{"id":3859,"date":"2019-06-23T07:58:53","date_gmt":"2019-06-23T10:58:53","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=3859"},"modified":"2019-06-23T17:23:55","modified_gmt":"2019-06-23T20:23:55","slug":"nas-entrelinhas-meus-liberais-preferidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-meus-liberais-preferidos\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Meus liberais preferidos"},"content":{"rendered":"<p>\u201c<strong><em>O presidente da Rep\u00fablica n\u00e3o est\u00e1 empenhado em construir um amplo apoio no Congresso. \u00c9 homem de confronto, gosta da radicaliza\u00e7\u00e3o de extrema direita e do embate pol\u00edtico na sociedade\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Tr\u00eas homens p\u00fablicos conduziram o processo de luta contra o regime militar no antigo MDB, eram velhos caciques do antigo PSD: Ulysses Guimar\u00e3es (SP), um democrata radical; Tancredo Neves (MG), um liberal moderado; e Amaral Peixoto (RJ), um conservador. Havia outros, mas nada acontecia sem que os tr\u00eas entrassem em acordo. Para quem n\u00e3o sabe, desses tr\u00eas, quem apoiou o golpe militar e depois se arrependeu foi Ulysses. N\u00e3o foi o \u00fanico, o ex-presidente Juscelino Kubitschek (PSD) tamb\u00e9m apoiou a derrubada do presidente Jo\u00e3o Goulart, para surpresa de muitos, pois era o favorito disparado \u00e0s elei\u00e7\u00f5es convocadas para 1965.<\/p>\n<p>Governadores poderosos conspiraram de forma decisiva a favor do golpe: Carlos Lacerda (UDN), da antiga Guanabara; Magalh\u00e3es Pinto (UDN), de Minas; e Ademar de Barros (PSP), de S\u00e3o Paulo. Acreditavam que a destitui\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Goulart facilitaria a chegada deles \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. Acontece que os militares liderados pelo marechal Castelo Branco, que assumira a Presid\u00eancia, pretendiam ficar longo tempo no poder.<\/p>\n<p>Homens de articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, Ulysses, Tancredo e Amaral, sem pretens\u00f5es presidenciais \u00e0 \u00e9poca \u2014 afinal, a barra estava muito pesada \u2014, sobreviveram \u00e0s cassa\u00e7\u00f5es por subvers\u00e3o ou corrup\u00e7\u00e3o, mantiveram seus direitos pol\u00edticos e respectivos mandatos. Resolveram apoiar a forma\u00e7\u00e3o do MDB, o \u00fanico partido de oposi\u00e7\u00e3o permitido pelo regime, que quase se dissolveu em 1970, ap\u00f3s acachapante derrota eleitoral para a Arena, o partido do governo.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s assumir o comando do MDB no lugar de Pedroso Horta, num lance quixotesco, Ulysses se lan\u00e7ou anticandidato a presidente da Rep\u00fablica na sucess\u00e3o do general Garrastazu M\u00e9dici, o mais linha-dura dos presidentes militares, em 1973, confrontando a candidatura de cartas marcadas do general Ernesto Geisel. Pavimentou, assim, com apoio de Tancredo, Amaral e outros l\u00edderes de oposi\u00e7\u00e3o, a surpreendente vit\u00f3ria do MDB nas elei\u00e7\u00f5es de 1974. Se observarmos a trajet\u00f3ria de cada um dos tr\u00eas caciques at\u00e9 a redemocratiza\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, veremos que caminharam juntos, mas com estrat\u00e9gias diferentes.<\/p>\n<p>Ulysses apostou no cen\u00e1rio de ruptura com o regime, a partir da mobiliza\u00e7\u00e3o da sociedade, com uma narrativa de democrata radical. Quase chegou l\u00e1 com a campanha das Diretas J\u00e1. Tancredo confiou na sua capacidade de articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, buscou criar um partido, o PP, para viabilizar uma transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica negociada com os militares, mas teve que voltar atr\u00e1s com o \u00a0voto vinculado, um retrocesso na abertura. Amaral, que considerara o golpe de 1964 \u201ca morte da pol\u00edtica\u201d, apostou na transi\u00e7\u00e3o por dentro do regime e assumiu o comando do PDS, no qual a antiga Arena havia se metamorfoseado, para viabilizar um pol\u00edtico civil na sucess\u00e3o de Figueiredo. A escolha de Paulo Maluf como candidato do governo frustrou seus planos. Mas havia Tancredo&#8230;<\/p>\n<p><b>Concilia\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>O mais importante, nessa retrospectiva, creio, \u00e9 que os tr\u00eas pol\u00edticos sempre acabavam se acertando. Eram craques da pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o. No dia seguinte \u00e0 vota\u00e7\u00e3o das Diretas J\u00e1, que n\u00e3o foi aprovada, os tr\u00eas se reuniram para selar a alian\u00e7a que garantiria maioria para Tancredo no col\u00e9gio eleitoral. Um racha no partido do governo deu origem ao Partido da Frente Liberal (PFL) e garantiu o cargo de vice-presidente na chapa de Tancredo para o ent\u00e3o governista Jos\u00e9 Sarney, um antigo integrante da UDN Bossa Nova.