{"id":3791,"date":"2019-05-24T08:33:55","date_gmt":"2019-05-24T11:33:55","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=3791"},"modified":"2019-05-24T08:33:55","modified_gmt":"2019-05-24T11:33:55","slug":"nas-entrelinhas-a-politica-das-redes-sociais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-a-politica-das-redes-sociais\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: A pol\u00edtica das redes sociais"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>&#8220;Os pol\u00edticos que emergiram das redes sociais, inclusive presidente Jair Bolsonaro, tamb\u00e9m est\u00e3o passando pelo aprendizado de ter que lidar com a pol\u00edtica institucional&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Foi-se a \u00e9poca em que a pol\u00edtica era monop\u00f3lio dos pol\u00edticos, dos militares e dos diplomatas. Na pol\u00edtica moderna, principalmente depois da II Guerra Mundial, passou a ser tamb\u00e9m o universo de atua\u00e7\u00e3o da burocracia e dos cidad\u00e3os, em raz\u00e3o da amplia\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a do Estado na vida da sociedade e do surgimento de partidos de massas de car\u00e1ter democr\u00e1tico. Eram esses os grandes atores da democracia representativa, que parecia consolidada ap\u00f3s o fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e o colapso do chamado socialismo no Leste Europeu, at\u00e9 que a crise fiscal colocou em xeque as pol\u00edticas social-democratas e social-liberais e os partidos pol\u00edticos e a imprensa foram ultrapassados pelas redes sociais na forma\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>O Brasil n\u00e3o est\u00e1 fora desse contexto, muito pelo contr\u00e1rio. O que vem acontecendo no governo Bolsonaro, a rigor, \u00e9 anterior \u00e0 sua elei\u00e7\u00e3o e faz parte desse processo, assim como foi a elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump nos Estados Unidos, a vit\u00f3ria do Brexit na Inglaterra, a emerg\u00eancia de lideran\u00e7as populistas em praticamente todos os pa\u00edses da Europa e a elei\u00e7\u00e3o de governos de extrema-direita em alguns pa\u00edses do Ocidente. O que acontece, em perspectiva, \u00e9 uma corrida para reinventar o Estado e dar conta das mudan\u00e7as provocadas pela globaliza\u00e7\u00e3o e o multilateralismo, nas quais as democracias do Ocidente enfrentam mais dificuldades do que os pa\u00edses autorit\u00e1rios do Oriente que est\u00e3o se modernizando mais rapidamente.<\/p>\n<p>Estados Unidos e China protagonizam essa corrida. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, houve uma mudan\u00e7a de eixo dos fluxos de com\u00e9rcio mundial, que se deslocaram do Atl\u00e2ntico para o Pac\u00edfico, o palco principal da guerra comercial entre essas duas pot\u00eancias econ\u00f4micas, que lideram a economia do planeta. No passado, essa disputa se deu entre a Inglaterra e a Alemanha, de igual maneira, uma pot\u00eancia mar\u00edtima e outra continental, provocando duas guerras mundiais. Espera-se que agora ocorra num ambiente de paz. O Brasil foi arrastado para essa disputa de maneira esquizofr\u00eanica, porque optou por um alinhamento autom\u00e1tico com os Estados Unidos ao mesmo tempo em que n\u00e3o pode abdicar da China como principal parceira comercial. O mais correto seria tirar partido dessa disputa.<\/p>\n<p>A elei\u00e7\u00e3o de Trump, com sua guinada nacionalista na pol\u00edtica externa, nacionalista na economia e ultraconservadora nos costumes, foi uma resposta dos eleitores norte-americanos mais conservadores, ao desemprego e \u00e0 grande massa de imigrantes latinos. De certa forma, os indicadores econ\u00f4micos dos Estados Unidos mostram que a guerra comercial de Trump com a China e a conten\u00e7\u00e3o da chegada de imigrantes est\u00e3o rendendo dividendos econ\u00f4micos favor\u00e1veis, revertendo as altas taxas de desemprego. N\u00e3o se deve subestimar a influ\u00eancia que isso vem tendo na pol\u00edtica do Ocidente. Aqui no Brasil, a elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro, sua pol\u00edtica econ\u00f4mica ultraliberal e conservadorismo radical nos costumes seguem o exemplo de Trump.