{"id":3999,"date":"2019-08-04T07:39:51","date_gmt":"2019-08-04T10:39:51","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=3999"},"modified":"2019-08-04T07:39:51","modified_gmt":"2019-08-04T10:39:51","slug":"nas-entrelinhas-romantismo-ciencia-e-fe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-romantismo-ciencia-e-fe\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Romantismo, ci\u00eancia e f\u00e9"},"content":{"rendered":"<p>\u201c<em><strong>Diante da revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica global, a subordina\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia \u00e0 religi\u00e3o e da raz\u00e3o \u00e0 f\u00e9 n\u00e3o tem a menor chance de dar certo\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O romantismo n\u00e3o foi apenas um movimento art\u00edstico e cultural, cujos grandes expoentes foram o espanhol Francisco Goya e o franc\u00eas Eug\u00e8ne Delacroix, na pintura, o ingl\u00eas Lord Byron e o alem\u00e3o Johann Wolfgang von Goethe, na literatura. Foi tamb\u00e9m um movimento pol\u00edtico e filos\u00f3fico, que surgiu na Europa em meados do s\u00e9culo 18 e durou quase todo o s\u00e9culo 19. Caracterizou-se como uma vis\u00e3o de mundo contr\u00e1ria ao racionalismo e ao Iluminismo, marcadamente nacionalista, que viria a ter um papel importante na consolida\u00e7\u00e3o dos estados nacionais, inclusive no Brasil. O romantismo valoriza o individualismo, a criatividade e a imagina\u00e7\u00e3o popular, a inspira\u00e7\u00e3o fugaz e a f\u00e9 para remover os obst\u00e1culos da vida.<\/p>\n<p>O te\u00f3logo alem\u00e3o Friedrich Schleiermacher, professor da Universidade de Berlim, bebeu das \u00e1guas do romantismo na virada do s\u00e9culo 18 para 19. Ao morrer, em 1934, deixou duas obras radicais sobre teologia \u2014 Sobre a religi\u00e3o e A f\u00e9 crist\u00e3 \u2013 e uma nova doutrina, o liberalismo teol\u00f3gico, que teve grande influ\u00eancia na Europa e nos Estados Unidos. Seu esfor\u00e7o intelectual foi voltado para dar uma resposta \u00e0 Teoria da Evolu\u00e7\u00e3o de Charles Darwin, que, ao publicar sua obra-prima, A origem das esp\u00e9cies, gerou a grande tens\u00e3o entre a vis\u00e3o conservadora da B\u00edblia e a ci\u00eancia que permanece at\u00e9 hoje. Essa tens\u00e3o era preexistente, remonta \u00e0 teoria do astr\u00f4nomo polon\u00eas Cop\u00e9rnico, publicada em 1543, na qual j\u00e1 afirmava que a Terra gira em torno do Sol e n\u00e3o o contr\u00e1rio, embora haja quem ainda acredite que a Terra \u00e9 plana.<\/p>\n<p>Durante certo per\u00edodo da Idade M\u00e9dia, a conviv\u00eancia pac\u00edfica entre a ci\u00eancia e a religi\u00e3o foi estimulada pela Igreja Cat\u00f3lica, sob inspira\u00e7\u00e3o de Tom\u00e1s de Aquino, para quem uma compreens\u00e3o maior da Cria\u00e7\u00e3o levaria ao entendimento melhor do Criador. Entretanto, quando cientistas e te\u00f3logos come\u00e7aram a chegar a conclus\u00f5es diferentes, o confronto se instalou, como aconteceu, por exemplo, em rela\u00e7\u00e3o ao c\u00e1lculo infinitesimal estudado pelos monges cat\u00f3licos, que abalava os fundamentos da geometria aristot\u00e9lica. No fim do s\u00e9culo 18, com o avan\u00e7o da ci\u00eancia e do Iluminismo, os te\u00f3logos foram em busca de novas explica\u00e7\u00f5es para os fen\u00f4menos que preservassem a coexist\u00eancia entre a religi\u00e3o e a ci\u00eancia, a raz\u00e3o e a f\u00e9, para evitar que o cristianismo fosse ultrapassado pelo materialismo.<\/p>\n<p>O pulo do gato de Schleiermacher foi equiparar a cren\u00e7a aos sentimentos, seguindo a trilha do romantismo, que colocava a emo\u00e7\u00e3o acima da raz\u00e3o, em vez de utilizar os mesmos crit\u00e9rios do conhecimento cient\u00edfico, equiparando experimenta\u00e7\u00e3o e \u201crevela\u00e7\u00e3o\u201d, para provar a verdade do cristianismo. A ci\u00eancia usa a raz\u00e3o humana para descobrir as coisas do mundo e explicar como ele existe; a B\u00edblia registra a experi\u00eancia religiosa de seus autores, explica por que o mundo existe como ele \u00e9. Como e porque s\u00e3o perguntas complementares, logo, na vis\u00e3o do te\u00f3logo alem\u00e3o, o avan\u00e7o da ci\u00eancia n\u00e3o invalidava a B\u00edblia.