{"id":3896,"date":"2019-07-03T07:37:21","date_gmt":"2019-07-03T10:37:21","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=3896"},"modified":"2019-07-03T07:37:21","modified_gmt":"2019-07-03T10:37:21","slug":"nas-entrelinhas-o-mito-do-homem-cordial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-mito-do-homem-cordial\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O mito do \u201chomem cordial\u201d"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>&#8220;Moro construiu sua imagem p\u00fablica sobre os pilares do mito do her\u00f3i de Homero: a grandiosidade e a singularidade. Aspirava \u00e0 imortalidade, comportava-se como um semideus da Justi\u00e7a&#8221;<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O \u201chomem cordial\u201d, de S\u00e9rgio Buarque de Holanda, n\u00e3o \u00e9 bem aquilo que o senso comum deduz \u00e0 primeira vez que se depara com o conceito-chave de sua obra seminal, Ra\u00edzes do Brasil. A express\u00e3o \u201ccordial\u201d n\u00e3o indica apenas bons modos e gentileza, vem de \u201ccordis\u201d, em latim, ou seja, relativo a cora\u00e7\u00e3o. Para Buarque, o brasileiro n\u00e3o suporta o peso da pr\u00f3pria individualidade, precisa \u201cviver nos outros\u201d. A apropria\u00e7\u00e3o afetiva do outro seria um artif\u00edcio psicol\u00f3gico e comportamental predominante na sociedade brasileira, parte integrante do nosso processo civilizat\u00f3rio.<\/p>\n<p>A cordialidade \u201cpode iludir na apar\u00eancia\u201d, explica Buarque. A polidez do \u201chomem cordial\u201d \u00e9 organiza\u00e7\u00e3o da defesa ante a sociedade. \u201cDet\u00e9m-se na parte exterior, epid\u00e9rmica, do indiv\u00edduo, podendo mesmo servir, quando necess\u00e1rio, de pe\u00e7a de resist\u00eancia. Equivale a um disfarce que permitir\u00e1 a cada qual preservar inatas suas sensibilidades e suas emo\u00e7\u00f5es.\u201d O brasileiro dispensa as formalidades, pretende estreitar as dist\u00e2ncias, n\u00e3o suporta a indiferen\u00e7a, prefere ser amado ou odiado.<\/p>\n<p>Em grande parte, a \u201cfulaniza\u00e7\u00e3o\u201d da pol\u00edtica brasileira vem desse vi\u00e9s antropol\u00f3gico, embora nossas institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas sejam surpreendentemente robustas, como destacou recentemente o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ao comentar a rela\u00e7\u00e3o do presidente Jair Bolsonaro com o Legislativo: os partidos s\u00e3o fracos, mas o Congresso \u00e9 forte. De certa maneira, as redes sociais potencializaram essas caracter\u00edsticas do \u201chomem cordial\u201d. Num primeiro momento, nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais; depois, no processo pol\u00edtico, principalmente nas disputas eleitorais.<\/p>\n<p>Bolsonaro e sua ant\u00edtese, o ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, que foi condenado e est\u00e1 preso, exacerbam essas caracter\u00edsticas da pol\u00edtica brasileira. Ambos flertam com o populismo, buscam aproxima\u00e7\u00e3o afetiva com aliados e eleitores, protagonizam a exacerba\u00e7\u00e3o das paix\u00f5es pol\u00edticas. Ambos se enquadram no \u201ctipo ideal\u201d da obra de S\u00e9rgio Buarque, se analisarmos com esse olhar o papel de cada um na vida nacional.<\/p>\n<p>E o ministro da Justi\u00e7a, S\u00e9rgio Moro, que ontem estava sendo sabatinado na C\u00e2mara, por sua atua\u00e7\u00e3o heterodoxa, digamos assim, na Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato? Pelas pr\u00f3prias caracter\u00edsticas de seu trabalho como juiz federal, seu comportamento formal e circunspecto n\u00e3o se enquadra nesse tipo ideal do \u201chomem cordial\u201d. Ou melhor, n\u00e3o se enquadrava, at\u00e9 serem reveladas as conversas que mantinha com os procuradores da for\u00e7a-tarefa da Lava-Jato.<\/p>\n<p><strong>O semideus<\/strong><\/p>\n<p>Moro construiu sua imagem p\u00fablica sobre os pilares do mito do her\u00f3i da Il\u00edada de Homero: a grandiosidade e a singularidade. Aspirava \u00e0 imortalidade, comportava-se como um semideus da Justi\u00e7a. Mas tinha uma exist\u00eancia verdadeira, que pressup\u00f5e tamb\u00e9m a volta para casa, a vida normal \u2014 at\u00e9 que a situa\u00e7\u00e3o exigisse outro gesto glorioso e individual, de grande bravura. O her\u00f3i semideus faz coisas sobre-humanas, mas n\u00e3o \u00e9 imortal.<\/p>\n<p>A fil\u00f3sofa Hannah Arendt, em A Condi\u00e7\u00e3o Humana, discorrendo sobre o mito do her\u00f3i, destaca que a sua coragem antecede as grandes batalhas, tem a ver com disposi\u00e7\u00e3o de agir e falar, se inserir no mundo e come\u00e7ar uma hist\u00f3ria pr\u00f3pria. O her\u00f3i n\u00e3o \u00e9 necessariamente o homem de grandes feitos, equivalente a um semideus; pode ser um indiv\u00edduo comum que se insere e se destaca no mundo por meio do discurso e da a\u00e7\u00e3o. O her\u00f3i \u00e9 sempre aquele que se move quando os outros est\u00e3o paralisados. Precisa fazer aquilo que outro poderia ter feito, mas n\u00e3o fez; ou melhor, o que deixaram de fazer.<\/p>\n<p>Moro se tornou uma personalidade nacional gra\u00e7as \u00e0 Lava-Jato, na qual s\u00f3 se pronunciava nos autos. Mas era aplaudido e cumprimentado nas ruas. Representava os \u00f3rg\u00e3os de controle do Estado e a \u00e9tica da responsabilidade, que zelam pela legitimidade dos meios empregados na a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Cumpriu um papel estrat\u00e9gico na luta em defesa da \u00e9tica na pol\u00edtica, vetor decisivo para o resultado das elei\u00e7\u00f5es passadas. Contra Moro, Lula n\u00e3o tinha a menor chance; seria preso, como foi, pelo juiz dur\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois das elei\u00e7\u00f5es, convidado por Bolsonaro para ser ministro da Justi\u00e7a, Moro manteve-se na crista da onda, mas deixou de ser o juiz \u201cimparcial\u201d. Esse atributo agora foi posto em xeque. As revela\u00e7\u00f5es do site The Intercept Brasil sobre supostas trocas de mensagens entre Moro e procuradores da Lava-Jato em Curitiba sugerem a interven\u00e7\u00e3o indevida do ent\u00e3o juiz federal na condu\u00e7\u00e3o da opera\u00e7\u00e3o, inclusive com a indica\u00e7\u00e3o de poss\u00edveis testemunhas. O cristal de seu pedestal de her\u00f3i foi trincado por conversas banais nas redes sociais. O mito do her\u00f3i ainda sobrevive, mas j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa: Moro virou um pol\u00edtico, sujeito a todos os ritos da luta pol\u00edtica e do jogo democr\u00e1tico. A vida real est\u00e1 revelando a face oculta de mais um \u201chomem cordial\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Moro construiu sua imagem p\u00fablica sobre os pilares do mito do her\u00f3i de Homero: a grandiosidade e a singularidade. 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