{"id":3954,"date":"2019-07-21T06:32:59","date_gmt":"2019-07-21T09:32:59","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=3954"},"modified":"2019-07-21T06:32:59","modified_gmt":"2019-07-21T09:32:59","slug":"nas-entrelinhas-politica-sexo-e-religiao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-politica-sexo-e-religiao\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Pol\u00edtica, sexo e religi\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>&#8220;N\u00e3o h\u00e1 for\u00e7a no mundo capaz de mudar a realidade das fam\u00edlias polic\u00eantricas e multi\u00e9tnicas, nem a complexidade das identidades de g\u00eanero no estilo de vida contempor\u00e2neo\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Cl\u00e1ssico da sociologia brasileira, Casa-Grande &amp; Senzala, de Gilberto Freyre, \u00e9 uma obra pol\u00eamica desde sua primeira edi\u00e7\u00e3o, em 1933, pois desnudou aspectos da forma\u00e7\u00e3o da sociedade que a elite da \u00e9poca se recusava a considerar. Teve mais ou menos o mesmo impacto de Os Sert\u00f5es, de Euclides da Cunha, lan\u00e7ado em 1902, a maior e mais importante reportagem j\u00e1 escrita no Brasil. Seu autor descreveu com riqueza de detalhes as caracter\u00edsticas do sert\u00e3o nordestino e de seus habitantes, al\u00e9m de narrar, como testemunha ocular, a Guerra de Canudos, no interior da Bahia, uma trag\u00e9dia nacional.<\/p>\n<p>Nas palavras de Ant\u00f4nio C\u00e2ndido, o lan\u00e7amento de Casa-Grande &amp; Senzala \u201cfoi um verdadeiro terremoto\u201d. \u00c0 \u00e9poca, houve mais cr\u00edticas \u00e0 direita do que \u00e0 esquerda; com o passar do tempo, por\u00e9m, Freyre passou a ser atacado por seu conservadorismo. Essa \u00e9 uma interpreta\u00e7\u00e3o err\u00f4nea da obra, por desconsiderar o papel radical que desempenhou para desmistificar preconceitos e ultrapassar valores desconectados da nossa realidade: \u201c\u00c9 uma obra surpreendente e esclarecedora sobre a forma\u00e7\u00e3o do povo brasileiro \u2014 com todas as qualidades e seus v\u00edcios\u201d, avalia C\u00e2ndido. Consagrou \u201ca import\u00e2ncia do ind\u00edgena \u2014 e principalmente do negro \u2014 no desenvolvimento racial e cultural do Brasil, que \u00e9 um dos mais complexos do mundo.\u201d<\/p>\n<p>O presidente Jair Bolsonaro talvez tenha lido Os Sert\u00f5es, de Euclides da Cunha, porque a Guerra de Canudos faz parte dos curr\u00edculos das academias militares. Esse foi o livro de cabeceira dos jovens oficiais que protagonizaram o movimento tenentista, servindo de refer\u00eancia para toda a movimenta\u00e7\u00e3o t\u00e1tica da Coluna Prestes (1924-1927), que percorreu 25 mil quil\u00f4metros pelo interior do pa\u00eds. Certamente, por\u00e9m, n\u00e3o leu Gilberto Freyre, obra seminal sobre a forma\u00e7\u00e3o da cultura brasileira, traduzida em diversos pa\u00edses. Se o fizesse, talvez conhecesse melhor e respeitasse mais os \u201cpara\u00edbas\u201d, como s\u00e3o chamados os nordestinos por aquela parcela dos cariocas que se acha melhor do que os outros. Ser paraibano \u00e9 naturalidade, n\u00e3o \u00e9 pejorativo.<\/p>\n<p>Mas voltemos ao leito antropol\u00f3gico do soci\u00f3logo pernambucano. A ideia de que o livro defende a exist\u00eancia de uma \u201cdemocracia racial\u201d no Brasil, disseminada pelos cr\u00edticos de Freyre, \u00e9 reducionista. Casa-Grande &amp; Senzala exalta a forma\u00e7\u00e3o de nosso povo, mas n\u00e3o esconde as mazelas de uma sociedade patriarcal, ignorante e violenta. A origem dessa cr\u00edtica \u00e9 o fato de que o autor destaca a especificidade de nossa escravid\u00e3o, menos segregacionista do que a espanhola e a inglesa. O colonizador portugu\u00eas n\u00e3o era um fan\u00e1tico religioso cat\u00f3lico como o espanhol nem um racista puritano como os protestantes ingleses.<\/p>\n<p><b>Fam\u00edlia unicelular<\/b><\/p>\n<p>Tanto que Casa-Grande &amp; Senzala escandalizou o pa\u00eds por causa dos cap\u00edtulos sobre a sexualidade do brasileiro. Entretanto, n\u00e3o foram os ind\u00edgenas nem os negros africanos que criaram a fama de prom\u00edscuo sexual do brasileiro. Foi o sistema escravocrata e patriarcal da coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa, que serviu para criar um ambiente de precocidade e permissividade sexuais. Tanto os \u00edndios quanto os negros eram povos que viam o sexo com naturalidade, sem a mal\u00edcia sensual dos europeus.