tem para onde correr. Isso \u00e9 um desastre. Numa sociedade democr\u00e1tica, a pol\u00edtica \u00e9 um g\u00eanero de primeira necessidade. A pol\u00edtica morreu. Talvez eu tenha exagerado, mas ela est\u00e1 gravemente enferma. \u00c9 preciso mudar&#8221;, disparou o ministro. Como rasgar essa cortina? Essa \u00e9 a quest\u00e3o que est\u00e1 posta. Gostem ou n\u00e3o os pol\u00edticos, para a sociedade, quem est\u00e1 rasgando a cortina \u00e9 a Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato.<\/p>\n<p><strong>Ideias anacr\u00f4nicas<\/strong><\/p>\n<p>Na raiz do impasse nacional, h\u00e1 duas concep\u00e7\u00f5es que tecem a crise tr\u00edplice: de um lado, a ideia de que o Estado \u00e9 o tutor e provedor da sociedade; de outro, a de que os fins justificam os meios, ainda mais se os objetivos s\u00e3o, digamos, (pseudo) revolucion\u00e1rios. O fracasso do governo Dilma Rousseff pode ser atribu\u00eddo a esses dois aspectos, basta fazer uma retrospectiva dos erros cometidos na condu\u00e7\u00e3o da economia e agora mesmo, no fragor da batalha, das a\u00e7\u00f5es em curso para reorganizar a base do governo contra o impeachment.<br \/>\nA presidente Dilma Rousseff mobiliza correligion\u00e1rios e aliados, montou um palanque no Pal\u00e1cio do Planalto para atacar a Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato e defender seu mandato. Recorre ao passado e compara a situa\u00e7\u00e3o atual \u00e0s crises que levaram o presidente Get\u00falio Vargas ao suic\u00eddio, em 1954, e os militares ao golpe de Estado que destituiu Jo\u00e3o Goulart, em 1964. Mascara, por\u00e9m, a realidade e tenta fechar a cortina de seu mundo maquiado e pr\u00e9-interpretado. Ser\u00e1 mesmo essa a alternativa que nos resta?<br \/>\nFala-se muito em defesa do Estado democr\u00e1tico e das garantias e direitos individuais, embora os militares (protagonistas das rupturas de 1889, 1930 e 1964) estejam quietos no seu canto. A economia est\u00e1 se desmanchando. A democracia brasileira foi bloqueada. Um pacto perverso garroteou suas institui\u00e7\u00f5es. Quem pode impedir que a cortina seja remendada pelo Executivo? O Congresso Nacional, se tamb\u00e9m purgar seus pecados e cortar na pr\u00f3pria carne; ou o Supremo Tribunal Federal, se levar adiante a Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato e iluminar o palco da renova\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A economia est\u00e1 se desmanchando. A democracia brasileira foi bloqueada. Um pacto perverso garroteou suas institui\u00e7\u00f5es Num antol\u00f3gico ensaio sobre o romance, o escritor tcheco Milan Kundera enaltece a import\u00e2ncia da obra de Cervantes para toda a literatura contempor\u00e2nea: &#8220;Uma cortina m\u00e1gica, tecida de lendas, estava suspensa diante do mundo. Cervantes mandou Dom Quixote viajar e rasgou essa cortina. 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