<\/p>\n<p><strong>Volatilidade<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 a\u00ed que entra a pol\u00edtica nas redes sociais. Sem elas, Trump n\u00e3o seria sequer candidato do Partido Republicano. De igual maneira, Bolsonaro n\u00e3o teria sido eleito presidente da Rep\u00fablica. As redes adquiriram tal protagonismo que j\u00e1 n\u00e3o se pode fazer pol\u00edtica como antigamente, mesmo fora dos processos eleitorais. Isso vale sobretudo para os pol\u00edticos, cuja rela\u00e7\u00e3o com eleitores mudou radicalmente. O tsunami que varreu boa parte do Congresso mudou radicalmente o modo de atuar no parlamento brasileiro. Basta ver as \u201clives\u201d que os deputados eleitos pelas redes sociais fazem constantemente no pr\u00f3prio plen\u00e1rio da C\u00e2mara e do Senado, com as transmiss\u00f5es ao vivo de sua atua\u00e7\u00e3o e narrativas \u201ccustomizadas\u201d sobre as sess\u00f5es legislativas, com posts e v\u00eddeos com a interpreta\u00e7\u00e3o de cada um sobre o que acontece no Congresso em tempo real.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre o Executivo e os demais poderes, inclusive o Judici\u00e1rio, cujo v\u00e9rtice, o Supremo Tribunal Federal (STF), tamb\u00e9m \u00e9 midi\u00e1tico, mudou significativamente, em meio a disputas pela afirma\u00e7\u00e3o de cada poder. Tudo mediado pelas redes sociais, nas quais partidos, grupos de press\u00e3o e cidad\u00e3os influenciam o posicionamento de cada parlamentar nas vota\u00e7\u00f5es. Mesmo os meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa tradicionais, inclusive a televis\u00e3o, est\u00e3o sendo obrigados a serem cada vez mais interativos e presentes nas redes sociais, para manterem seus p\u00fablicos e influenciarem os novos atores. Os pol\u00edticos tradicionais que sobreviveram ao tsunami de 2018 est\u00e3o aprendendo a lidar com a nova situa\u00e7\u00e3o e repensando sua forma de atua\u00e7\u00e3o, levados pelo instinto de sobreviv\u00eancia e pela nova experi\u00eancia que est\u00e3o passando no pr\u00f3prio Congresso.<\/p>\n<p>Entretanto, os pol\u00edticos que emergiram das redes sociais, como o pr\u00f3prio presidente Jair Bolsonaro, tamb\u00e9m est\u00e3o passando pelo aprendizado de ter que lidar com a pol\u00edtica institucional, com as regras do jogo democr\u00e1tico e a dura realidade da dist\u00e2ncia existente entre o mundo virtual de redes sociais e a capacidade de dar respostas efetivas e velozes \u00e0 crise do sistema representativo e do modelo de capitalismo de Estado colapsado pela crise fiscal. No caso do presidente da Rep\u00fablica, o car\u00e1ter bonapartista de seu governo n\u00e3o o coloca acima de classes sociais bem definidas e partidos pol\u00edticos, como no modelo cl\u00e1ssico de \u201cregime do sabre\u201d, mas numa esp\u00e9cie de tapete voador ao sabor das ondas telem\u00e1ticas de uma \u201csociedade l\u00edquida\u201d, com risco permanente de volatiliza\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria imagem. E a\u00ed que todos os atores em cena \u2014 pol\u00edticos, militares, diplomatas, burocratas, formadores de opini\u00e3o, influenciadores digitais e cidad\u00e3os \u2014 est\u00e3o desafiados a encontrar sa\u00eddas robustas para os impasses que se apresentam \u00e0 democracia brasileira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Os pol\u00edticos que emergiram das redes sociais, inclusive presidente Jair Bolsonaro, tamb\u00e9m est\u00e3o passando pelo aprendizado de ter que lidar com a pol\u00edtica institucional&#8221; Foi-se a \u00e9poca em que a pol\u00edtica era monop\u00f3lio dos pol\u00edticos, dos militares e dos diplomatas. 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