<\/p>\n<p>Freyre lutou como um gigante contra o racismo \u201ccient\u00edfico\u201d, que atribu\u00eda aos ind\u00edgenas e ao africano as origens de nossas mazelas sociais. H\u00e1 muito mais o que dizer sobre a sua obra, mas o que a torna mais atual \u00e9 a agenda de costumes do presidente Jair Bolsonaro, que reproduz, em muitos aspectos, caracter\u00edsticas atrasadas e perversas do patriarcado brasileiro, que est\u00e3o na raiz da viol\u00eancia, da ignor\u00e2ncia e do preconceito contra os \u00edndios, os negros e as mulheres.<\/p>\n<p>Bolsonaro estabeleceu com eixo de sua atua\u00e7\u00e3o a defesa da f\u00e9, da ordem e da fam\u00edlia. H\u00e1 um forte ingrediente eleitoral nessa estrat\u00e9gia, mas n\u00e3o \u00e9 somente isso. H\u00e1 convic\u00e7\u00f5es de natureza \u201cterrivelmente\u201d religiosas e ideol\u00f3gicas, que n\u00e3o t\u00eam correspond\u00eancia com o modo de vida e o imagin\u00e1rio da maioria da sociedade brasileira, com os nossos costumes e tradi\u00e7\u00f5es, pautados pelo sincretismo e pela miscigena\u00e7\u00e3o. No Brasil, tudo \u00e9 mitigado e misturado, n\u00e3o existe pureza absoluta. Al\u00e9m disso, n\u00e3o se pode fazer a roda da Hist\u00f3ria andar para tr\u00e1s. A fam\u00edlia unicelular patriarcal, por exemplo, \u00e9 minorit\u00e1ria, nem o cl\u00e3 presidencial manteve esse padr\u00e3o; n\u00e3o h\u00e1 for\u00e7a no mundo capaz de mudar a realidade das fam\u00edlias polic\u00eantricas e multi\u00e9tnicas, nem a complexidade das identidades de g\u00eanero no estilo de vida contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>Um dos equ\u00edvocos de Bolsonaro \u00e9 acreditar que pode aprisionar a cultura nacional no \u00e2mbito dos seus dogmas. Quando investe contra o cinema nacional, a pretexto de que obras como Bruna Sufistinha, um blockbuster da nossa ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica, s\u00e3o mera pornografia e n\u00e3o um retrato da prostitui\u00e7\u00e3o no Brasil, sua motiva\u00e7\u00e3o \u00e9 mais pol\u00edtica do que religiosa. Na verdade, deve estar mais incomodado com filmes como Marighella e Democracia em vertigem, que glamoriza a luta armada e enaltece o ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula das Silva, respectivamente. Uma coisa \u00e9 a cr\u00edtica \u00e0 obra cinematogr\u00e1fica, outra \u00e9 o dirigismo oficial \u00e0 produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica, numa \u00f3tica que lembra o cinema produzido durante a II Guerra Mundial.<\/p>\n<p>Pura perda de tempo. Com \u201cuma c\u00e2mera na m\u00e3o e uma ideia na cabe\u00e7a\u201d, o Cinema Novo emergiu como resposta \u00e0 falta de recursos t\u00e9cnicos e financeiros. O que temos hoje no cinema brasileiro resulta da centralidade dada por Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e outros cineastas \u00e0 discuss\u00e3o dos problemas e quest\u00f5es ligadas \u00e0 \u201crealidade nacional\u201d e a uma linguagem inspirada na nossa pr\u00f3pria cultura. \u201cDomesticar\u201d a cultura popular \u00e9 uma tarefa t\u00e3o ingl\u00f3ria como foi a censura \u00e0 m\u00fasica popular no regime militar, tanto quanto obrigar os jovens a manter a virgindade at\u00e9 o casamento e mandar os gays de volta para dentro dos arm\u00e1rios.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;N\u00e3o h\u00e1 for\u00e7a no mundo capaz de mudar a realidade das fam\u00edlias polic\u00eantricas e multi\u00e9tnicas, nem a complexidade das identidades de g\u00eanero no estilo de vida contempor\u00e2neo\u201d Cl\u00e1ssico da sociologia brasileira, Casa-Grande &amp; Senzala, de Gilberto Freyre, \u00e9 uma obra pol\u00eamica desde sua primeira edi\u00e7\u00e3o, em 1933, pois desnudou aspectos da forma\u00e7\u00e3o da sociedade que a elite da \u00e9poca se [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[169,28,4,7,32,9,3,384,68],"tags":[130,101,452,395,453,445],"class_list":["post-3954","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cinema","category-cultura","category-governo","category-justica","category-juventude","category-politica-2","category-politica","category-religiao","category-violencia","tag-bolsonaro","tag-cinema","tag-familia","tag-religiao","tag-sexo","tag-a"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3954","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3954"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3954\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3963,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3954\/revisions\/3963"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3954"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3954"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3954"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}