<\/p>\n<p><b>Reino de Deus<\/b><br \/>\nSchleiermacher redefiniu a natureza da religi\u00e3o, estabelecendo tr\u00eas n\u00edveis para a vida humana: o conhecimento, a a\u00e7\u00e3o e o sentimento. Dessa forma, a ci\u00eancia pertence ao conhecimento, a a\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e9tica e o sentimento, \u00e0 religi\u00e3o. \u201cDeus existe\u201d \u00e9 um sentimento que depende de algo maior do que n\u00f3s mesmos, n\u00e3o precisa de comprova\u00e7\u00e3o. Essa vis\u00e3o foi batizada como \u201cliberalismo protestante\u201d, mas acabou sendo muito contestada por te\u00f3logos neo-ortodoxos, porque afastava a autoridade religiosa do \u00e2mbito p\u00fablico, j\u00e1 que sentimentos s\u00e3o atributos pessoais. Qual seria o lugar do Reino de Deus?<\/p>\n<p>Por essa raz\u00e3o, o te\u00f3logo su\u00ed\u00e7o Karl Barth, na sua Carta aos Romanos, no come\u00e7o do s\u00e9culo 20, criticou duramente Schleiermacher por sua indiferen\u00e7a \u00e0s necessidades do mundo externo. Os fatos corroboraram os riscos desse alheamento: o liberalismo protestante foi acusado de omiss\u00e3o diante do nazismo, do genoc\u00eddio, da corrida nuclear e do armamentismo. Na sequ\u00eancia do debate, a pol\u00eamica avan\u00e7ou para discuss\u00e3o se Deus existe fora dos limites do tempo, ou seja, se \u00e9 capaz de prever o futuro. A teologia tradicional lhe atribui onisci\u00eancia (ou seja, total conhecimento do passado, do presente e do futuro), mas te\u00f3logos modernos questionam esse entendimento de que o futuro a Deus pertence. Nesse caso, a presci\u00eancia comprometeria a bondade divina, pois Deus nada faz para evitar o mal. Se assim fosse, argumentam, de nada adiantaria rezar. Quando o futuro \u00e9 aberto, a reza funciona como ferramenta da mudan\u00e7a, uma constru\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>Esse debate parece apartado da nossa pol\u00edtica, mas n\u00e3o \u00e9, quando nada porque o governo Bolsonaro \u00e9 \u201cterrivelmente evang\u00e9lico\u201d. N\u00e3o apenas no bord\u00e3o \u201cBrasil acima de tudo, Deus acima de todos\u201d, que adota desde a campanha eleitoral. Em suas decis\u00f5es, predominam a emo\u00e7\u00e3o, a intui\u00e7\u00e3o, as ideias preconcebidas, os preconceitos e a f\u00e9, em detrimento da raz\u00e3o, da experi\u00eancia vivida, dos indicadores estat\u00edsticos e das pesquisas cient\u00edficas que, na gest\u00e3o democr\u00e1tica e moderna, fundamentam as pol\u00edticas p\u00fablicas. Diante da revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica global, a subordina\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia \u00e0 religi\u00e3o e da raz\u00e3o \u00e0 f\u00e9 n\u00e3o tem a menor chance de dar certo.\u201cEppur si mueve!\u201d, esse \u00e9 o dilema teol\u00f3gico desde o julgamento de Galileu Galilei pela Inquisi\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cDiante da revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica global, a subordina\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia \u00e0 religi\u00e3o e da raz\u00e3o \u00e0 f\u00e9 n\u00e3o tem a menor chance de dar certo\u201d O romantismo n\u00e3o foi apenas um movimento art\u00edstico e cultural, cujos grandes expoentes foram o espanhol Francisco Goya e o franc\u00eas Eug\u00e8ne Delacroix, na pintura, o ingl\u00eas Lord Byron e o alem\u00e3o Johann Wolfgang von Goethe, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[371,4,3,9,384],"tags":[130,397,252,395,470],"class_list":["post-3999","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-etica","category-governo","category-politica","category-politica-2","category-religiao","tag-bolsonaro","tag-ciencia","tag-governo","tag-religiao","tag-romantismo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3999","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3999"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3999\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4005,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3999\/revisions\/4005"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3999"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3999"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3999"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}