<\/p>\n<p>Sim, houve ampla mobiliza\u00e7\u00e3o popular, uma onda sem precedentes de greves e mobiliza\u00e7\u00f5es estudantis; novas lideran\u00e7as despontavam, como o ent\u00e3o l\u00edder oper\u00e1rio Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, al\u00e9m de pol\u00edticos como Franco Montoro, M\u00e1rio Covas, Leonel Brizola, Fernando Henrique Cardoso. Mas a dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do processo era deles e resultou na elei\u00e7\u00e3o de Tancredo Neves. Pol\u00edtico moderado, prometia fazer um governo com essas caracter\u00edsticas, qui\u00e7\u00e1, parlamentarista.<\/p>\n<p>A morte de Tancredo privou o pa\u00eds de um governo liberal no momento mais favor\u00e1vel. O presidente Sarney, que assumiu a Presid\u00eancia por um tr\u00e1gico acaso, a morte de Tancredo, foi contingenciado pela lideran\u00e7a incontest\u00e1vel de Ulysses na Constituinte e de Lula, nos movimentos sociais. Tentou implementar pol\u00edticas desenvolvimentistas que flertavam com o populismo. Faltava-lhe condi\u00e7\u00f5es de governabilidade para impor um programa liberal. Seu legado \u00e9 uma Constitui\u00e7\u00e3o cidad\u00e3 comprometida com os direitos humanos, mas cujo car\u00e1ter estatizante e nacional-desenvolvimentista vem sendo objeto de sucessivas emendas constitucionais. Entretanto, Sarney \u00e9 um exemplo de paci\u00eancia e pondera\u00e7\u00e3o na pol\u00edtica, que o faz ouvido at\u00e9 hoje, j\u00e1 nonagen\u00e1rio.<\/p>\n<p>Depois do fracasso do governo Collor de Melo, que renunciou ao mandato em raz\u00e3o da campanha do impeachment, mas deixou como heran\u00e7a a abertura da economia, a agenda da oposi\u00e7\u00e3o ao regime militar foi sendo gradativamente implementada pelos governos seguintes. Com grande sucesso nos casos de Fernando Henrique Cardoso (combate \u00e0 infla\u00e7\u00e3o e privatiza\u00e7\u00f5es) e Lula (amplia\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 universidade e distribui\u00e7\u00e3o de renda), ou fracasso retumbante, caso de Dilma Rousseff. Michael Temer tirou o pa\u00eds da recess\u00e3o, mas foi atropelado pela Lava-Jato quando estava em vias de aprovar a reforma da Previd\u00eancia.<\/p>\n<p>Teoricamente, a elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro possibilitaria a forma\u00e7\u00e3o de um governo conservador que realizasse as tarefas inconclusas dessa velha agenda liberal da transi\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia, havia expectativas do mercado e de setores da sociedade quanto a isso. Ledo engano. O presidente da Rep\u00fablica n\u00e3o est\u00e1 empenhado em construir um amplo apoio no Congresso. \u00c9 homem de confronto, gosta da radicaliza\u00e7\u00e3o de extrema direita e do embate pol\u00edtico na sociedade. Essa \u00e9 a sua personalidade. O pior, por\u00e9m, \u00e9 o car\u00e1ter reacion\u00e1rio da narrativa pol\u00edtica que escolheu, que busca barrar mudan\u00e7as do nosso tempo, na base do pare a Hist\u00f3ria, n\u00f3s vamos descer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO presidente da Rep\u00fablica n\u00e3o est\u00e1 empenhado em construir um amplo apoio no Congresso. \u00c9 homem de confronto, gosta da radicaliza\u00e7\u00e3o de extrema direita e do embate pol\u00edtico na sociedade\u201d Tr\u00eas homens p\u00fablicos conduziram o processo de luta contra o regime militar no antigo MDB, eram velhos caciques do antigo PSD: Ulysses Guimar\u00e3es (SP), um democrata radical; Tancredo Neves (MG), [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6,4,113,8,9,3],"tags":[436,130,114,435,434],"class_list":["post-3859","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-congresso","category-governo","category-militares","category-partidos","category-politica-2","category-politica","tag-amaral","tag-bolsonaro","tag-militares","tag-tancredo","tag-ulysses"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3859","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3859"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3859\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3869,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3859\/revisions\/3869"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3859"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3859"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3859"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}